Fugas - motores

Miguel Manso

Saab 9-5 TiD4 160cv: Virtudes e defeitos numa proposta diferente

Por Luís Francisco

A Saab, agora propriedade dos holandeses da Spyker, não baixa os braços perante a hegemonia alemã no sector das berlinas do segmento superior. A chegada do 9-5 marca a diferença em relação ao que por aí anda. Mas nem sempre para melhor...

A primeira estranheza é quando sentimos que, apesar de se tratar de um modelo completamente renovado, várias coisas dentro do habitáculo soam a "dejá vu". Mas depois lemos e percebemos: a nova geração do Saab 9-5 foi desenvolvida nos tempos em que o construtor sueco ainda fazia parte da família General Motors - há por ali coisas, como o volante, por exemplo, que são comuns ao Opel Insígnia. E esta lógica de passagem, de falta de raízes, empalidece a estrela de uma berlina que tem pela frente a dura tarefa de se bater com os emblemas alemães.

A Saab, já de si, não é uma marca com uma imagem forte. Quando se fala de carros suecos, toda a gente pensa na Volvo e associa-a a uma aura de preocupação com a segurança. A Saab não tem propriamente um espírito marcado. Mas agora ainda é pior: depois de ter sido "americana", as convulsões no interior da GM atiraram a marca para fora do grupo. A Saab é, agora, holandesa, propriedade da Spyker. É o início de uma nova era.

Não se pode dizer que a coisa tenha começado mal, mas ainda não encontramos aqui terreno completamente sólido. Há uma série de indefinições que, sem anularem as qualidades intrínsecas do modelo, contribuem para uma certa falta de personalidade do carro. E a primeira aparece logo mal ligamos o motor. Este, o dois litros turbodiesel de 160cv, faz-se ouvir com intensidade e torna-se mesmo muito ruidoso em aceleração - e nem sequer é um rugido entusiasmante, antes um som grave, mas baço... Preparados para o pior, saímos para estrada e descobrimos que, afinal, em velocidade de cruzeiro, este é dos carros mais silenciosos que por aí andam.

Depois do motor com dupla personalidade sonora, uma suspensão demasiado áspera (e mesmo ruidosa em mau piso) para o que se espera de um carro deste tipo. Curiosamente, é mais eficaz em percursos sinuosos do que em curvas rápidas. Apesar do seu tamanho, o Saab 9-5 é divertido nos espaços apertados - quando se pensa que estamos a entrar na curva sem apoio, basta puxar um bocadinho mais pelo motor e apertar a trajectória para descobrirmos que há ali uma enorme reserva de competência.

Talvez porque o coração não aguente este processo de exagerar mais um bocadinho quando já estamos numa curva rápida, a sensação que fica é que a direcção se mostra demasiado leve, pouco comunicativa. E isto é mais um aparente contra-senso: uma berlina de nível superior que se porta melhor em percursos sinuosos do que em vias rápidas. Mas ainda não ficam por aqui as charadas.

A mais incomodativa, realmente, está no interior. Os materiais do 9-5 são bons; não deslumbram, mas estão à altura, até com alguns pormenores bem simpáticos. Há, também, uma sensação geral de qualidade e robustez. Que, no entanto, encalha na constatação óbvia de que alguns painéis encaixam muito mal uns nos outros. Alguns, como na consola central, abanam e deformam-se. Mas, mesmo quando estão bem presos, há juntas com folgas enormes. E o botão do travão eléctrico tem tendência para ficar preso, o que acende uma luz de aviso no tablier.

Será isto resultado das poupanças necessárias para aparecer no mercado com um preço competitivo? Uma coisa é certa: resultou. O Saab 9-5 testado (TiD 160cv, com caixa automática e nível de equipamento Linear, o mais baixo) é cerca de dois mil euros mais barato do que o seu "primo" sueco Volvo S80 e vê ainda de mais longe os rivais alemães (Audi A6, BMW 520d e Mercedes E 220 CDI).

E esta vantagem no preço é conseguida, saliente-se, sem concessões ao nível da mecânica, da segurança ou do visual. Este carro elegante é propulsionado por um motor bastante económico e muito alegre a subir de regime - e isto apesar de caixa automática, que cumpre bem a sua função, estar escalonada para relações mais longas nas mudanças mais altas, obrigando a algumas reduções na altura de recuperar andamento em percursos mais íngremes.

A sensação que fica é a de que a Saab tenta mostrar-se à altura da concorrência, mas acenando com algumas diferenças conceptuais que possam funcionar como alternativa. Só que ainda há algum caminho a percorrer até estas apostas se solidificarem. Os assentos traseiros em forma de bacquet, por exemplo, parecem ser um excelente argumento para quem compra carro para ser conduzido. Mas, por causa do seu design, acabam por resultar pouco confortáveis em percursos longos...

Barómetro
 
+ Preço, visual exterior, motor, espaço a bordo, comportamento em percursos sinuosos, insonorização em andamento

- Direcção pouco comunicativa, interiores sem chama, suspensão ruidosa em mau piso, acabamentos, algum equipamento só em opção

Confuso 

O tablier do 9-5 está cheio de botões. Para quem embirra com o excesso de comandos, a situação já não é ideal. Mas, para lá dos gostos de cada um, há um facto incontornável: muitos dos botõezinhos são bem merecedores do diminutivo - pequenos e pouco práticos. É o caso do comando para destrancar as portas. E, ainda mais grave, do interruptor dos quatro piscas, que se ligam, por exemplo, numa situação de emergência.

A corrigir

Só pode ter sido um lapso. Porque, se assim não for, haverá muitos clientes a protestar... O software do sistema de navegação da viatura testada estava completamente desactualizado. Circular na A16 sem que ela apareça no mapa foi o primeiro sinal de que algo estava mal, uma dúvida que passou a certeza quando apareceram símbolos de postos de combustível da Agip, cuja operação em Portugal foi absorvida pela Galp há já uns anos.

Inaceitável

Há vários sítios onde as peças do tablier distam vários milímetros umas das outras. É feio e, normalmente, indicia má qualidade dos acabamentos. Mais grave ainda: alguns painéis cedem facilmente quando se faz pressão. Este tipo de facilitismo não se admite num carro deste segmento. E vem abalar a boa impressão causada pela qualidade dos materiais utilizados.

Novidade

Pela primeira vez, um Saab dispensa a chave para arrancar o motor. Basta carregar no botão e aí vamos nós. É um pormenor de equipamento sempre cativante e que está disponível de série - algo que já não se pode dizer, por exemplo, dos sensores de chuva ou de luminosidade... Para os mais esquecidos, uma vez que a chave pode ser deixada numa ranhura especialmente desenhada para o efeito, existe ainda um alerta que dá um jeitão: se deixarmos a chave no interior ao sairmos, o carro buzina duas vezes. Obrigado.

FICHA TÉCNICA

Mecânica

Cilindrada: 1956cc
Potência: 160cv às 4000 rpm
Binário: 350 Nm às 1750 rpm
Cilindros: 4 em linha
Válvulas: 16
Alimentação: Turbodiesel de injecção directa múltipla por conduta comum
Tracção: Dianteira
Caixa: Automática, de 6 velocidades
Suspensão: independente, tipo McPherson, à frente; independente, com triângulos sobrepostos, atrás
Direcção: Pinhão e cremalheira, assistida
Travões: Discos ventilados à frente, discos atrás
Dimensões
Comprimento: 500,8 cm
Largura: 186,8 cm
Altura: 146,6 cm
Peso: 1750 kg
Pneus: 225/55 R17
Capac. depósito: 70 litros
Capac. mala: 515 litros

Prestações*

Velocidade máxima: 210 km/h
Aceleração 0-100 km/h: 10,1s
Consumo misto: 6,8 litros/100 km
Emissões CO2: 179 g/km

* Dados do construtor

Preço : 48.317 euros 


EQUIPAMENTO

Segurança

ABS: Sim
Airbags dianteiros: Sim
Airbags laterais: Sim
Airbags cortina: Sim
Airbag joelhos condutor: Não
Controlo de tracção: Sim
Controlo de estabilidade: Sim
Cruise-control: Sim

Vida a bordo

Vidros eléctricos: Sim
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Direcção assistida: Sim
Travão de mão eléctrico: Sim
"Head up" display: Opção (826 euros)
Controlo de iluminação para condução nocturna (Night Panel): Sim
Alerta de cansaço do condutor: Sim
Controlo de pressão dos pneus: Opção (289 euros)
Sensores de estacionamento: Sim (à frente e atrás)
Retrovisores eléctricos: Opção (aquecidos, 331 euros)
Ar condicionado: Sim (automático)
Bancos dianteiros aquecidos: Opção (289 euros)
Estofos em pele: Opção (1157 euros)
Abertura depósito interior: Não
Abertura mala do interior: Não
Jantes especiais: Sim
Rádio: Sim (com CD e MP3)
Sistema de navegação: Opção (com ecrã táctil, 1818 euros)
Comandos no volante: Sim
Volante regulável: Sim
Computador de bordo: Sim
Tecto de abrir (eléctrico): Opção (1157 euros)
Sensores de chuva: Opção (com sensores de luminosidade, 331 euros)
Sensores de luminosidade: Opção (com sensores de chuva, 331 euros)
Faróis de xénon: Opção (entre 826 e 1322 euros)

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