Fugas - Viagens

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Montreal é a casa do Café Ferreira

Por Patrícia Carvalho

Com 20 anos de existência, este não é mais um restaurante português no estrangeiro. O Café Ferreira é um must nos guias de viagem, é “o local para comer peixe fresco em Montreal” e o espaço “com maior oferta de vinho do Porto no Canadá”.

Há andorinhas de Rafael Bordalo Pinheiro na parede, uma carta de vinhos com 400 ofertas (quase todas portuguesas), peixe que chega directamente de Portugal e um chef serrano, que, depois de passar por vários restaurantes em território nacional, andou emigrado pelos Estados Unidos dois anos, antes de assumir a cozinha do Café Ferreira, em Montreal.

Com 20 anos de existência, este não é mais um restaurante português no estrangeiro. O Café Ferreira descreve-se como “o local para comer peixe fresco em Montreal” e o espaço “com maior oferta de vinho do Porto no Canadá”.

É sugerido em guias prestigiados como o Lonely Planet e recebe pontuações altíssimas em sites de avaliação turística. E é tudo verdade, graças a uma outra peça que o café tem e de que ainda não falámos — o seu dono, Carlos Ferreira.

Oriundo de Estarreja, Carlos Ferreira, hoje com 60 anos, chegou ao Canadá com apenas 19. O pai foi visitar um irmão que para ali tinha emigrado e gostou tanto que decidiu mudar-se com toda a família. “Eu nunca tinha entrado num restaurante”, conta o proprietário do Café Ferreira à Fugas, mas o Canadá mudou-lhe a vida. 

Ainda exerceu a profissão que levava da terra — a de soldador — mas procurava trabalho em restaurantes em part-time, à noite. Passou por uma pastelaria belga, e foi ali que começou a fazer entregas. “E eu nem carta tinha”, conta, a rir-se. Quando os patrões expandiram o negócio, abrindo uma cervejaria, ele recebeu novas responsabilidades, mais entregas para fazer. O negócio, literalmente, “abriu-lhe todas as portas”, recorda. 

E na altura de avançar com um negócio próprio pensou primeiro numa padaria, inspirado por um artigo do New York Times, que falava de uma velha padaria escondida por um muro durante a II Guerra Mundial e que tinha renascido graças a um português. “Queria fazer pão a lenha”, diz. 

Acabou, afinal, por abrir um restaurante. Apostou nos produtos portugueses. Levou os nossos vinhos à boca de cada canadiano que se sentava para comer. Bacalhau, polvo, sardinhas, chouriço ou azeitonas passam pelas mãos do chef João Dias, numa cozinha aberta, onde os clientes vêem tudo o que se passa.

Há quem pague 500 dólares canadianos por uma garrafa de bom vinho português. E Carlos, entretanto, também já investiu nessa área — comprou terra no Douro e produz vinho e azeite para consumo do restaurante. 

Em Montreal, a sua casa de há décadas, Carlos Ferreira leva-nos primeiro ao Mont Royal, um dos pulmões verdes da cidade, com uma vista ampla sobre a cidade e casarões milionários no caminho. Mas não é ali que mora. A sua zona é a Ilha de Notre-Dame, construída com pedra e terra retiradas para a construção de metro. É aí que está o circuito de Fórmula 1 Gilles Villeneuve, que fora dos dias da corrida é zona de baixas velocidades, percorrida sobretudo por ciclistas e patinadores.

A casa de Carlos é logo ali, não muito longe, num complexo icónico de Montreal, o Habitat 67 — um conjunto de blocos assimétricos construído durante a Expo de 1967 pelo arquitecto israelo-canadiano Moshe Safdie. Carlos recorda-se de passar ali, nos anos 1970, recentemente chegado de Portugal, de estar numas escadas que hoje revisita e pensar: “Se eu um dia for rico vou ter uma casa aqui.”

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