Fugas - motores

João Gil: "Não devia ter fumado nunca"

Por João Gil

Não, não assaltei nenhum banco. Nem estava a monte, nem queria ficar na história como um dos bandidos ícone, nem ser herói por assassínio para mais tarde perdoar. Não... mas bem que podia ser. Este magnifico Volvo 122s sucumbido às mãos de meu sobrinho Lourenço, tem uma estória e um passado gloriosos.

Um belo dia ali prós lados das avenidas novas, acordei com o meu amigo Terenas que tinha e ainda deve ter um sinal na ponta do nariz, comprar-lhe esta relíquia que na altura apresentava a grande novidade de autoblocante e todo o imaginário de segurança que a volvo apregoava.

Um volante esguio e soberbo que guiava uma direcção meiga e generosa. Uma caixa de velocidades fiável e de tão macia ser, com uma simples joelhada, fazia entrar uma terceira calma de baixa rotação que se impunha a uma segunda de saudosa força. O tablier sóbrio com um conta rotações que ilustrava o ronco da aceleração. Tudo neste carro era classe e sedução.

Avenida de Roma acima, e vice-versa, lá ia eu em passeio calmo e exibicionista ao melhor estilo Florida anos 50. Ficava-me bem, ouvia dizer, de madeixa ao vento de janela aberta.

No dia em que apresento este meu parceiro ao resto da quadrilha Trovante, foi o delírio, de tal maneira, que num simples "Élá!" aqueles basbaques não conseguiam esconder a inveja perante aquela maravilha sueca de cor esmeralda.

Depois foram milhares de quilómetros entre concertos e viagens alucinantes de prazer de fugir ao dia anterior por ipês e icês de vários calibres até Condeixa, esperando o novo dia que viria aí carregado de betão e de Cavaco.

Que viesse, que a minha pedra preciosa chegava aos 160, para eles todos e um de cada vez apesar de sorver logo ali o orçamento de estado. Foi andando, andando e andando, pelas mãos do Manel, do Luís, do Artur, até chegar o telefonema do Lourenço:

- Alô, ouve, vinha da ponte a subir para a praça de Espanha e ... pifou.

Eu que já andava noutra viatura que já não reza história nenhuma, guardo e deixo aqui, para sempre, esta memória de um tempo de fuga e de grandes descobertas.

O meu querido volvo 122s de cor esmeralda.

... Ah, não devia ter fumado nunca...

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