Um apendicezito aerodinâmico aqui, um arabesco estilístico ali, uma jante a puxar ao modernaço, umas ponteiras de escape com pinta. A lista podia continuar, mas não é preciso muito mais para dar a um carro um aspecto racing - como bem sabe qualquer adepto do tunning e os responsáveis das marcas que piscam um olho ao público mais jovem.
Não é, portanto, novidade que se encontrem alguns destes detalhes em carros que, após um contacto mais prolongado, revelam tudo menos um temperamento desportivo. Novidade é aparecer um carro em que tudo (ou quase tudo...) no exterior passa uma mensagem ilusória.
E esse carro está aí. O Hyundai Veloster apresenta-se aos nossos olhos com um visual desportivo e dinâmico - uma regra a que só escapa, em termos de visual exterior, a já famosa terceira porta lateral, do lado contrário ao condutor. Permite um acesso razoável à segunda fila de bancos e só isso mostra como este detalhe muito pouco visto (será mesmo inédito nesta configuração, porque o sistema parecido do Mini Clubman funciona com uma porta que abre ao contrário) não é, na verdade, um pormenor.
Olha-se para o carro e vê-se um desportivo. Com um bocadinho de imaginação até se vai mais além, imaginando um bólide de temperamento explosivo. Lá dentro, pedais em metal, volante com pinta, posto de condução rodeado de instrumentação, botão de ignição em posição central no tablier. E, no entanto... A aceleração dos 0 aos 100 km/h faz-se em apenas 9,7s, a resposta do motor é sempre muito gradual, sem picos de adrenalina (o binário é bastante fraco e só se atinge a uma rotação elevada). Isto é tudo menos um desportivo. Nem sequer é um coupé despachado. Então o que é?
Resposta possível: é um carro para senhoras, jovens mães, mulheres independentes. Pode ser, tem ajudas electrónicas, condução suave, muitos espaços para arrumos. Mas não, este visual agressivo não cola com o espírito feminino. Outra resposta: trata-se, na verdade, de um familiar diferente. Sim, embora só tenha quatro lugares, são bem conseguidos e espaçosos (excepção feita à altura atrás). Os consumos não assustam, a capacidade de manobra é boa, a visibilidade surpreendente. Mas não é assim tão confortável, a bagageira não é muito prática, só tem uma porta de acesso aos lugares traseiros.
Bom, não é um carro para senhoras nem para a família. Também não pode aspirar a ser um desportivo e na lista de coupés para dar umas aceleradelas também andará longe do pódio. Então o que é? A única solução possível é procurar um conceito fora das prateleiras em que estamos habituados a catalogar os automóveis. O Veloster assume esse direito à diferença desde logo pela inovação da terceira porta lateral. A mensagem fica clara: "Não me classifiquem, eu fujo a essas convenções."
E faz muito bem. À partida, tudo a favor. O problema é que não basta iludir as categorias pré-existentes; é preciso mostrar argumentos. E o bonito carro da Hyundai baqueia em alguns aspectos básicos. O primeiro, e porque a concorrência está cada vez mais competente, é a falta de um verdadeiro comportamento desportivo sem que isso seja compensado por elevados padrões de conforto. Numa altura em que tantos carros conciliam de forma brilhante este equilíbrio, a suspensão do Veloster (muito sensível aos maus pisos) fica uns bons furos abaixo. Outro ponto é o desempenho do motor: um 1.6 sem turbo nunca será explosivo, mas este é realmente muito "mole", obrigando a radicais manobras de caixa para conseguir alguma reacção mais nervosa.
Se, ao princípio, podemos arrumar a desilusão por baixo da coluna do despeito (o que vemos à partida provoca expectativas muito altas...), depressa um contacto mais prolongado nos tira essas ideias. Há, de facto, aqui, muitas potencialidades, mas é como se este carro fosse ainda um protótipo a precisar de melhoramentos. Ou disso ou de uma filosofia. Porque um motor silencioso é óptimo, mas de nada vale se essa discrição se dever à falta de disponibilidade. E uma direcção leve é excelente para manobrar, mas depois revela-se pouco comunicativa quando espevitamos os andamentos e radicalizamos as trajectórias. E podíamos continuar por aí fora.
Em suma, o Hyundai Veloster, que enfrenta no mercado (e com alguma vantagem nos preços, reconheça-se) rivais do nível do VW Scirocco, do Peugeot RCZ ou do Honda CR-Z, é uma fonte de grandes interrogações. A primeira das quais continua a ser: porquê desperdiçar um visual destes num carro que não o merece?
BARÓMETRO
+ Visual exterior e interior, "modularidade" concedida pela terceira porta, travões, caixa, insonorização, manobrabilidade
- Dinâmica, prestações, suspensão, alguns materiais no interior, pedal do acelerador, altura nos
lugares traseiros
Útil
Do lado do condutor, a silhueta de um coupé; do outro... bom, do outro, um coupé com porta atrás... um familiar racing. Será isso. Seja lá o que for, a terceira porta dá muito jeito para aceder aos lugares traseiros e, como o piso é praticamente plano, não complica muito entrar por um lado e sentarmo-nos do outro. O problema é que pessoas com mais de 1,70m ficarão entaladas entre o banco e o vidro traseiro (em dias de calor, há-de ser desconfortável...). Para quem se preocupa mais com estas coisas da engenharia, ficam as angústias sobre a rigidez estrutural de um carro em que o primeiro pilar não fica paralelo entre os dois lados da viatura (porque a porta do condutor é muito maior).
Eficaz
O botão da ignição, em posição central, domina as atenções e reforça a ideia de que estamos perante um automóvel de vocação desportiva. Mas esqueçamos isso. Com um visual moderno e bastante dinâmico, o quadro de instrumentos não cedeu a função aos ditames da forma. Mostra-se mesmo muito prático, dotado de comandos intuitivos e ergonomia acima da média. Para mais, saúde-se a multiplicação de excelentes espaços para arrumos. Bom esforço.
Vale a pena
Um dos defeitos mais comuns dos coupés de dimensões compactas é a falta de visibilidade, que pode mesmo ser acompanhada, nos casos mais dramáticos, por uma sensação de claustrofobia para quem viaja nos lugares traseiros. A necessidade de fazer mergulhar a traseira, aliada à tendência estilística para pilares volumosos e linhas de cintura muito altas, quase fez desaparecer o vidro dos carros deste tipo. Não é o caso do Veloster, para mais se optarmos pela instalação do tecto panorâmico. É uma opção a ter em conta, porque quase todo o habitáculo fica aberto ao exterior.
Terrível
O motor, já se disse, é um pouco sensaborão. Mas, apoiado numa caixa bastante competente, ainda poderia mostrar algum serviço, não fosse a horrível disposição do pedal do acelerador. Ao princípio, odiamos o motor. Depois transferimos a culpa para o pedal, que bascula do piso do carro, obrigando a um movimento muito amplo do pé para obter acelerações perceptíveis. Passadas estas duas fases, percebemos que a culpa deste tédio será repartida. Mas era mais fácil mexer no pedal...
FICHA TÉCNICA
MECÂNICA
Cilindrada: 1591cc
Potência: 140cv às 6300 rpm
Binário: 166,7 Nm às 4850 rpm
Cilindros: 4
Válvulas: 16
Alimentação: Injecção directa de gasolina
Tracção: Dianteira
Caixa: Manual, de seis velocidades
Suspensão: Independente, tipo McPherson, à frente; eixo de torção, atrás
Direcção: Pinhão e cremalheira, com assistência eléctrica
Diâmetro de viragem: 10,4 m
Travões: Discos ventilados à frente, discos maciços atrás
DIMENSÕES
Comprimento: 422,0 cm
Largura: 179,0 cm
Altura: 139,9 cm
Distância entre eixos: 265,0 cm
Peso: 1311 kg
Pneus: 215/45 R17
Capac. depósito: 50 litros
Capac. mala: 320 litros
PRESTAÇÕES
Veloc. Máxima: 201 km/h
Aceleração 0 a 100 km/h: 9,7s
Consumo misto: 5,9 litros/100 km
Preço: 24.990€ (versão ensaiada - Blue Style Pack Exclusive: 27.740€)
EQUIPAMENTO
SEGURANÇA
ABS: Sim
Airbags dianteiros: Sim
Airbags laterais: Sim (à frente)
Airbags cortina: Sim
Controlo de tracção: Sim
Programa electrónico de estabilidade: Sim
VIDA A BORDO
Vidros eléctricos: Sim (3)
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Direcção assistida: Sim
Retrovisores eléctricos: Sim (retrácteis e aquecidos)
Ar condicionado: Sim (automático)
Abertura do depósito no interior: Não
Abertura da mala do interior: Não
Bancos traseiros rebatíveis: Sim
Jantes especiais: Sim
Rádio: Sim (com CD, MP3 e USB)
Comandos no volante: Sim
Volante regulável em altura: Sim
Volante regulável em profundidade: Sim
Computador de bordo: Sim
Alarme: Não
Estofos em pele: Opção (600€)
Tecto panorâmico eléctrico: Opção (1000€)
Navegação por GPS: Opção (1750€)
Regulador de velocidade: Sim
Botão de ignição: Sim
Assistência ao arranque em subida: Sim
Controlo de pressão dos pneus: Sim
Indicador de mudança de velocidade: Sim
Sensores de chuva: Sim
Sensores de luminosidade: Sim
Sensores de parqueamento: Opção (atrás e com câmara: 650€)
Faróis de xénon: Não