Fugas - motores

O equilíbrio quase perfeito

Por Luís Francisco

Os adeptos da Mercedes apreciam, acima de tudo, a fiabilidade e a distinção da marca. Os críticos apontam-lhe alguma falta de chama. Uns e outros confirmarão as suas impressões: a versão coupé da série C é um exemplo de equilíbrio entre emoções e racionalidade. Pena o preço ser enganador, por causa das opções

A primeira impressão é dada pelo visual exterior e há-de mostrar-se bem adequada ao longo de todo o teste: estamos perante um carro que sabe conciliar como poucos os sinais exteriores de solidez e distinção com pormenores que animam um bocadinho o ritmo das batidas cardíacas. O Mercedes C 250 CDI Coupé pretende atrair uma clientela mais dinâmica do que a tradicional da marca, mas nunca cede à tentação de desvirtuar os pergaminhos da casa para lá chegar.

Ou seja, olhando daqui, este é um Mercedes e ponto final. Sim, há pormenores que dão lampejos de agressividade à silhueta do carro, mas não passam disso mesmo, de detalhes. O ar geral é muito civilizado e outra coisa não seria de esperar. Aliás, essa é a regra de ouro: um Mercedes é um Mercedes e mudar muita coisa podia estragar a relação de cumplicidade com os consumidores. Essa preocupação nota-se, nomeadamente, no compromisso da suspensão, que se mostra mais desportiva do que na berlina, mas sem nunca sacrificar o conforto a bordo.

Porém, já nos adiantamos à cronologia do olhar. Ainda estamos cá fora, mirando a silhueta do carro, duas portas de acesso ao habitáculo, linhas fluidas sem delírios estilísticos, o ar de família a sobrepor-se à personalidade própria do modelo. E se lá fora a falta de grandes novidades pode deixar-nos algo desiludidos, lá dentro a sensação de dejá-vu é ainda maior.

Os materiais, claro, são de bom nível. O equipamento, correcto (embora com muitos extras a pagar à parte). O desenho, elegante. Tudo bem, até aqui. E pouco mais há a dizer. Para quem procura novidades, o melhor é fazê-lo por outro lado. Até aquelas coisas que todos nós já sonhámos um dia ver concretizadas, como o fim do estranho travão de estacionamento accionado por um pedal ou a colocação mais ergonómica do comando dos "piscas", estão no sítio do costume.

Há, no entanto, uma ou duas coisas que não "batem certo"... Uma delas é a qualidade dos plásticos da consola, ao centro, nos bancos traseiros, que parece destoar do conjunto pelo seu ar vulgar. Uma breve incursão à bagageira, para descobrirmos que a parte final quebra a regra de ouro do fundo plano, complicando a arrumação de volumes mais altos. Nada de muito grave, certo. Já a disponibilização de sensores e a câmara de estacionamento traseira apenas como opções cai bastante mal num carro com uma linha de carroçaria descendente e visibilidade para trás deficiente.

Se aqui há uma falha, noutros capítulos podemos encontrar abundância, nomeadamente nos sistemas de auxílio à condução desde que, claro, estejamos dispostos a abrir os cordões à bolsa. E é pena que os comandos nem sempre sejam evidentes. Para se desligar o aviso de transposição de faixa de rodagem, por exemplo, não basta premir um botão, como acontece noutros modelos. É preciso ir ao computador de bordo e encontrar essa opção no menu. Se nos esquecermos de o fazer antes de pôr o carro em andamento, o melhor é não pensar mais nisso até à próxima paragem...

Sentemo-nos então ao volante, que os preliminares já vão longos e impõe-se ligar o motor. Boa sonoridade, resposta eficaz e interessante, uma economia que é sempre de assinalar. Acoplado a uma caixa automática de sete velocidades cujas relações estão muito bem conseguidas, este propulsor mostra-se capaz de proporcionar boas sensações e só parece deixar-nos mal quando assumimos andamentos mais vivos em percursos sinuosos.

Mas aí a culpa não é dos cavalos, é do arreio. Surpreendentemente ou não, tratando-se de um Mercedes... a caixa não parece nada interessada em "cavalarias". Entramos na curva (muito incisiva, a direcção), aceleramos para sair em potência e... e... Não pode ser: carregar no acelerador e só ter resposta quase dois segundos depois é muito mau! E, no entanto, há solução. Accione-se o modo Sport e o atraso da caixa desaparece como que por magia.

Agora temos um carro seguro, sólido, potente e disponível. Um prodígio de equilíbrio. Um Mercedes como deve ser, digno representante das tradições da marca. E com um preço bem interessante. Sem as opções, está bem de ver...

Barómetro

+ Motor, suspensão, qualidade geral, equipamento de segurança, visual equilibrado
- Interiores sem novidades, lugares traseiros, visibilidade para trás, muitas opções pagas à parte

Desilusão

O Coupé só tem dois lugares atrás. Normal, claro. Só que seria de esperar algo mais no desenho dos bancos, talvez um apoio de braços, enfim... Até porque a consola central exibe plásticos bem abaixo da qualidade geral dos interiores do carro. A habitabilidade também não é famosa, mas pior mesmo é o acesso, feito através de uma abertura estreita e com a moldura da porta a atrapalhar. Percebe-se bem que estes dois lugares foram secundarizados no desenho do modelo.

Tradição

O sistema de navegação em 3D, que nos mostra, por exemplo, a dimensão dos edifícios quando estamos a circular na cidade, é comum a outros modelos da Mercedes. E marca bem o barómetro do que podemos esperar desta declinação Coupé da série C: qualidade e solidez, mas poucas novidades. Argumentos preciosos para quem não gosta de correr riscos e são, normalmente, esses os que elegem a Mercedes como marca de eleição. Já quanto aos outros...

Amigo

Com ajuda aos arranques em subida, controlo activo e limitador de velocidade, alerta de veículos em ângulo morto, aviso de transposição de faixa e alerta de cansaço (alguns apenas em opção, saliente-se), o mínimo que se pode dizer é que este Mercedes nunca deixa o condutor sozinho. Podemos ainda ter o sistema de reconhecimento dos sinais de limitação de velocidade mas este não define muito bem a escala dos sinais que lê. Ou seja, se vir um "80" na traseira de um autocarro, é essa a indicação que passa para o painel de bordo...

Indispensável

Em dias de sol muito forte, ficam algumas dúvidas sobre a eficácia da cortina que protege o habitáculo da exposição solar proporcionada pelo tecto panorâmico. É verdade que pode comandar-se com um simples botão e ser recolhida apenas até onde nos for conveniente ao longo do seu vasto percurso. E o vidro superior permite esquecer a sensação de claustrofobia proporcionada pelas minúsculas janelas traseiras. Ou seja, este tecto, e usando um aforismo popular, compensa o mal que faz pelo bem que sabe...

FICHA TÉCNICA

Mecânica

Cilindrada: 2143cc
Potência: 204cv às 4200 rpm
Binário: 500 Nm entre as 1600 e as 1800 rpm
Cilindros: 4
Válvulas: 16
Alimentação: Injecção electrónica directa por conduta comum, duplo turbo
Tracção: Traseira
Caixa: Automática de 7 velocidades, função sequencial; comandos no volante, em opção
Suspensão: Multilink, à frente; independente multilink, atrás
Direcção: Pinhão e cremalheira, assistida
Travões: Discos ventilados à frente e atrás

Dimensões

Comprimento: 459,0 cm
Largura: 177,0 cm
Altura: 140,6 cm
Peso: 1660 kg
Pneus: 235 45 R17
Capac. depósito: 59 litros
Capac. mala: 450 litros

Prestações*

Velocidade máxima: 240 km/h
Aceleração 0-100 km/h: 7,1s
Consumo misto: 4,9 litros 100 km
Emissões CO2: 134 g/km

* Dados do construtor

Preço: 51.874 euros (versão ensaiada: 69.079 euros)

EQUIPAMENTO

Segurança

ABS: Sim
Airbags dianteiros: Sim
Airbags laterais: Sim (à frente)
Airbags cortina: Sim (à frente e atrás)
Airbag joelhos para o condutor: Sim
Controlo de tracção: Sim
Controlo de estabilidade: Sim
Assistência ao arranque em subidas: Sim
Sistema de alerta de cansaço do condutor: Sim
Alerta de veículo em ângulo morto: Sim
Alerta de transposição de faixa: Opção (820 euros)

Vida a bordo

Vidros eléctricos: Sim
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Direcção assistida: Sim
Função Start/Stop: Sim
Sistema de ajuda ao estacionamento: Opção (765 euros)
Retrovisores eléctricos: Sim
Ar condicionado: Sim (automático de duas zonas)
Abertura depósito interior: Não
Abertura mala do interior: Sim
Bancos traseiros rebatíveis: Sim
Jantes especiais: Sim
Rádio CD: Sim (com MP3)
Comandos no volante: Sim
Volante regulável em altura: Sim
Volante regulável em profundidade: Sim
Computador de bordo: Sim
Alarme: Opção (566 euros)
Tecto panorâmico: Opção (1645 euros)
Bancos dianteiros eléctricos: Sim
Bancos dianteiros aquecidos: Opção (529 euros)
Estofos em pele: Opção (695 euros)
Navegação por GPS: Opção (900 euros)
Regulador de velocidade: Sim
Sensores de chuva: Sim
Sensores de luminosidade: Sim
Sensores de parqueamento: Opção (547 euros)
Câmara de estacionamento: Opção (535 euros)
Indicador de pressão dos pneus: Sim
Faróis bi-xénon: Não
Sistema de luzes inteligente: Opção (1640 euros)

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