E o impacto visual tem correspondência na performance: se querem um carro com carácter desportivo, olhem para os parâmetros de travagem - o Bugatti Veyron, símbolo máximo do que a engenharia automóvel consegue atingir, leva 50s para acelerar até aos 400 km/h, mas precisa de menos de dez para parar... Não é destes valores estratosféricos que falamos quando avaliamos o Renault Mégane RS Trophy, mas a tendência é a mesma: este carro acelera muito, mas trava ainda melhor.
Construída em número muito limitado - estão anunciadas apenas 500 unidades, a comercializar em vários países europeus -, esta é uma versão musculada do já de si encorpado RS. A potência foi aumentada de 250 para 265cv, o binário subiu de 340 para 360 Nm, a aceleração dos 0 aos 100 km/h faz-se em 6,0s e a velocidade máxima está marcada nos 255 km/h. O aspecto exterior faz jus a esta exuberância mecânica, mas não vale a pena procurar apêndices aerodinâmicos muito conspícuos ou acessórios disparatados. Tudo o que está lá, está lá por motivos práticos. Só que isso, por si só, é mais do que suficiente para fazer rodar muito bom pescoço na estrada e no passeio.
Assim que nos sentamos na baquet de competição que nos espera no lugar do condutor (há outra igual ao lado e dois lugares, bem marcados, mas minimais, lá atrás) o mundo muda de figura. O botão da ignição dispara um ronco poderoso, sentimos nas mãos o volante desportivo, os pés procuram os pedais de metal, acariciamos o comando da caixa de velocidades. E, depois, aceleramos. Sim, é qualquer coisa de siderante sair de uma portagem e atingir o limite de velocidade antes da terceira passagem de caixa, mas isto só é divertido das primeiras vezes. E, ainda assim, já vimos melhor. O que interessa é o comportamento em curva.
E então, desilusão. Sim, os números assustam, a dureza espartana da suspensão e o ruído a bordo recordam-nos continuamente que devíamos estar num circuito, toda a gente anda devagar de mais e ninguém nos deixa sair de uma curva como deve ser... Mas, caramba, seria de esperar um bocadinho mais de diversão, mesmo a meio-gás. Não. O carro está completamente agrilhoado pelas ajudas (neste caso, "rédeas") electrónicas. Experimenta-se apertar a trajectória numa curva com visibilidade, nada. Novamente, ainda mais. Nada. Nada acontece, o carro cumpre o que lhe mandamos sem mostrar o mínimo sinal de estar a ser forçado.
Isto é frustrante. É como se nos levassem ao futebol, nos vestissem o equipamento da nossa equipa favorita e permitissem que estivéssemos em campo na final da Liga dos Campeões, mas com a condição de não nos mexermos e não tocarmos na bola... Isto é uma tortura! Conduzir um carro destes, sofrer o que um carro destes implica de desconforto, e não nos divertirmos ao volante é demasiado cruel para ser verdade. E, de facto, não é verdade.
É que, neste RS Trophy, há um botão para accionar o modo Sport e ele não envolve essa decisão quase radical de desactivar o controlo de tracção e o programa electrónico de estabilidade. Nada disso. O que este botão faz é suavizar a acção destas ajudas. E, agora sim, já sentimos a traseira atravessar ligeiramente quando forçamos uma trajectória, já percebemos o trabalho do eixo dianteiro a digerir a potência. Estamos a conduzir, estamos mesmo aos comandos de um carro electrizante! Ah, o meu mundo por uma pista fechada!