Pode acontecer que, ao cabo de quatro dias a sentir um motor insaciável, saiba bem instalarmo-nos ao volante de um carro normal, onde possamos, simplesmente, ir de um lado para o outro sem a sensação de estarmos a ser julgados a cada instante. Pode acontecer. E aconteceu. O quase estranho silêncio de um motor normal, o à-vontade de um carro normal, a vidinha do dia-a-dia. Normal. Mas é impossível esquecer a experiência arrebatadora de ter conduzido um carro que vai, certamente, transformar-se num ícone. E é com esse sentimento que dizemos adeus ao BMW série 1 M Coupé.
Isto não é um carro. É um sonho, uma vertigem temporária, um breve intervalo de insanidade controlada na vida de qualquer um. Alguns, poucos, privilegiados poderão dispor dos mais de 72.000 euros necessários para fazer do mais potente dos série 1 o seu veículo do dia-a-dia. Mas talvez nem esses ousem abusar desta injecção de adrenalina. Sim, ó suprema ingratidão, este bólide pode cansar... Mesmo quem corre por gosto.
A culpa, assuma-se desde já, nem é toda assacável ao portentoso diabinho da BMW. Quando o construtor bávaro, já de si adepto de uma filosofia desportiva, aplica a chancela "M" nos seus modelos há que estar atento. Mas este, e ao contrário dos seus antecessores, até se mostra bastante utilizável em regimes civilizados. O problema é que, onde quer que vamos, há sempre uma plateia ávida de qualquer coisa que envolva rugidos de motor e, quiçá, derrapagens controladas...
Falhar uma mudança ou deixar o carro ir-se abaixo está completamente interdito. E se o segundo cenário é bastante improvável, a caixa não se mostra completamente à prova de erros - e esse será, em termos mecânicos, o único ponto abaixo do brilhantismo geral do modelo. O visual agressivo e compacto do 1 M atrai olhares, acelera corações, abre súbitos canais de comunicação. Há gente que acena das paragens de autocarro, que trava na estrada para apreciar melhor o "bicho", que se "pica" na saída dos semáforos.
Neste último cenário, mesmo que o arranque seja pouco agressivo, o mais provável é deixar toda a gente para trás. E, admita-se, não é preciso termos audiência para a tentação ser irresistível. Saímos da portagem e carregamos a fundo no acelerador. O rugido do motor dispara-nos pela estrada, o ronco surdo a transformar-se num rugido insano à medida que as rotações sobem em flecha e o ponteiro do velocímetro ultrapassa os 100 km/h, ainda em segunda velocidade...
Por mais que tentemos resistir, não há maneira de fugir a isto. O 1 M nasceu com garras afiadas e os predadores podem controlar-se, mas nunca se domesticam. Podemos andar calmamente pelo meio do trânsito, elogiando o esforço da marca para conseguir uma suspensão civilizada, apreciando o conforto de circular quase sem usar a caixa - a potência é tal que o carro se conduz quase como um modelo de mudanças automáticas. Podemos andar assim, a fingir que não temos sangue nas veias. Mas, de súbito, carregamos no acelerador numa rotunda e sentimos uma espécie de efeito de elástico no eixo traseiro - as ajudas electrónicas acabam de entrar em acção.