Fugas - motores

Ricardo Silva

O dia-a-dia a bordo de um carro eléctrico

Por João Palma

Viver a mais de 30 quilómetros do local de trabalho e não ter garagem são as piores condições para quem usa um carro eléctrico. Mas João Palma não só se saiu bem dessa aventura como até gostou.

O Peugeot iOn é um veículo 100 por cento eléctrico com uma autonomia teórica máxima de 150 km. A Fugas experimentou este citadino de 4 lugares e 5 portas durante 5 dias. O jornalista que o conduziu mora em Cascais e decidiu dar-lhe uma utilização normal. O problema é que não tem garagem onde pudesse recarregar as baterias do carro e só a viagem de ida e volta casa-trabalho são mais de 60 km, sem contar com alguns quilómetros extra para voltas em Lisboa. Porém, a experiência correu bem e nunca esteve em apuros.

Alguns veículos, pelas suas características, convidam a pisar no acelerador. O Peugeot iOn é precisamente o contrário - pede uma condução comedida, sem acelerações bruscas. Não é que não tenha potência disponível - a meio da íngreme subida de Monsanto, no sentido Lisboa-Cascais, com o carro a cerca de 50 km/h, pisou-se no acelerador e logo a velocidade subiu, chegando a cerca de 120 km/h no topo. A contrapartida é que os traços indicadores da carga da bateria se iam apagando a um ritmo alucinante. A mensagem era bem clara: Não abuses se queres chegar a casa...

Para obter o máximo rendimento deste citadino é preciso estar atento a dois indicadores. O de carga da bateria (com tracinhos que se vão apagando à medida que as baterias se descarregam). E um ponteiro que se desloca numa zona circular, por cima do velocímetro digital, dividida em tons que vão do azul ao cinzento, passando pelo verde, em função da pressão no acelerador: na zona azul, "Charge", o movimento do carro carrega as baterias (por exemplo, em descidas), numa área verde intermédia, "Eco", os consumos são reduzidos, aumentando à medida que o ponteiro entra numa zona cinzenta, "Power".

A prática ensinou-nos que, em auto-estrada, não excedendo os 90 km/h e aproveitando as descidas, pode-se fazer o percurso Cascais-Lisboa (ou o inverso) com menos de um quarto de carga. Só custa o facto de, encostados à direita, sermos passados como uma seta por grandes camiões carregados... Em cidade, graças ao poder de arranque rápido e a não se poderem atingir velocidades elevadas, o iOn está como peixe na água, gastando menos do que em estrada, graças aos sistemas de recuperação de energia e ao facto de, parado no trânsito, o consumo ser zero.

Para quem não tem garagem onde possa carregar o carro, resta usar os postos públicos da MOBI.E. Na A5, no sentido Cascais-Lisboa, há um de carga rápida (30 minutos para carregar do 0 aos 80 por cento) a que não foi preciso recorrer, pois há outro de carga lenta (6 horas do 0 aos 100 por cento) em frente à estação da CP de Cascais. A técnica consistia assim em, vindo de Lisboa, pôr o Peugeot iOn a carregar e ir buscá-lo umas horas mais tarde. Um dia que foi preciso ir duas vezes à cidade, o iOn ficou a carregar durante duas horas, só por uma questão de segurança (ainda tinha meia carga). E, se for preciso ajuda, há sempre o sistema de emergência Peugeot Connect Assist.

Houve o receio inicial de roubo de cabos ou vandalismo, mas foi infundado. O único problema foi os dois lugares específicos para veículos eléctricos estarem com frequência ocupados por outros carros, pois, apesar da existência do posto e de sinalização vertical, o espaço não está marcado no chão. Haver um veículo ligado por um cabo a um posto suscitou a curiosidade e perguntas de dezenas de pessoas. Desencorajante é o preço de cerca de 30.000 euros para particulares (a Peugeot propõe um sistema de financiamento), já incluindo as ajudas estatais, porque o custo do consumo é imbatível - 1,5 a 2 euros de electricidade por 100 km percorridos. Aliás, até Junho, o carregamento nos postos da MOBI.E é gratuito.

Irmão gémeo dos Citroën C-Zero e Mitsubishi i-MIEV - e derivando deste último -, o Peugeot iON tem funcionamento silencioso: só a luz verde READY no painel de instrumentos indica que o carro está pronto a arrancar. É um segundo carro por excelência, para uso urbano. Nesse pressuposto, eventuais receios de ficar parado sem carga no meio de um percurso são infundados - no caso concreto, em circunstâncias muito desfavoráveis, nem sequer foi preciso recorrer a outro dos postos de carga existentes. Desde que não se carregue muito no acelerador, chega e sobra para o dia-a-dia.

BARÓMETRO

+ Economia de utilização, comportamento em cidade

- Preço, autonomia reduzida; equipamento de série limitado, ausência de tampa na mala

Onde está o motor?

Sob o capot, num compartimento apinhado, encontram-se vários depósitos de líquidos (travões, lava pára-brisas, etc.) e a bateria auxiliar (para as luzes, ventilação, etc.). O "motor" não está aqui, mas sob o fundo do habitáculo e mala, onde se situam as baterias. Na ausência de motor, a frente do carro é curta, o que é uma boa ajuda nas manobras de estacionamento. Tudo seria ainda mais fácil se existissem sensores de estacionamento atrás, o que, mesmo num citadino, já não se pode considerar um luxo.

Pronto a andar

Esqueça-se o ruído do motor a funcionar. A única indicação de que o carro está pronto a iniciar a marcha é o aviso em luz verde "READY" no painel de instrumentos, junto ao indicador digital de carga da bateria, composto por tracinhos que se apagam à medida que ela se descarrega. Num pequeno visor circular, do lado oposto, entre outros dados, informa-se a autonomia restante em quilómetros, mas isso é só uma indicação - o que conta é o número de tracinhos que restam. Para ajudar a uma condução económica, por cima do velocímetro digital, um ponteiro desloca-se numa zona circular dividida em tons que vão de azul (Charge - modo de carregamento da bateria, por exemplo, em descidas) passando por verde (Eco - condução económica) até cinzento (Power - quando se pretende mais potência em detrimento do consumo).

Os "depósitos" de combustível

Não há motor, mas as duas tampas circulares existentes, uma em cada um dos lados da traseira do carro, confundem-se facilmente com tampas de depósito de combustível. E na verdade são-no: a do lado direito, cobre uma tomada para carga lenta; no lado oposto, situa-se a tomada de carga rápida. A carga lenta (6 horas de 0 a 100 por cento) pode ser efectuada em casa, numa vulgar tomada de 220v e 16ª, ou então, com adaptador, num posto público de carga lenta. A carga rápida (30 minutos de 0 a 80 por cento), nos poucos postos públicos desse tipo (mas convém utilizar apenas em emergências porque encurta a vida das baterias).

Era preciso poupar tanto?

Este veículo, mesmo com todas as ajudas estatais, ainda fica muito caro devido ao preço das baterias. Por isso, os fabricantes tendem a cortar ao máximo no equipamento que consideram supérfluo, para reduzir custos. E até se aceita a falta de iluminação da alavanca da caixa automática (de noite, temos que nos guiar pela indicação de mudança no visor da carga da bateria). Mas num veículo com sensores de luminosidade e retrovisores laterais rebatíveis electricamente, não haver uma simples tela plástica para tapar o conteúdo da pequena mala é algo que escapa à compreensão. Quanto se poupou? Se calhar nem cinco euros...

FICHA TÉCNICA

Mecânica

Potência: 64cv entre as 3000 e as 8000 rotações
Binário: 180 Nm de 0 a 2000 rotações
Combustível: 100 por cento eléctrico
Alimentação: trifásica 330v, com adaptador para carregar numa tomada doméstica de 220v e 16A
Tempo de carga: carga lenta, 6 horas de 0 a 100 por cento; carga rápida, 30 minutos de 0 a 80 por cento
Bateria de iões de lítio, óxido de manganésio com 88 células
Tracção: traseira
Caixa: Automática com 1 velocidade
Suspensão: pseudo McPherson, com barra estabilizadora, à frente; ponte de Dion e barra Panhard atrás
Direcção: Pinhão e cremalheira, assistida electricamente
Travões: Discos ventilados 257 mm; tambor de 203 mm atrás

Dimensões

Comprimento: 3474 mm
Largura: 1475 mm
Altura: 1608 mm
Peso: 1120 kg
Pneus: 175/55 R15 77 V
Capac. mala: 168 litros

Prestações*

Velocidade máxima: 130 km/h
Aceleração 0 a 100 km/h: 15,9s
Consumo: 1,5 a 2 euros de electricidade por 100 km (dependendo da hora de carregamento)
Autonomia: 150 km
Emissões de CO2: 0 g/km

* Dados do construtor

Preço: 36.350 euros (para particulares, 31.350 euros; com o programa de incentivo ao abate, pode ser reduzido até 29.850 euros)

EQUIPAMENTO

Segurança

ABS: Sim, com distribuição electrónica da travagem e auxílio à travagem de emergência
Airbags dianteiros: Sim
Airbags laterais: Sim, à frente
Airbags de cortina: Sim
Airbag de joelhos para o condutor: Não
Aviso de colocação dos cintos de segurança: Sim
Controlo electrónico de estabilidade (ESP): Sim
Assistência ao arranque em subida: Sim
Função Start/Stop: Sim
Indicadores de carga da bateria e de autonomia: Sim
Indicador de pneu vazio: Não
Travão de estacionamento eléctrico: Não

Vida a bordo

Vidros eléctricos: Sim
Vidros escurecidos: Sim, atrás
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Retrovisores rebatíveis electricamente: Sim
Ar condicionado: Sim
Abertura das tampas das tomadas no interior: Sim
Abertura da mala no interior: Não
Bancos em pele: Não
Fixações Isofix: Sim
Tecto de abrir panorâmico: Não
Jantes em liga leve: Sim, de 15 polegadas
Rádio/CD: Sim (com MP3, Bluetooth com ficha USB e quatro altifalantes)
Comandos áudio e Bluetooth no volante: Não
Volante regulável em altura: Não
Volante regulável em profundidade: Não
Computador de bordo: Sim
Alarme: Não
Peugeot Connect box+SOS+ Assistance: Sim
Navegação por GPS: Não
Regulador/limitador de velocidade: Não
Sensor de chuva: Não
Sensor de luminosidade: Sim
Sensores de estacionamento: Não
Faróis de nevoeiro dianteiros: Sim
Luzes de dia: Sim
Faróis de xénon: Não

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