É uma espécie de cisne da indústria automóvel que ainda não se libertou do complexo de patinho feio. O Phaeton é a aposta da Volkswagen no exclusivo patamar das berlinas de luxo. Uma proposta que pretende competir com as consagradas Mercedes e BMW e até a Audi, a marca de prestígio do grupo alemão... Volkswagen. Neste cenário, o topo de gama do construtor do "carocha", o conhecido carro do povo, faz sentido? A competente motorização 3.0 TDI, com 240cv, demonstra que sim e que só a ostentação justifica a preferência por outros emblemas mais vistosos.
A comparação com a concorrência é inevitável para se perceber a razão do Phaeton quase não se ver nas estradas portuguesas. Excepção feita a um ou dois primeiros-ministros, que durante algum tempo utilizaram um dos poucos exemplares no mercado nacional, a berlina de luxo tem a vida dificultada logo com a marca irmã dos quatro anéis entrelaçados. Partilhando a plataforma com o Audi A8, a versão deste modelo 3.0 V6 TDI quattro tiptronic custa 107.100 euros, pouco acima dos 103.389 euros do Phaeton 3.0 V6 TDI Auto 4Motion. As siglas quattro e 4Motion significam que os dois modelos são dotados de tracção integral.
Menos de quatro mil euros de diferença, para uma potência equivalente (a VW anuncia 240cv e a Audi 250cv), parece fácil adivinhar para onde penderá a escolha. Os concorrentes "fora de casa" ficam mais distantes, mas ostentam outros argumentos, como a imagem: o Mercedes S350 3.0 BlueTEC, com 258cv, começa nos 109.413 euros (a versão de tracção integral 4Matic sobe aos 116.975) e o BMW 730d, com 245cv, arranca nos 107.940 euros (118.820 euros pela tracção integral do 740d xDrive, de 306cv).
Preços à parte, para se perceber até que ponto o Phaeton consegue estar à altura dos pergaminhos da concorrência, registe-se desde logo uma estética apurada, de linhas conservadoras mas silhueta esbelta. O que para alguns pode ser falta de chama, resulta afinal numa imagem discreta, mas com o carácter vincado pelas ópticas dotadas de tecnologia LED e aplicações cromadas. Estas são, aliás, as principais alterações introduzidas na recente e quarta remodelação do modelo lançado em 2002, que viu também reduzidos os valores em termos de emissões de CO2 (15g/km no TDI) e de consumos. Algum equipamento antes opcional passou a ser de série.
O interior desafogado pode adoptar uma configuração de cinco ou quatro lugares, neste último caso com uma consola ao meio com os comandos de climatização e de mordomias opcionais de conforto e entretenimento. No caso de cinco ocupantes, como era o da unidade ensaiada pela Fugas, o lugar do meio é aproveitável embora sem o conforto dos laterais. A construção revela um aprumo elevado e a boa qualidade dos revestimentos está ao nível dos concorrentes. A insonorização é garantida pelos vidros laminados. A consola central agrega alguns comandos, como os dos vidros, mas outros repartem-se pelo tablier e pelas molduras do painel de instrumentos e no volante multi-funções. Ainda assim, toda a instrumentação se revela intuitiva e fácil de apreender. Nota dissonante, embora também adoptada pela Mercedes, para o travão de estacionamento de pedal, quando modelos bem mais modestos já dispõem de uma solução eléctrica.
O único turbodiesel que anima o Phaeton assenta no 3.0 litros, que possui 240cv (o A8 está ainda disponível com um 4.2 V8, de 350cv), repartidos por uma transmissão automática de seis velocidades. Apesar dos mais de dois mil quilos, as prestações do V6 convencem desde baixos regimes, com uma resposta progressiva mas consistente. A suspensão pneumática filtra bem os pisos degradados e assegura bom apoio em trajectos mais sinuosos. O programa electrónico de estabilidade (ESP) pode ser desligado, o que no entanto se desaconselha uma vez que só se dá por ele em situações para além do razoável e garante uma maior confiança na abordagem de trajectórias mais exigentes.
De resto, este Phaeton foi concebido para proporcionar prazer tanto ao condutor como a quem é transportado. A panóplia de equipamento tecnológico e de segurança de origem apresenta-se num patamar à altura das melhores expectativas, mas há ainda uma vasta possibilidade de personalização com opcionais, que na unidade ensaiada acrescentavam 7593 euros ao preço final a pagar. Entre os quais a cortina traseira eléctrica (519 euros) e a câmara de ajuda ao estacionamento traseiro (491 euros). Sem grande esforço, este é um automóvel que facilmente cai no goto, seja pela exigência e rigor da construção germânica, seja pela discrição que exibe exteriormente. Este aspecto, que alguns podem ver como o seu calcanhar de Aquiles, é francamente no que mais pode agradar a uns quantos.
Barómetro
+ Equipamento, comportamento dinâmico, disponibilidade do motor, construção
- Preço, ausência de sistema start-stop, travão de estacionamento de pedal
Distinto
Ao rodar a chave na ignição (pois é...), uma parte do painel em madeira (raiz de nogueira) que tapa as saídas de ar e enquadra o relógio analógico sobe e fica recolhida no tablier. A Jaguar faz o mesmo, mas com as próprias saídas de ar, que se revelam no painel em alumínio, quando se prime o botão da ignição. É apenas uma forma distinta de encarar os pequenos detalhes que fazem de um topo de gama um mundo exclusivo, onde só alguns podem habitar em permanência. Só por arriscar e continuar a acreditar que um automóvel é mais do que a ostentação de um emblema, a Volkswagen merece reconhecimento pela sua aposta no Phaeton.
No bico das rodas
Outra característica exclusiva de origem no Phaeton assenta na tracção integral permanente 4Motion em todas as motorizações. O que lhe permite assegurar uma aderência exemplar, que convida a "puxar" pelas qualidades dinâmicas sem perder a compostura. A suspensão pneumática de série também garante dois níveis de altura do chassis, possibilitando a transposição de lombas mais pronunciadas. No monitor do tablier podem ainda ser seleccionados quatro tipos de amortecimento variável das molas entre as configurações Sport e Normal. Tudo em prol de um desempenho mais desportivo ou beneficiando o conforto.
Que tal sete?
A berlina de luxo alemã só está disponível com transmissão automática (à semelhança do A8), neste caso de seis velocidades (antes era de cinco). A repartição das relações mostra-se bem escalonada e rápida na resposta, mas fica a impressão de que uma sétima velocidade, para dar mais folga ao motor em estrada aberta, poderia contribuir também para poupar nos consumos. Isto porque (ainda) também não está disponível um sistema automático de Start-Stop, que desliga o motor nas imobilizações temporárias. Seja como for, a caixa Tiptronic responde com eficácia à maioria das solicitações, e pode ser apurada no modo Sport ou no modo sequencial, permitindo a passagem manual das mudanças. Os comandos no volante são opcionais.
Para as encomendas
A bagageira apresenta uma capacidade de 500 litros, alojando sob o piso uma roda sobressalente igual às outras em liga leve. Uma opção que se aplaude, pela possibilidade de prosseguir caminho no caso de um furo imprevisto, ao contrário das modernas soluções baseadas nos kits de reparação que obrigam a chamar o reboque quando o pneu sofre danos mais profundos. Na unidade ensaiada, os bancos traseiros não permitiam ser rebatidos, mas podem dispor de funções opcionais de massagem e da montagem de um frigorífico entre os dois lugares.
FICHA TÉCNICA
Mecânica
Cilindrada: 2967cc
Potência: 240cv às 4000 rpm
Binário: 500 Nm entre as 1500 e as 3000 rpm
Cilindros: 6, em V
Válvulas: 24
Alimentação: injecção directa de gasóleo por conduta comum, admissão variável, turbo de geometria variável, intercooler
Tracção: integral, permanente
Caixa: automática, de 6 velocidades
Suspensão: pneumática, independente, do tipo McPherson, com barra estabilizadora, à frente, e independente, trapezoidal, com barra estabilizadora, atrás
Direcção: pinhão e cremalheira, assistida
Travões: discos ventilados
Dimensões
Comprimento: 505,9 cm
Largura: 190,3 cm
Altura: 145 cm
Peso: 2233 kg
Pneus: 235/55 R17
Capac. depósito: 90 litros
Capac. mala: 500 litros
Prestações
Velocidade máxima: 237 km/h
Aceleração de 0 a 100 km/h: 8,3s
Consumo misto: 8,5 litros/100 km
Emissões CO2: 224 g/km
Preço: 103.389 euros (versão ensaiada: 110.982 euros)
*Dados do construtor
EQUIPAMENTO
Segurança
ABS: Sim, com assistência à travagem de urgência
Airbags frontais: Sim
Airbags laterais: Sim
Airbags laterais traseiros: Sim
Airbags de cortina: Sim
Airbag de joelho para condutor: Não
Controlo de tracção: Sim
Programa Electrónico de Estabilidade: Sim
Vida a bordo
Vidros eléctricos: Sim, aquecidos
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Direcção assistida: Sim
Retrovisores eléctricos: Sim
Ar condicionado: Sim, automático de 4 zonas
Abertura do depósito interior: Sim
Abertura da mala interior: Sim
Bancos traseiros rebatíveis: Não
Jantes de liga leve: Sim
Rádio CD: Sim
Comandos no volante: Sim
Volante regulável em altura: Sim
Volante regulável em profundidade: Sim
Computador de bordo: Sim
Alarme: Sim
Bancos dianteiros eléctricos: Sim
Estofos em pele: Sim
Bancos aquecidos: Sim
Tecto de abrir: Opção
Navegação por GPS: Opção (3159 euros)
Telefone integrado: Opção (1169 euros)
Regulador de velocidade: Sim
Sensores de chuva: Sim
Sensores de luminosidade: Sim
Sensores de parqueamento: Sim
Faróis de nevoeiro: Sim
Faróis de xénon: Sim
Luzes diurnas: Sim, em LED
Luzes direccionais: Sim
Lava Faróis: Sim