Um belo dia ali prós lados das avenidas novas, acordei com o meu amigo Terenas que tinha e ainda deve ter um sinal na ponta do nariz, comprar-lhe esta relíquia que na altura apresentava a grande novidade de autoblocante e todo o imaginário de segurança que a volvo apregoava.
Um volante esguio e soberbo que guiava uma direcção meiga e generosa. Uma caixa de velocidades fiável e de tão macia ser, com uma simples joelhada, fazia entrar uma terceira calma de baixa rotação que se impunha a uma segunda de saudosa força. O tablier sóbrio com um conta rotações que ilustrava o ronco da aceleração. Tudo neste carro era classe e sedução.
Avenida de Roma acima, e vice-versa, lá ia eu em passeio calmo e exibicionista ao melhor estilo Florida anos 50. Ficava-me bem, ouvia dizer, de madeixa ao vento de janela aberta.
No dia em que apresento este meu parceiro ao resto da quadrilha Trovante, foi o delírio, de tal maneira, que num simples "Élá!" aqueles basbaques não conseguiam esconder a inveja perante aquela maravilha sueca de cor esmeralda.
Depois foram milhares de quilómetros entre concertos e viagens alucinantes de prazer de fugir ao dia anterior por ipês e icês de vários calibres até Condeixa, esperando o novo dia que viria aí carregado de betão e de Cavaco.
Que viesse, que a minha pedra preciosa chegava aos 160, para eles todos e um de cada vez apesar de sorver logo ali o orçamento de estado. Foi andando, andando e andando, pelas mãos do Manel, do Luís, do Artur, até chegar o telefonema do Lourenço:
- Alô, ouve, vinha da ponte a subir para a praça de Espanha e ... pifou.
Eu que já andava noutra viatura que já não reza história nenhuma, guardo e deixo aqui, para sempre, esta memória de um tempo de fuga e de grandes descobertas.
O meu querido volvo 122s de cor esmeralda.
... Ah, não devia ter fumado nunca...
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