Fugas - viagens

Luís Maio

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Volta a Paris em bicicleta

(iii) A luta de Jacob com o Anjo, tema do fresco monumental que decora a Capela dos Anjos, tem também sido objecto de descodificações oblíquas, que postulam as capacidades visionárias do seu autor Eugène Delacroix. Nesta leitura, o seu simbolismo prende-se com a famosa luta de Jacques de Molay, último chefe dos templários, com o rei Filipe o Belo, que acabou com o primeiro preso e enforcado, a lançar uma maldição sobre a dinastia dos reis de França, que só terminou com a Revolução Francesa. Esta maldição, supostamente lançada a 13 de Outubro de 1307, estará inclusive na base da superstição segundo a qual as sextas-feiras 13 dão azar.

Batatas nos Invalides

E à passagem dos Invalides, algo de completamente diferente: as famosas batatas de Parmantier. Famosas porque antes dele a maior parte dos franceses achavam que a batata era um alimento insípido, mais próprio para engordar porcos. Farmacêutico dos Inválidos, Parmentier descobrira as virtudes do tubérculo nos calabouços prussianos, durante a Guerra dos Sete Anos, mas de regresso a Paris não conseguiu convencer os seus concidadãos de que as batatas são tão ou mais nutritivas que os cereais. Até que pediu a Luis XVI e Maria Antonieta para semear batatas em Sablons, às portas de Paris (actual avenida da Grande Armée), fazendo guardar a plantação por um pelotão de soldados armados até aos dentes. O "tesouro" incendiou a curiosidade popular e até motivou roubos, em resumo, foi um sucesso, depois reiterado pelo histórico jantar de 21 de Outubro de 1787, nos Invalides, em que Parmentier serviu uns vinte pratos à base de batata, a um escol de convidados incluindo Lavoisier e Benjamin Franklin. O laboratório e o atelier do célebre farmacêutico conservam-se como estavam no Hôtel des Invalides.

Dicas preciosas

Não paramos sequer para um chazinho, mas Olivier aproveita todas as esquinas para recomendar moradas que (ainda) valem a pena nos bairros históricos e mais turísticos de Paris.

La Pagode

Passamos à porta do Bon Marche (24, Rue de Sèvres), o primeiro grand magazin (ou department store) francês, aberto em 1860, agora convertido num centro comercial de luxo. A paragem não é aí, mas uns metros mais à frente, à entrada do Pagode (57, Rue de Babylone), uma prodigiosa fantasia oriental mandada construir e, na verdade, completamente importada do Oriente por Monsieur Morin, o fundador do supracitado Bon Marche. Morin casou com uma mulher muito mais nova que ele, a rapariga era doida por todo o tipo de mercadorias orientais e ele decidiu oferecer-lhe o Pagode quando ela completou 30 anos de idade. Não serviu de grande coisa, porque a moça não demorou a fugir com um parente mais novo do marido para os Estados Unidos. Desgostado, Morin vendeu a propriedade, depois convertida em cinema. É agora um imóvel classificado e, seguramente, a sala de projecção mais original de Paris, bem acompanhada pela loja Cineimages, quase em frente.

Hotel des Grandes Écoles

Os pequenos hotéis românticos são um desses clichés da Paris eterna que hoje mais rareiam, sobretudo a preços aceitáveis. Olivier indica-nos, contudo, uma dessas excepções em que a tradição ainda é o que era: o Hotel des Grandes Écoles, que fica no Quartier Latin, a dois passos dos Invalides. Ocupa três edifícios articulados por um pátio interior e enquadrados pelo seu próprio jardim, à beira de uma rua medieval forrada a godos. Os canteiros floridos, o chilrear dos pássaros, a ausência de televisão, mais o papel de parede a forrar os quartos, igual ao do século XVIII, convergem para recriar um ambiente de palacete de província em plena cidade. Um ambiente, aliás, reminiscente do seu passado de alojamento para estudantes de parcos meios (daí o nome de Grandes Écoles), inaugurado em 1927. Os 51 quartos estão quase sempre ocupados, de modo que é preciso reservar com três a quatro meses de avanço (75, Rue du Cardinal-Lemoine, tel.: 00331 43267923; www.hotel-grandesecoles.com, duplos 115/140€).

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