Fugas - restaurantes e bares

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De mãe coragem a chef Fátima

Por Alexandra Prado Coelho

Aos 49 anos, e depois de a vida ter dado mais voltas do que ela alguma vez imaginara, a síria está prestes a deixar de cozinhar apenas para a família e a tornar-se chef num restaurante – o Mezze, que vai abrir no Mercado de Arroios, em Lisboa. Como é que Fátima chegou aqui?

Quando era pequena, na cozinha da casa dos pais, na Síria, Fátima gostava de ver a mãe a rechear folhas de videira com arroz, enrolando-as delicadamente para não as partir. “Enrolar a folha é uma coisa muito especial, se não ficar bem feito o arroz vai cair”, explica o filho Rafat, que traduz a conversa com a Fugas porque o português de Fátima ainda não é suficiente.

Há muitas especialidades sírias, como este yalanji, ou o kibbeh, pastéis de bulgur recheados com carne, que são trabalhosas, mas esse trabalho é parte do prazer quando se cozinha com amor. E eram precisamente as coisas mais difíceis que fascinavam Fátima, ansiosa por as conseguir fazer tão bem como a mãe.

Hoje, aos 49 anos e depois de a vida ter dado mais voltas do que ela alguma vez imaginara, está prestes a deixar de cozinhar apenas para a família e a tornar-se chef num restaurante – o Mezze, que vai abrir no Mercado de Arroios, em Lisboa. Como é que Fátima chegou aqui?

Há cerca de dois anos que vive em Lisboa com quatro dos seus cinco filhos, os dois genros e quatro netos. E vários deles vão trabalhar ao seu lado no Mezze: Rafat, o filho de 21 anos, que ficará na sala, e as duas filhas, Rana, de 28 anos, e Reem, de 27, na cozinha (o filho mais novo, Yahya está ainda a estudar).

Para trás ficaram os primeiros tempos da brutal guerra na Síria: a saída da casa onde viviam porque deixara de ser segura, a morte do marido de Fátima quando tentou regressar para recuperar alguns pertences, a fuga da família para o Egipto, as dificuldades por que passaram neste país, tentando sobreviver numa situação muito difícil.

Até que surgiu a possibilidade de virem como refugiados para Portugal e Fátima achou que era a melhor solução para voltarem a ter alguma segurança. Apenas uma coisa a deixa ainda inconsolável: um dos seus filhos, Rateb, ficou na Turquia com a mulher e um filho e não consegue o estatuto de refugiado para poder reunir-se com a família em Portugal. Fátima fala deste filho, que não vê há cinco anos, em todas as entrevistas que dá, na esperança de que alguma porta se abra para que todos possam finalmente ficar juntos.

Chegados a Portugal, começaram a pensar o que poderiam fazer para trabalhar. “Pensámos abrir uma casa de costura”, explica Rafat. “O meu cunhado é costureiro, eu também trabalhei como costureiro no Egipto e a minha mãe tem um bocadinho de experiência porque tínhamos uma máquina em casa e ela fazia coisas para nós.”

A outra ideia que tiveram foi a de abrir um restaurante, mas rapidamente perceberam que, sozinhos e ainda lutando com dificuldades com a língua portuguesa, seria muito difícil. Em Damasco, o marido de Fátima tinha um restaurante de take-away especializado em kebabs e frangos assados, mas “era muito diferente” do que o que queriam fazer aqui.

Foi então que um professor de português de Rafat lhe chamou a atenção para um anúncio que surgira no Facebook: a Associação Pão a Pão, criada por três portugueses e uma síria (Francisca Gorjão Henriques, Rita Melo, Nuno Mesquita e Alaa Hairi) para ajudar à integração dos refugiados do Médio Oriente em Portugal, estava à procura de quem soubesse fazer boa comida síria para uma série de jantares que iam acontecer em Dezembro de 2016 no Mercado de Santa Clara, em Lisboa – o embrião do Mezze, que nasceu depois graças a muitas ajudas e a uma bem-sucedida campanha de crowdfunding

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