Fugas - Motores

  • Lancia Voyager 2.8 163cv Gold
    Lancia Voyager 2.8 163cv Gold Enric Vives-Rubio
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O mito continua em forma

Por Luís Francisco

O grande dilema da Voyager, antes Chrysler, agora Lancia, não nasce da comparação de argumentos com a concorrência. Na verdade, este é um carro excepcional para os grandes horizontes e que "esmaga" os rivais no seu território. Mas não gosta de espaços apertados. E, por isso, exige opções de vida.

O que pode acontecer quando a sabedoria americana dos grandes espaços se junta ao refinamento europeu? A pergunta tem merecido diferentes respostas à medida que vão sendo desvendados os resultados da parceria entre a Fiat e os seus novos produtos do outro lado do Atlântico. Desta vez, sem sombra de dúvidas, a conclusão só pode ser positiva. Herdeira evidente da Chrysler Voyager, um mito entre os monovolumes, a nova Lancia Voyager consegue manter os predicados "made in America" e ganha interiores à europeia. Onde a mão da Lancia ainda não se nota por aí além é no comportamento dinâmico - com uma suspensão devotada ao conforto, resulta bastante difícil fazer curvas sem andar a adornar de um lado para o outro.


A Voyager é grande. Melhor: é enorme. Enquanto outros monovolumes se quedam, claramente, abaixo dos cinco metros de comprimento, este italo-americano ultrapassa a barreira sem medos e exibe ainda uma largura assinalável. Se é verdade que os apertados espaços europeus (nomeadamente os parques de estacionamento...) acentuam estas dimensões pelo seu lado negativo, o que elas proporcionam em termos de habitabilidade é algo de praticamente inimaginável. Para começar, a distribuição dos sete lugares não obedece à regra dos 2+3+2, em que a última fila exibe, tantas vezes, dois assentos residuais. Na Voyager, há dois lugares na fila do meio, em poltronas separadas (para facilitar o acesso à traseira), e três assentos atrás. Destes, só o do meio pode revelar-se mais apertado, ainda que o espaço para os pés não seja brilhante em nenhum deles.

As quase quatro dezenas de centímetros que separam este monovolume dos seus rivais em termos de comprimento reflectem-se claramente no espaço destinado às bagagens - mais do que triplica o oferecido pela generalidade da concorrência. E nem precisava, porque o sistema Stow"n Go, que permite guardar malas por baixo do piso, dá um jeitão. Apesar deste duplo fundo, a altura do habitáculo é suficiente e permite mesmo bascular do tecto ecrãs de DVD ou caixas para arrumos sem que isso nos desperte sensações de claustrofobia. Este é um carro para grandes viagens e a quantidade de espaços e mordomias postas ao dispor dos passageiros merece nota de destaque.

Mecanicamente, o motor não desmerece, embora fosse desejável uma maior potência quando se viaja com a lotação esgotada. Não é um prodígio de economia, mas safa-se; pode ser ruidoso a velocidades mais elevadas e vibra um pouco nas rotações mais baixas. A caixa automática porta-se bem, apesar das relações longas; os travões cumprem a sua missão, a direcção é bastante comunicativa - o que chega a ser surpreendente num carro destes. No cômputo geral, ninguém sairá daqui assoberbado por emoções fortes. Não é disso que se trata. Toda a mecânica está lá para cumprir uma missão simples: transportar passageiros. E é também por isso que se desculpa a falta de firmeza da suspensão quando se curva.

A fiscalidade penaliza uma motorização tão grande (motores de dois litros são o mais comum, mas esta 2.8 é a única versão prevista para Portugal). Ainda assim, a Lancia consegue apresentar um preço atractivo, tanto mais que o equipamento não envergonha e os materiais e desenho interiores são de bom nível. Só que, em tempos de crise, será preciso gostar mesmo muito de espaço para estar disposto a gastar aquele bocadinho mais que a Voyager (48.250€) custa. A Ford tem o Galaxy por 41.850€, a Seat propõe o Alhambra por 41.543€, a VW Sharan custa 45.981€ - só a Renault, com a Grand Espace (54.500€), é mais cara.

Todos estes são carros bem mais curtos, mais apertados, menos luminosos no interior e com inferior capacidade na bagageira. Mas são também, todos eles, mais capazes de circular em espaços restritos, permitindo um maior leque de utilizações. A Voyager não é um carro prático para o dia-a-dia, não se pára em qualquer sítio para deixar os filhos na escola nem gosta (isso então muito menos) de estacionamentos de hipermercados e centros comerciais. É um especialista, num mundo cada vez mais dominado pelos produtos generalistas. Saúde-se essa coragem de ser diferente. E faça-se-lhe a vontade. Estrada fora.

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