A primeira estranheza é quando sentimos que, apesar de se tratar de um modelo completamente renovado, várias coisas dentro do habitáculo soam a "dejá vu". Mas depois lemos e percebemos: a nova geração do Saab 9-5 foi desenvolvida nos tempos em que o construtor sueco ainda fazia parte da família General Motors - há por ali coisas, como o volante, por exemplo, que são comuns ao Opel Insígnia. E esta lógica de passagem, de falta de raízes, empalidece a estrela de uma berlina que tem pela frente a dura tarefa de se bater com os emblemas alemães.
A Saab, já de si, não é uma marca com uma imagem forte. Quando se fala de carros suecos, toda a gente pensa na Volvo e associa-a a uma aura de preocupação com a segurança. A Saab não tem propriamente um espírito marcado. Mas agora ainda é pior: depois de ter sido "americana", as convulsões no interior da GM atiraram a marca para fora do grupo. A Saab é, agora, holandesa, propriedade da Spyker. É o início de uma nova era.
Não se pode dizer que a coisa tenha começado mal, mas ainda não encontramos aqui terreno completamente sólido. Há uma série de indefinições que, sem anularem as qualidades intrínsecas do modelo, contribuem para uma certa falta de personalidade do carro. E a primeira aparece logo mal ligamos o motor. Este, o dois litros turbodiesel de 160cv, faz-se ouvir com intensidade e torna-se mesmo muito ruidoso em aceleração - e nem sequer é um rugido entusiasmante, antes um som grave, mas baço... Preparados para o pior, saímos para estrada e descobrimos que, afinal, em velocidade de cruzeiro, este é dos carros mais silenciosos que por aí andam.
Depois do motor com dupla personalidade sonora, uma suspensão demasiado áspera (e mesmo ruidosa em mau piso) para o que se espera de um carro deste tipo. Curiosamente, é mais eficaz em percursos sinuosos do que em curvas rápidas. Apesar do seu tamanho, o Saab 9-5 é divertido nos espaços apertados - quando se pensa que estamos a entrar na curva sem apoio, basta puxar um bocadinho mais pelo motor e apertar a trajectória para descobrirmos que há ali uma enorme reserva de competência.
Talvez porque o coração não aguente este processo de exagerar mais um bocadinho quando já estamos numa curva rápida, a sensação que fica é que a direcção se mostra demasiado leve, pouco comunicativa. E isto é mais um aparente contra-senso: uma berlina de nível superior que se porta melhor em percursos sinuosos do que em vias rápidas. Mas ainda não ficam por aqui as charadas.
A mais incomodativa, realmente, está no interior. Os materiais do 9-5 são bons; não deslumbram, mas estão à altura, até com alguns pormenores bem simpáticos. Há, também, uma sensação geral de qualidade e robustez. Que, no entanto, encalha na constatação óbvia de que alguns painéis encaixam muito mal uns nos outros. Alguns, como na consola central, abanam e deformam-se. Mas, mesmo quando estão bem presos, há juntas com folgas enormes. E o botão do travão eléctrico tem tendência para ficar preso, o que acende uma luz de aviso no tablier.
Será isto resultado das poupanças necessárias para aparecer no mercado com um preço competitivo? Uma coisa é certa: resultou. O Saab 9-5 testado (TiD 160cv, com caixa automática e nível de equipamento Linear, o mais baixo) é cerca de dois mil euros mais barato do que o seu "primo" sueco Volvo S80 e vê ainda de mais longe os rivais alemães (Audi A6, BMW 520d e Mercedes E 220 CDI).
E esta vantagem no preço é conseguida, saliente-se, sem concessões ao nível da mecânica, da segurança ou do visual. Este carro elegante é propulsionado por um motor bastante económico e muito alegre a subir de regime - e isto apesar de caixa automática, que cumpre bem a sua função, estar escalonada para relações mais longas nas mudanças mais altas, obrigando a algumas reduções na altura de recuperar andamento em percursos mais íngremes.
A sensação que fica é a de que a Saab tenta mostrar-se à altura da concorrência, mas acenando com algumas diferenças conceptuais que possam funcionar como alternativa. Só que ainda há algum caminho a percorrer até estas apostas se solidificarem. Os assentos traseiros em forma de bacquet, por exemplo, parecem ser um excelente argumento para quem compra carro para ser conduzido. Mas, por causa do seu design, acabam por resultar pouco confortáveis em percursos longos...
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