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Danças com bois

O mesmo acontecia quando os bois chegavam de Espanha. “Os touros espanhóis fugiam para cá em busca de água e de alimento (…) e os donos ofereciam um ou outro animal para compensar os prejuízos”, resume Esteves Carreirinha, de 59 anos e natural da Aldeia da Ponte. Com os animais vinham os “capinhas” espanhóis que davam espectáculo em troco do dinheiro oferecido pela assistência. “É daí que vem o nome capeia”, informa o mesmo homem que, depois de ter ido para Lisboa no início da década de 1970, vai voltando sempre também pelo forcão. “Fui em 1972 [para Lisboa] e um ano depois voltei por um fim-de-semana, para a capeia.”

O então jovem Esteves acabaria por ir ao forcão e ser apanhado por um boi. O momento foi registado a preto e branco e habita agora um lugar de destaque na parede da sua fresca e empedrada sala. “No dia a seguir nem me conseguia mexer, mas lá fui para Lisboa apresentar-me ao serviço”, recorda animado. “E ficou com medo de lá voltar?”, é a pergunta que nos assalta. “Oh! Ainda hoje, quando posso ou quando estou mais animado, lá vou.” A “maluquice” pelos bois parece ter nascido consigo. “Eu e outros, os mais bardinos [estróinas], até faltávamos à escola; às vezes, de um grupo de 30, 15 faltavam só para ir ver os touros.”

Do lado de fora da arena da Lageosa, Lopes condensaria a paixão pondo a capeia arraiana e o futebol numa espécie de balança imaginária: “Em miúdos, na escola, pouco jogávamos à bola; preferíamos brincar ao forcão. E, pelos cafés das várias aldeias, quando a televisão transmite uma partida de bola, há barulho, conversas; quando se trata de uma corrida à portuguesa é um silêncio absoluto.”

Por tudo isto, numa altura em que “não havia nada para fazer” — “o nosso divertimento era juntarmos os tostões que tínhamos, ir comprar um bocado de carne e fazer uma patuscada que durava a noite fora”, lembra Chico Sara, de 75 anos —, não eram raras as vezes em que se atravessava a fronteira para ir buscar uns bois sem autorização.

“Aqui na parte portuguesa não havia bois — e aqui é obrigatória a pausa: não obstante o facto de muitos usarem a palavra touro no seu discurso, alguém mui veemente nos frisou: “Aqui não há touros, há bois!” — e só os poderíamos arranjar em Espanha, onde a tradição destes animais era grande”. Chico Sara ainda se lembra do tempo em que se juntava “um grupo de rapazes que, à falta do que fazer, decidia fazer uma capeia”. E, sem animais deste porte nestas terras, lá iam “a Espanha para trazer uns quantos ‘emprestados’”.

“Íamos de noite [e nessa altura não havia luz eléctrica], às vezes com uns candeeiros a petróleo, outras às apalpadelas”, recorda, divertido e de olhos a brilhar, o septuagenário. “A pé, juntávamos uns quantos bois e trazíamos os bichos pelos campos fora. Às vezes fugiam e, no dia a seguir, havia quem encontrasse um boi a mais no curral. Outras, fazíamos as nossas brincadeiras e depois soltávamos os bois. E estes iam direitinhos para casa.” “Era [uma festa] mais alegre…”

Nem sempre a brincadeira acabava bem, como relata Esteves Carreirinha: em 1942 ou 43, um dos mais valentes dos rapazes que propôs uma capeia nocturna foi morto a tiro pelos carabineiros. “O ganadeiro espanhol deve ter estranhado o cansaço dos bois e pôs gente de vigia.” A tragédia abrandou o ritmo das vezes em que se ia a Espanha apanhar os animais mas não desanimou ninguém e apenas no fim da década de 1950 se acabou definitivamente com as idas e vindas ilegais. A partir daí passou-se a proceder ao aluguer dos animais, com a guarda fronteiriça de ambos os países a facilitar o negócio e a deslocar-se aos lameiros onde os bois iam passar:  “Lembro-me perfeitamente da troca de documentos na fronteira”, conta José Ramos. Mas, depois, veio “a língua suja”, como é comummente conhecido o vírus da língua azul, “e os bois passaram a ser arranjados nas ganadarias locais”. No entanto, defendem alguns, “não são tão bravos” como os espanhóis. E, como relembra Esteves, “antigamente esperava-se sempre o maior touro”. Porque seria esse que melhor atestaria a valentia e o espírito temerário dos que faziam a lida do forcão.

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