Fugas - Viagens

  • Na capital argentina as pessoas podem andar lado a lado nos passeios, e as avenidas talvez sejam as mais largas do mundo
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  • Omnipresente Maradona
    Omnipresente Maradona
  • Buenos Aires é uma cidade de nariz enfiado nos livros
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  • Qualquer lugar é o jardim de Borges, o dos caminhos que se bifurcam entre o que já vivemos e o que nunca viveremos
    Qualquer lugar é o jardim de Borges, o dos caminhos que se bifurcam entre o que já vivemos e o que nunca viveremos
  • San Telmo: cafés desertos com chão aos quadrados e mesas de 100 anos onde Borges terá estado sentado com o seu amigo Bioy Casares
    San Telmo: cafés desertos com chão aos quadrados e mesas de 100 anos onde Borges terá estado sentado com o seu amigo Bioy Casares

Flores e fervor de Buenos Aires

Por Alexandra Lucas Coelho

Sem mapa e com um calor de febre, Alexandra Lucas Coelho vagueia por Buenos Aires na mão de anfitriões como o português João Pina e o "porteño" Cristian De Nápoli. A cidade de Borges, Cortázar, Gardel e Piazzolla em 13 momentos e um poema.
1.
Último copo em Rivadavia, 7178. As moradas de Buenos Aires são linhas rectas que só os "porteños" sabem onde terminam. A avenida Rivadavia vem lá do centro, da Plaza de Mayo, a das mães dos desaparecidos, e quando chega aqui, por alturas do 7000, ainda vai longe do fim.

O bairro chama-se Flores, são duas da manhã. Não é a hora das semi-prostitutas, explica Cristian. As que vimos de dia estarão em casa, têm família, um emprego. A Argentina saiu do buraco na avaliação dos mercados, mas tem famílias a dormir na rua. Muitos salários de quem vive do salário não chegam. Em Flores, bairro com placas de "Albergue transitório", as esquinas são um extra para as operárias de 30 e 40 anos.

Cristian sugere-me que leia "Las Noches de Flores", um romance de César Aira, e "La ley tu ley", de Juana Bignozzi, para ele a maior poeta argentina viva. Não preparei esta viagem, nunca li Aira nem Bignozzi. Estou a tentar lembrar-me do último argentino vivo que li. Vivo no Brasil como se a Argentina fosse outro planeta e Buenos Aires um lugar imaginário, dos livros de Borges, Cortázar, Pizarnik, dos tangos de Gardel e Piazzolla. Mas não trouxe um mapa dos clichés, ponho-me na mão dos anfitriões: Cristian De Nápoli, poeta, "porteño".

Nunca tinha usado um leque às duas da manhã, nem no Rio de Janeiro, em Fevereiro. Venho do Rio de Janeiro e é Fevereiro, o meio do Verão. Não cheira a pêssego, como num poema de Cortázar. Mais a flores e asfalto quente. Demasiado quente para vinho, até.


2.

Quatro dias antes, o meu primeiro anfitrião foi um português que fala quase "porteño".

- Não digo "che", nem "boludo" - ressalva ele.

"Che" é pá, "boludo" é idiota. Era isso que dezenas de milhares de mexicanos gritavam durante o Mundial de 2010 sempre que Maradona aparecia no écrã da praça: ""Che", "boludo"!" A Argentina ganhou, o João lembra-se do jogo.

João Pina, fotógrafo português trotamundos. Viveu anos em Buenos Aires, por agora vive em Lisboa, mas este Verão anda pela América Latina, prosseguindo um projecto pessoal sobre os desaparecidos das ditaduras militares, e este fim-de-semana estava em Buenos Aires.

Então comprei o bilhete na véspera, aterrei em Ezeiza, o aeroporto internacional lá nos confins, vi como a cidade é tão maior do que eu imaginava. 13 milhões? E o contrário do Rio de Janeiro na ausência de morros, na relação com a água. Do céu, o Rio de la Plata parece chão de barro.

É sexta à tarde. João vai fotografar Mirta Clara, uma psicóloga que foi prisioneira da ditadura. Como por acaso estamos os três no bairro de Palermo, ele vem buscar-me a pé e vamos os dois a pé buscar Mirta. Isto não quer dizer que Palermo seja pequeno, quer dizer que Buenos Aires é uma cidade onde três pessoas podem andar lado a lado no passeio e os plátanos atenuam o sol. Ruas e ruas de plátanos, acácias-rubras, jacarandás rosa.