Fugas - motores

  • Rita Chantre
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Um carro muito sério

Por Luís Francisco

O estereótipo que temos do trabalhador asiático remete-nos para valores como a nobreza de carácter, a dedicação e a fiabilidade. Luís Francisco encontrou tudo isso ao volante do Kia Rio, um bom exemplo das virtudes da mão-de-obra oriental. Por outro lado, falta uma centelha de irreverência a este carro.
O visual exterior, muito bem conseguido, engana. Onde vemos uma promessa de temperamento fogoso, afinal encontramos um espírito sisudo e atinado, sério, compenetrado, honesto. Todos apreciamos um grão de loucura aqui e ali, mas há sempre momentos em que um valor seguro e sólido nos sabe muito bem. E isso o novo Kia Rio oferece como poucos.

É um carro equilibrado, que não confunde sobriedade com "cinzentude", que não apela à adrenalina mas também raramente se torna aborrecido. Em quase todos os aspectos, dos pequenos detalhes de design interior aos parâmetros dinâmicos, o que temos aqui é um produto sensato, honesto e sem manias. Pode ser o seu grande trunfo ou um factor desmoralizador de alguns potenciais clientes. Afinal, apesar de as realidades estarem a mudar e haver muitas famílias a bordo destes utilitários do segmento B (onde se concentram rivais como o Renault Clio, o VW Polo, o Opel Corsa ou o Peugeot 207), ainda há muitos jovens para conquistar.

E estes, assuma-se, não acharão grande graça a um carro que está constantemente a dizer-lhes que tenham juízo. Seja porque o indicador de mudança de velocidade está sempre "adiantado" em relação à rotação mais indicada (uma forma de nos obrigar a poupar combustível), seja porque a suspensão, sem claudicar, parece apostada em demover-nos de exageros (ou seja, não se pode dizer que o comportamento em curva seja mau; o que ficamos é com pouca vontade de testar os limites...).

O motor não é, de facto, entusiasmante. Tem potência, mas é pequeno. Nunca explode em picos de aceleração e, embora mostre uma energia notável em esforços de endurance, percebe-se que gosta pouco de sprints. Para se conseguir alguma vivacidade é preciso recorrer à caixa - e aí lá se vão as preocupações com a economia. Ainda assim, durante o teste, a média aproximou-se dos 8 litros/100 km, um número que não assusta, mas que também não entusiasma. Fica até a dúvida de saber se um motor com mais cilindrada não se tornaria mais económico. Mas não há. O Rio é comercializado com um único propulsor a gasolina (o 1.2 testado, com 85cv de potência) e dois a diesel, um 1.1 (75cv) e outro 1.4 (90cv).

Enfim, não é com este carro que vamos pensar em fazer ralis. Só que, lamentavelmente, também não temos aqui um prodígio de conforto, não só porque a suspensão não brilha particularmente a esse nível, mas também porque os bancos podiam ser bem melhores. A outro nível, e pela positiva, saliente-se a insonorização muito bem conseguida (o motor é tão suave que nunca incomoda), excepto na zona inferior do habitáculo (ouve-se tudo o que sai dos pneus a bater no chassis).

O silêncio não é o único ponto positivo a bordo. Na verdade, há muito por onde espalhar elogios, começando na instrumentação muito acessível e terminando na agradável descoberta de que não há praticamente túnel central na zona dos bancos traseiros - o fundo é quase plano, o que facilita a passagem de um lado para o outro e acrescenta alguma qualidade de vida ao eventual quinto passageiro. De caminho, saúde-se a preocupação de dotar o habitáculo com vários espaços para arrumos, a boa montagem e um posto de condução agradável.

Os materiais não são de estarrecer, mas, lá está, são o reflexo da imagem geral do modelo. Ou seja, apesar de discretos, cumprem a sua função com qualidade. O nível de equipamento agrada - até envolve alguns mimos pouco usuais, como a assistência a arranques em subida ou os faróis direccionais -, embora se estranhe que só o vidro do condutor tenha elevador automático, ou que não haja pneu suplente, apesar de o espaço estar lá, por baixo do (fraquinho) tapete da bagageira. Outro sinal de falta de pedigree é a irritante tendência do cinto de segurança do lado do pendura para bater de forma ruidosa no pilar quando não está a ser usado.

A condução é fluida para quem não ande à procura de emoções fortes. As acelerações são muito progressivas, a caixa funciona bem, os travões mostram-se bastante eficazes e a direcção, embora pouco dada a loucuras, é comunicativa. Em suma, um carro equilibrado e consistente, que não fica mal na fotografia perante os fortes concorrentes do seu segmento. Principalmente no preço.

Barómetro

+ Visual exterior, qualidade de construção, instrumentação, travões, pormenores interiores

- Falta de irreverência, suspensão a meias-tintas, bancos algo moles, má visibilidade para trás e a três quartos

Prático

Quase como nos monovolumes, o piso do habitáculo junto dos lugares traseiros é praticamente plano, o que facilita imenso os movimentos e garante algum espaço adicional ao quinto passageiro, que terá de lidar com um encosto durinho e falta de centímetros para os ombros, pelo que não se aconselham viagens longas. Há um ligeiro alto, por onde passa a conduta central do veículo, mas nada que se pareça com a generalidade dos carros deste segmento (e de outros), que ficam verdadeiramente divididos ao meio. O espaço é interessante para os joelhos, limitado em largura.

Função e fruição

O quadro de instrumentos é muito prático e acessível, com comandos óbvios e uma clara ditadura do pragmatismo. Mas há sempre espaço para um golpezinho de asa dos designers e estes parecem ter deixado a sua marca nas interessantes patilhas da última fila na zona central. São práticas e giras, mas é também aí que fica um dos poucos pormenores a exigir atenção: o ar condicionado liga-se automaticamente quando levamos a temperatura da ventilação ao mínimo e depois não se desliga por mais que carreguemos no botão. Quando se dá pela coisa, resolve-se, rodando o selector de temperatura. Mas é uma rasteira para não iniciados.

Obrigado

Começa, à frente, com um espaço generoso onde até encontramos uma ranhura bem à medida dos telemóveis de última geração. Depois há mais alguns pequenos recantos, suportes para dois copos e, já para lá da linha dos bancos, um outro campo vasto de arrumos. A consola central foi desenhada de forma muito simpática para o condutor e passageiro, que podem ter sempre tudo à mão. E a lista de locais onde guardar pequenos objectos não se fica por aqui. Dão um jeitão.

Complicado

A dimensão do terceiro pilar e o desenho do óculo traseiro limitam bastante a visibilidade em manobras que impliquem a marcha-atrás. Os problemas tornam-se ainda mais bicudos quando percebemos que a manobrabilidade também não é brilhante, devido a uma brecagem limitada e a uma direcção pouco desmultiplicada no volante. Vale que o carro é pequeno e não tem ângulos estranhos. Em opção, o Pack Navegador (que, como o nome indica, inclui o sistema de navegação) oferece câmara de estacionamento traseira.

Ficha Técnica

Mecânica
Cilindrada:
1248cc
Potência: 85cv às 6000 rpm
Binário:
120,7 Nm às 4000 rpm
Cilindros: 4
Válvulas: 16
Alimentação: injecção indirecta
Tracção: Dianteira
Caixa: Manual de 5 velocidades
Suspensão: Independente, do tipo McPherson, à frente; semi-independente, com eixo de torção, atrás
Direcção: Pinhão e cremalheira, com assistência eléctrica
Travões: Discos ventilados à frente, discos atrás

Dimensões
Comprimento:
404,5 cm
Largura: 172 cm
Altura: 145,5 cm
Peso: 1104 kg
Pneus: 185/65 R15
Capac. depósito: 43 litros
Capac. mala: 288 litros

Prestações*
Velocidade máxima:
168 km/h
Aceleração 0-100 km/h: 13,1s
Consumo misto: 5,1 litros/100 km
Emissões CO2: 119 g/km

* Dados do construtor

Preço
15.506 euros

Equipamento

Segurança
ABS:
Sim
Airbags dianteiros:
Sim
Airbags laterais:
Sim (à frente)
Airbags cortina:
Sim
Controlo de tracção:
Não
Controlo de estabilidade:
Sim
Assistência ao arranque em subida:
Sim

Vida a bordo
Vidros eléctricos:
Sim (4)
Fecho central: Sim
Comando à distância: Sim
Direcção assistida: Sim
Indicador de mudança de velocidade: Sim
Retrovisores eléctricos: Sim (aquecidos e retrácteis)
Ar condicionado: Sim (manual)
Abertura depósito interior: Sim
Abertura mala do interior: Não
Bancos traseiros rebatíveis: Sim
Jantes especiais: Sim
Rádio CD e MP3:
Sim
Comandos no volante:
Sim
Ligação USB, ipod:
Sim
Volante regulável em altura:
Sim
Volante regulável em profundidade:
Sim
Computador de bordo:
Sim
Alarme:
Sim
Tecto de abrir:
Opção (600€)
Bancos dianteiros eléctricos: Não
Bancos dianteiros aquecidos:
Não
Estofos em pele:
Não
Navegação por GPS:
Opção (inclui câmara de estacionamento traseira, 1271€)
Regulador de velocidade: Não
Sensores de chuva: Opção (em conjunto com ar condicionado automático, 350€)
Sensores de luminosidade: Sim
Sensores de parqueamento: Não
Indicador de pressão dos pneus: Não
Faróis direccionais:
Sim
Faróis xénon:
Não

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