Fugas - Viagens

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Paris, outro modo de usar

Exclusividade e mundanismo

O número 6 da avenida Mandel é o estilo de morada que dá manchete em revistas de luxo. O edifício neo-gótico, tipo palacete urbano, data de 1886 e fica no coração do16ème arrondissement, a dois passos da praça do Trocadéro. Conheceu uma série de inquilinos de alguma celebridade, incluindo Pearl White, actriz norte-americana de filmes mudos, e Jacques Homberg, patrono e amante de Christian Dior, que também chegou a viver aqui. Depois da morte de Homberg, em 2000, o prédio foi passando de mãos, até ser adquirido em 2006 pelo arquitecto paisagista Jean-Christophe Stöerkel.

Por essa altura, no entanto, os elementos Art Nouveau e Art Deco introduzidos por White tinham-se evaporado, como aliás a maior parte do recheio. O próprio edifício já pedia reforma. Stöerkel desencantou mesmo assim uma porta neo-gótica de raiz, mandou fazer outras iguais, recuperou o que pôde e reinventou o resto à medida do seu gosto, decididamente sofisticado. O piso térreo deu lugar a dois espaços desnivelados, um destinado a galeria de arte, o outro a servir de cozinha e atelier para workshops. A cozinha passou a abrir sobre um jardim que antes não existia, desenhado pelo novo proprietário, que decidiu fazer dos dois andares superiores o seu lar parisiense. Deixou vago, no entanto, o quarto no primeiro andar, que veio a decorar com tecidos e peças de mobiliário, associados a marcas e criadores de prestígio. A ideia, ainda em fase de consolidação, é fazer da moradia uma homenagem a Christian Dior. 

Ocupar o único quarto disponível neste antigo hotel particular é, portanto, ficar mais do que bem instalado. É comprar todo um programa feérico de estadia em Paris. A exclusividade vai de par com a depuração - o quarto não tem telefone, nem televisão - e conta com essa extraordinária mais-valia que é ir à janela e descobrir a Torre Eiffel ali mesmo em frente. O género de alojamento, em suma, que se recomenda para as mais variadas luas-de-mel. 

Privacidade não significa, porém, isolamento e se Stöerkel remodelou o palacete foi também para o converter num lugar de eventos. O salão envidraçado no piso térreo funciona como galeria para uma média de cinco exposições de arte contemporânea ao ano (excelente mostra de novos artistas aborígenes australianos, quando lá estivemos), arte essa que depois se dissemina por outros espaços do palacete, incluindo a própriachambre d"hôte. A cozinha, que também pode funcionar como anexo da galeria, acolheworkshops de arranjos florais e de mesa, bem como aulas de gastronomia e jantares privados de especialidades francesas e japonesas. 

6 Mandel
6, Avenue Georges Mandel
Tel.: +33 1 42272793
www.6mandel.com
Preços (euros): Pacotes de fim-de-semana a 410 (duas noites): pequeno-almoço a 20 por pessoa. 1750 é o preço médio semanal. 

Estilo "má vida"

O tempo de libertinagem e dos cabarets boémios há muito que passou à história, mesmo o sexo em versão industrial já viu melhores dias em Pigalle. O mito da "má vida" continua, porém, a verter magotes de forasteiros no distrito de Montmartre, agora transformado em babilónia turística, onde nada ou quase de genuíno persiste. Quase, porque há sempre sítios que fecham as portas durante décadas, ou mudam de ramo e, quando se vai a limpar as teias de aranha, acontece descobrirem-se testemunhos do passado milagrosamente intactos. 

É o caso justamente de um antigo baile musette, actualmente convertido em loft, num beco sem saída, a dois passos do Moulin Rogue. O proprietário é um jornalista que prefere manter um perfil discreto a respeito desta sua segunda fonte de rendimento. Mesmo assim vai dizendo que começou por comprar o espaço ao lado do dancing, que era um armazém de tapetes, onde primeiro (1875) funcionou um refeitório do pessoal camarário de Montmartre. Foi para lá viver, faz agora dez anos, até que descobriu escritos na morada ao lado. 

Acabou por comprar o que até à data era um depósito de mercadorias, mas que uma vez desocupado revelou a sua prévia e bem mais estimulante ocupação de boîte de nuit. Dessa época conservam-se as colunas de vidros espelhados que delimitavam a pista de dança e um surpreendente fresco que ocupa uma parede inteira, combinando deuses gregos com uma bailarina de french can-can, tudo bastante despido e em poses muito sugestivas. Animado por estas descobertas, o jornalista resolveu lançar-se no aluguer, conservando os elementos originais e juntando-lhes mobiliário de segunda mão. 

O refeitório convertido em duplex foi equipado com um fundo de bar da Place des Vogues, quando o sítio foi comprado por uma companhia de seguros. O dancing-loftexibe agora um elegante balcão de bar dos anos 50 e uma caixa de elevador em madeira, procedente de uma garagem vizinha. Memórias originais e transplantadas de outros lados conjugam-se assim para invocar os anos de ouro de Montmartre, mas sem nenhum do frenesim que os celebrizaram. É mais uma surpresa agradável a atmosfera de província que se respira nesta viela, florida e silenciosa, a milhas e no entanto a meia dúzia de metros apenas da agitação da Place Blanche e do Boulevard de Clichy.

Véron & Cie 7, cite Véron
Tel.: +33 614484748
ww.loft-paris.fr
Preços (euros): O aluguer do loft e do duplex fica em 220 por dia, para quatro pessoas, para uma estadia mínima de três dias. Podem, no entanto, lá ficar até oito pessoas, por apenas mais 20 a cabeça. O estúdio fica em 90? para dois, a suite em 110 para o mesmo número, também para uma estadia mínima de três noites e mais 20 por hóspede adicional. 

Design nas férias grandes

Uma vivenda de dois pisos em madeira, desenhada por um arquitecto e praticamente a estrear, não é vulgar em Paris. Muito menos no 15ème, mesmo ao lado da Torre Eiffel e dos Inválidos, num quarteirão onde os prédios se pautam pelo guião de majestade pomposa que lhes imprimiu o Barão Haussmann, na segunda metade do século XIX. Se, apesar de todo o conservadorismo, esta maison d"architecte pôde ser construída é com certeza porque é "invisível". Ou melhor, porque se trata de uma casa dentro de outra casa, uma vivenda escondida no pátio interior de um desses típicos prédios "haussmannianos" de sete pisos.

A propriedade é de um casal, que começou por comprar uma parcela do pátio, onde já existia um atelier. Entretanto a família foi crescendo, tanto que já vão em três filhos. Contrataram um arquitecto, sujeitaram o projecto de ampliação ao condomínio e à câmara, andaram para cá e para lá, até que acabaram por conseguir as autorizações. Deixaram apenas as paredes do atelier, construíram à volta e por cima um segundo piso, criando todo um jogo de volumes geométricos, cortinas de vidro e pele de madeira. Levaram três anos com as obras, mas no Verão passado já receberam os primeiros hóspedes.

O princípio é daqueles que todas as famílias com queda para o negócio e casas com algum cachet deveriam aplicar. As férias grandes nas escolas de França decorrem nos meses Julho e Agosto. Os pais e, portanto, a família inteira descola de Paris durante quatro a cinco semanas, deixando a vivenda livre para efeitos de aluguer. Quando regressam, os miúdos vão passar o resto dos dias de férias a casa dos avós e os pais seguem para os respectivos empregos. Se, neste último período, a residência unifamiliar estiver ocupada, então o casal fica alojado em apartamentos de amigos ou da família. 

Trata-se, portanto, de ficar não apenas numa casa original, mas numa que é realmente habitada por uma família parisiense. Todos os anos, no início do Verão, arrumam os seus objectos pessoais em caixotes e aproveitam para deitar fora a tralha inútil, como se estivessem para mudar de morada. Fica, no entanto, tudo o que é preciso para os eventuais inquilinos poderem viver como se estivessem em casa própria, incluindo uma cozinha que parece saída de uma montra de exposição. É o tipo de estadia que resulta numa experiência única - género que não é tipicamente parisiense mas só se pode ter em Paris.

#Tel.: + 33 (0) 145311527 ou +33 (0) 699799081 (neste caso não há site do proprietário e a única coisa que é revelada sobre a morada em antecipação é o distrito, que é o 15º) 
Preços (euros): 900 por semana com quatro quartos para entre cinco e sete pessoas (uma cama de casal e três de solteiro) 

A Fugas viajou a convite da Homelidays

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