Fugas - motores

Defeitos privados, públicas virtudes

Por Luís Francisco

A BMW aperfeiçoou a fórmula da série 1 e reforçou a maior parte dos pontos fortes da sua proposta neste segmento. Mas, constatou Luís Francisco, nem tudo correu pelo melhor. O carro exibe publicamente as suas virtudes, mas é preciso conhecê-lo a fundo para lhe encontrar os defeitos
É maior por fora, mais espaçoso por dentro, tecnologicamente evoluído e muito bom de conduzir. Acima de tudo, mostra-se extremamente económico sem comprometer a disponibilidade para andar em ritmos rápidos. A nova geração da série 1 da BMW é um belo passo em frente em todas as coisas que parecem saltar à vista. Sucesso total? Nem por isso. Um contacto mais prolongado com o carro devolve algumas inquietações. Há pecadilhos neste modelo que parecem contrariar a imagem de marca do construtor alemão.

E vamos já a elas, para que não fiquem dúvidas. Em primeiro lugar, a motorização testada, a 2.0 turbodiesel, é ruidosa e provoca vibrações no habitáculo (nomeadamente quando é accionada pelo sistema Start/Stop). Não seria um problema por aí além noutra marca, mas um BMW pior insonorizado (também se ouve o vento nos retrovisores laterais) e com um motor diesel mais "gasóleo" do que os da concorrência, isso já levanta sobrancelhas. E se desconfiados estávamos, pior ficamos quando sentimos as dificuldades de equilíbrio do carro em travagens mais fortes.

A excelência dinâmica da BMW é um dos pilares da filosofia do construtor. Todos os BMW, mesmo os mais discretos na motorização, são desportivos. É disso que fala a estética, é aí que reside a aura do emblema alemão. E, portanto, o facto de o novo série 1 oscilar nitidamente quando se trava com mais força a alta velocidade não pode ser considerado um pormenor. O carro, na verdade, não sai da trajectória (cenário em que, provavelmente, este texto teria outra assinatura no topo...). Agarra-se e defende-se, mas seria de esperar outro tipo de comportamento, mais proactivo, digamos assim.

Os problemas parecem concentrados no eixo dianteiro (a tracção é traseira), pouco dado a solicitações mais radicais. Para além do mal-estar na travagem, há também outro sinal de aparente fragilidade: sempre que se faz uma redução mais drástica, as rodas da frente patinam. É giro para quem quer dar nas vistas, mas não fica bem.

Posto isto, vamos às partes boas. Que são muitas e superam claramente as más. Antes de mais, e contrariando algumas ideias feitas sobre a BMW, temos a capacidade para apresentar consumos muito baixos. Ao longo de algumas centenas de quilómetros, sem a preocupação de andar devagar e raramente adoptando o figurino dinâmico Eco Pro, o consumo médio ficou abaixo dos 6 litros/100 km.

Se isto já é de assinalar em qualquer utilitário, torna-se particularmente notável num carro com 184cv de potência, perante o qual é impossível resistir à tentação de pisar o acelerador. E o carro não está amordaçado. A diferença entre os modos Comfort e Sport é sensível, mas não altera a percepção global do que se passa ao volante. Ou seja, em qualquer cenário, o 120d gasta mesmo pouco. Oferecendo muito.

Às vezes, mesmo mais do que apetece desfrutar. A baixa velocidade, o carro chega a engasgar-se e provocar solavancos quando não aceleramos o suficiente entre mudanças, como se estivesse a pedir mais adrenalina... Ele quer é andar depressa. E sabe fazê-lo. O comportamento em curva não tem mácula, ainda que a suspensão tenha sido recalibrada de forma a tornar-se mais confortável; os travões são bastante eficazes (tão eficazes que parecem acima das possibilidades do eixo dianteiro); a direcção uma maravilha.

Lá dentro, há mais espaço e mantém-se a qualidade dos materiais e acabamentos. Ainda assim, dentro do seu segmento, o série 1 continua a ficar cá bem para trás na lista de cotas interiores... À frente, tudo bem, desde que se encontre a afinação certa para o lugar do condutor, o que pode revelar-se trabalhoso. Mas a instrumentação é bem conseguida, melhorando alguns pontos menos bons da geração anterior, e temos ainda o bónus de um ecrã de grandes dimensões. Lá atrás, mantêm-se alguns problemas, como a dificuldade para passar os pés pela moldura da porta. A bagageira cresceu 30 litros.

A visibilidade traseira não é grande coisa e, caso optemos por conduzir numa posição muito baixa (o que é possível neste carro a um nível que não se encontra na concorrência), algumas manobras para a frente também exigem um cuidadoso olhar por fora da janela, devido à linha de cintura muito elevada.

Em suma, a BMW aperfeiçoou a sua fórmula e conseguiu criar um carro cheio de qualidades e que faz por disfarçar os defeitos. Continua é a ser mais caro do que a concorrência. E a exibir uma lista de extras que atira o preço ainda mais para cima.

Barómetro

+ Potência, direcção, instrumentação, qualidade de construção, consumos, imagem dinâmica

- Eixo dianteiro, insonorização, pormenores de ergonomia no posto de condução, muitos extras pagos à parte, primeira velocidade pouco "colaborante"

Embirração

Uma vez, acontece. Duas, é uma chatice. Mas quando, ao longo de cinco dias de teste, a primeira velocidade "embirra" várias vezes, já começa a ser preocupante. Colocada muito em cima da marcha-atrás (e numa caixa bastante compacta), a marcha de arranque obriga a constante atenção por parte do condutor. Daí em diante, só elogios: rapidez, bom escalonamento, trato suave. O pior é mesmo a primeira impressão...

A la carte

Por defeito, o carro arranca na configuração dinâmica Comfort. Podemos "recuar" para Eco Pro, privilegiando a economia e o ambiente (cenário em que nos é possível escolher, no computador de bordo, entre uma série de afinações de funcionamento das "mordomias" interiores, como a climatização, por exemplo, ou assumir as definições pré-existentes no programa Efficient Dynamics). De Comfort para Sport obtemos uma maior dureza na suspensão, relações mais curtas na caixa e outra afinação do controlo de estabilidade (que sai de cena caso optemos pelo mais radical Sport +, ideia desaconselhada a amadores a não ser em condições e cenário perfeitos...).

Exigente

O bom pode ser inimigo do óptimo, mas às vezes o excesso de possibilidades também complica. O posto de condução do série 1 pode adaptar-se às necessidades de qualquer um, oferecendo um vasto leque de afinações. A mais significativa é a capacidade de optar entre um posicionamento muito baixo (talvez o mais baixo de um carro não desportivo) ou mais "normal". Mas, se andarmos muito rasteiros, o cotovelo pode bater na consola central quando engrenamos algumas mudanças. E, se subimos o banco, este forma um ângulo doloroso com a posição dos pedais, pressionando a zona inferior dos joelhos sem que haja uma afinação eficaz para contrariar isto. Mantém-se a estranha inexistência de regulação do cinto de segurança.

Positivo

Nota-se que houve preocupação com a bagageira nesta passagem de testemunho. O novo série 1 tem 360 litros de capacidade de carga, mais 30 do que antes, e os bancos traseiros passam a poder rebater-se em três secções, contra duas anteriormente. Há ganchos e argolas, o piso é liso e as dimensões regulares, o que possibilita uma boa utilização do espaço. Por baixo, encontramos a bateria e os fusíveis, mais um compartimento para alguma coisinha que queiramos arrumar em separado. Pneu suplente, nem vê-lo.

Ficha Técnica

Mecânica
Cilindrada:
1995cc
Potência: 184cv às 4000 rpm
Binário: 380 Nm entre as 1750 e as 2750 rpm
Cilindros: 4
Válvulas: 16
Alimentação: Turbodiesel de injecção directa por conduta comum, com turbo de geometria variável
Tracção: Traseira
Caixa: Manual, de seis velocidades
Suspensão: Tipo McPherson, à frente; multilink, atrás
Direcção: Pinhão e cremalheira, com assistência eléctrica
Diâmetro de viragem: 10,9 m
Travões: Discos ventilados à frente e atrás

Dimensões
Comprimento:
432,4 cm
Largura: 176,5 cm
Altura: 142,1 cm
Distância entre eixos: 269,0 cm
Peso: 1420 kg
Pneus: 205/55 R16
Capac. depósito: 52 litros
Capac. mala: 360 litros


Prestações
Veloc. máxima:
228 km/h
Aceleração 0 a 100 km/h: 7,2s
Consumo misto: 4,5 litros/100 km
Emissões CO2: 118 g/km

Preço:
37.800€ (viatura testada: 49.916€)

Equipamento

Segurança
ABS:
Sim
Airbags dianteiros: Sim
Airbags laterais: Sim (à frente)
Airbags cortina: Sim
Controlo de tracção: Sim (com bloqueio electrónico de diferencial)
Programa electrónico de estabilidade (ESP): Sim
Suspensão desportiva M: Opção (286€)

Vida A Bordo
Vidros eléctricos:
Sim (4)
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Direcção assistida: Sim
Função Auto Start/Stop: Sim
Retrovisores eléctricos: Sim
Ar condicionado: Sim (automático, de duas vias)
Abertura do depósito no interior: Não
Abertura da mala do interior: Não
Bancos traseiros rebatíveis: Sim (em três secções)
Jantes especiais: Sim
Rádio: Sim (com CD e MP3)
Internet: Opção (85€)
Comandos no volante: Sim
Volante regulável em altura: Sim
Volante regulável em profundidade: Sim
Banco do condutor ajustável em altura e profundidade: Sim
Computador de bordo: Sim
Alarme: Opção (403€)
Estofos em pele: Não
Tecto de abrir eléctrico: Opção (824€)
Navegação por GPS: Opção (1420€)
Regulador de velocidade com função travão: Opção (Pack Conforto - Condução: 1057€)
Indicador de passagem de caixa: Sim
Sensores de chuva: Opção (Pack Visibilidade: 447€)
Sensores de luminosidade: Opção (Pack Visibilidade: 447€)
Sensores de parqueamento traseiros: Opção (379€)
Câmara de estacionamento: Opção (354€)
Indicador de pressão de pneus: Sim
Faróis bi-xénon: Opção (546€)
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