Fugas - motores

Uma boa ideia que precisa de ser bem alimentada

Por Luís Filipe Sebastião

Os veículos eléctricos são o futuro. Mas para que o avanço tecnológico e amigo do ambiente se torne uma realidade cada vez mais acessível a todos, há que alargar a autonomia das baterias e a rede de carregamento... rápido. É a conclusão de Luís Filipe Sebastião após testar o Nissan Leaf.

O Nissan Leaf pode levar os menos habituados a um carro eléctrico à beira de um ataque de nervos, devido à limitada autonomia das baterias e à escassa rede de carregamento. Mas depois de alguns dias ao volante, a experiência acaba por nos ensinar como tirar o melhor partido de um automóvel amigo do ambiente e da carteira.

Antes de mais, uma constatação óbvia: quem não tiver uma garagem onde recarregar o automóvel durante a noite pode ter dificuldade em adormecer. Isto porque, no dia seguinte, a simples missão de chegar ao emprego dependerá muito da carga que restou acumulada na bateria e, naturalmente, da distância da residência ao local de trabalho. Mesmo levando em conta que, segundo os levantamentos apregoados pelas marcas, cerca de 80 por cento dos automobilistas, percorre uma média diária inferior a 100 quilómetros.

Para uma distância casa-emprego na ordem dos 25 quilómetros, residir num prédio sem garagem pode complicar o que parece simples. Quando, ainda por cima, não existem postos de carregamento normal da rede Mobi.E em funcionamento nas proximidades as dores de cabeça ameaçam tornar-se permanentes. A "aspirina" pode ser a possibilidade de carregamento nas tomadas do parque de estacionamento perto do escritório, embora sejam poucos os que dispõem de tomadas devidamente preparadas para o efeito... Depois há ainda que contar com deslocações mais longas inesperadas. Como a maioria dos postos de carga normal está concentrada a norte, se o destino for para sul é melhor esquecer: há registo de um posto normal em Setúbal e depois só em Faro. No meio, um deserto com muito mais de 175 quilómetros.

Um veículo eléctrico, por ora, só serve para um uso citadino ou para deslocações pendulares suburbanas. Pelo menos enquanto a única possibilidade de carregamento rápido da Mobi.E (permite carregar em 20 minutos cerca de 80 por cento da bateria) na zona de Lisboa se limitar à área de serviço da Galp de Oeiras, na A5 (Lisboa-Cascais). Os outros quatro postos rápidos (de uma promessa de 50) ficam nas áreas de serviço da A1 (Lisboa-Porto) em Aveiras de Cima e Pombal.

O Leaf consiste num pequeno familiar de cinco portas, para idêntico número de ocupantes (a concorrência apostou, para já, num citadino entre os dois e os quatro lugares). As linhas modernistas podem não convencer todos, neste ou naquele pormenor, mas globalmente agradam à vista. Os faróis, em tecnologia LED, vincam-lhe a imagem ecológica.

O interior revela-se espaçoso e mesmo o lugar do meio atrás beneficia da ausência de túnel central. Os revestimentos mostram-se, em geral, num bom plano. O tablier algo "plastificado" é compensado com a superfície suave que reveste as portas. Os bancos, em tecido, são confortáveis, se bem que pelo menos o do condutor pudesse ter melhor apoio lombar. O visual da consola central é simples e o monitor táctil permite comandar algumas funcionalidades, nomeadamente do sistema de navegação e do sistema eléctrico.

O manípulo que comanda os modos de condução tem a forma de um "joystick". Além dos modos semelhantes às de uma caixa de velocidades automática existe uma função Eco, que maximiza a regeneração de energia quando se levanta o pé do acelerador e nas travagens, carregando a bateria. O binário máximo, debitado pelo motor eléctrico com uma potência equivalente a 108cv, está disponível desde o arranque, permitindo um desempenho acima do esperado.

Em auto-estrada, o Leaf pode chegar aos 147 km/h (o que, claro está, constitui crime rodoviário e se desaconselha), mas o tempo que se circular a velocidades acima dos 90 km/h será directamente proporcional à redução dos quilómetros de autonomia indicados no painel de instrumentos. É que o Leaf, tal como todos os eléctricos, está talhado para percursos urbanos, onde as travagens e desacelerações ajudam a preservar a carga na bateria, ficando rapidamente sem fôlego quando só se pisa o pedal da direita.

O funcionamento suave e silencioso obriga a cuidados redobrados com as pessoas que circulam a pé, embora abaixo dos 30 km/h se faça ouvir um silvo contínuo de aviso (que pode ser desligado no interior em circunstâncias que não o exijam). A suspensão filtra com eficácia os pisos mais degradados, mas será aconselhável evitar buracos mais pronunciados.

O programa electrónico de estabilidade (ESP) ajuda a corrigir trajectórias mais descompensadas, embora esse não seja o ritmo mais apropriado para o pequeno familiar da Nissan. Entre o equipamento de série figuram seis airbags (frontais, laterais e cortina), "cruise control" e câmara de ajuda ao estacionamento traseiro. O pecado original do Leaf acaba por ser o preço, pois aos 35.990 euros da versão de entrada, há que acrescentar mais 400 euros pela pintura metalizada.

Barómetro

+ Disponibilidade no arranque, suavidade e economia de utilização, habitabilidade interior

- Autonomia limitada, preço, alguns plásticos, bancos pouco envolventes

Suplemento

O Nissan Leaf é vendido em duas versões, com e sem "spoiler". Mais do que um elemento estilístico, o acrescento na secção posterior do tejadilho incorpora um painel fotovoltaico, que recarga a bateria de 12V para elementos auxiliares, como o accionamento dos vidros e dos limpa-vidros, as luzes interiores, o fecho centralizado e a memória do computador de bordo. O custo do "spoiler" ascende a 300 euros, mas a sua vantagem é evidente num veículo exclusivamente movido a electricidade, energia usada para alimentar todos os equipamentos.

À medida

A capacidade de 330 litros da bagageira pode ser aumentada até aos 680 litros com o rebatimento dos bancos traseiros. Embora o acesso não seja dos mais amplos e o plano de carga se apresente elevado, as dimensões são mais do que suficientes para o que um veículo eléctrico pode oferecer. Ainda assim, há que contar com a mochila para guardar o cabo de carregamento com seis metros, fornecido de origem. Os 48 módulos da bateria de iões de lítio, com quatro células em cada módulo, estão acomodados no centro do chassis.

Pilha de nervos

O Leaf possui duas tomadas. Uma para carregamento na garagem (a Nissan aconselha à instalação de uma "wall box", que custa entre 300 e 500 euros) ou num dos postos de carregamento da rede Mobi.E. Os pontos normais levam o mesmo tempo da opção doméstica, variando até oito horas para um ciclo completo de carga. Os postos rápidos (ainda só há cinco em três locais) podem carregar até 80 por cento da bateria em 20 minutos. Para já a utilização da rede é gratuita enquanto os proprietários de veículos eléctricos não vão muito além da centena. Depois será a pagar, através do cartão em sistema pré e pós pago. E há que contar com o facto dos postos de carga rápida se situarem em troços de auto-estrada com portagem...

O futuro agora

As informações digitais do Leaf repartem-se por dois níveis atrás do volante (o velocímetro em cima e a eficiência da condução e níveis de carga em baixo) e pelo monitor na consola central. O ecrã táctil de sete polegadas exibe o sistema de navegação (com os pontos de carregamento mais próximos) e outras funcionalidades que podem ser controladas remotamente a partir de um computador ou do iPhone. A aplicação Carwings (cuja utilização no Leaf é gratuita nos primeiros cinco anos) permite actualizar a localização dos postos de carga, ligar e desligar o carregamento da bateria, consultar o nível de carga, ligar e desligar os sistemas de climatização e planear um trajecto e confirmar a autonomia necessária.

FICHA TÉCNICA

Mecânica

Potência: 108cv às 10390 rpm
Binário: 280 Nm às 0 rpm
Combustível: 100 por cento eléctrico
Alimentação: monofásica de 400v e 32A, com carregamento doméstico a 220v e 16A
Tempo de carga: 7 a 8 horas de 0 a 100 por cento, na carga normal; 20 minutos até 80 por cento, em carga rápida; Bateria laminada de iões de lítio, com 192 células
Tracção: dianteira
Caixa: 1 velocidade
Suspensão: McPherson, com barra estabilizadora, à frente; eixo de torção e barra estabilizadora atrás,
Direcção: Pinhão e cremalheira, assistida electricamente
Travões: Regenerativos, discos ventilados à frente e atrás

Dimensões

Comprimento: 445 cm
Largura: 177 cm
Altura: 155 cm
Peso: 1525 kg
Pneus: 205/55 R16
Capac. mala: 330 litros

Prestações*

Velocidade máxima: 145 km/h
Aceleração 0 a 100 km/h: 11,9s
Consumo: 1,05 euros de electricidade por 100 km (dependendo da hora de carregamento)
Autonomia: 175 km
Emissões de CO2: 0 g/km

* Dados do construtor

Preço: A partir de 35.990 euros (menos 5000 euros com o programa de incentivo para aquisição de veículos eléctricos)

EQUIPAMENTO

Segurança

ABS: Sim, com distribuição electrónica da travagem e auxílio à travagem de emergência
Airbags dianteiros: Sim
Airbags laterais: Sim, à frente
Airbags de cortina: Sim
Airbag de joelhos para o condutor: Não
Aviso de colocação dos cintos de segurança: Sim
Controlo electrónico de estabilidade (ESP): Sim
Assistência ao arranque em subida: Não
Indicadores de carga da bateria e de autonomia: Sim
Indicador de pneu vazio: Não
Travão de estacionamento eléctrico: Sim

Vida a bordo

Vidros eléctricos: Sim
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Retrovisores rebatíveis electricamente: Sim
Ar condicionado: Sim
Abertura da tampa das tomadas no interior: Sim
Abertura da mala no interior: Não
Bancos em pele: Não
Fixações Isofix: Sim
Tecto de abrir panorâmico: Não
Jantes em liga leve: Sim
Rádio/CD: Sim (com ficha USB)
Comandos áudio e Bluetooth no volante: Sim
Volante regulável em altura: Sim
Volante regulável em profundidade: Não
Computador de bordo: Sim
Alarme: Não
Navegação por GPS: Sim
Regulador de velocidade: Sim
Sensor de chuva: Sim
Sensor de luminosidade: Sim
Sensores de estacionamento: Acessório, de origem apenas com câmara
Faróis de nevoeiro dianteiros: Sim
Luzes de dia: Sim
Faróis de LED: Sim

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