Quando a GL 1000 Gold Wing se estreou no salão de Colónia, em 1974, apesar da sua arquitectura distinta e dos respeitáveis 295 kg a seco poucos acreditariam que o modelo ficasse para a história e muito menos que, 37 anos depois, fosse apresentada a sua sexta geração, com mais dois cilindros, quase o dobro da cilindrada e pesando cem quilos mais.
Comercialmente foi nos EUA que obteve maior impacto, tendo a Honda, em 1980, deslocado a produção para a sua fábrica em Marysville, no Ohio. No país da Harley-Davidson Electra Glide, a Gold Wing conseguiu fazer-se respeitar e acabou por ser um enorme sucesso comercial, tendo sido fabricadas mais de 640.000 unidades das várias versões. Em 2009, a Honda encerrou a produção em Marysville e transferiu-a para Kunamoto, no Japão, que iniciou a sua produção já com a nova geração.
É preciso ser-se especialista para perceber as diferenças da nova Gold Wing, mas são muitas e profundas, com o conforto dos passageiros e a satisfação das suas necessidades e caprichos a dominarem o desenvolvimento.
O primeiro contacto é intimidante, obrigando a muito cuidado até percebermos a que movimentos é que é sensível. Curiosamente, as manobras para sair de um estacionamento que obriguem a fazer marcha atrás são muito simples pois dispõe de um motor eléctrico para o efeito, accionado através do polegar direito, sendo surpreendentemente fácil de utilizar.
Já com a estrada à nossa frente o arranque revela-se suave, sobressaindo a linearidade do motor seis cilindros com 1832cc ao longo da faixa de rotação. O som abafado transforma-se gradualmente num silvo de potência, e é impressionante a sensação que a gigantesca massa em movimento transmite. O hipnotismo da sua envolvência só é prejudicado pelo accionamento da caixa de velocidades, algo lenta e ruidosa, mas assim que engrenamos a quinta velocidade, o que pode acontecer desde os 60 km/h, passamos a rodar em cima de uma nuvem. Os comandos obrigam a pouco esforço, a travagem combinada em conjugação com o sistema ABS funciona sem se fazer sentir e a suspensão absorve as irregularidades sem perturbar o equilíbrio dinâmico.
Em cidade obriga a alguma atenção suplementar, os espaços por onde serpentear passam a ter que ser muito maiores e a inércia do conjunto recorda-nos que estamos aos comandos de uma moto diferente. Em estrada este problema já não se coloca e o seu conforto sobressai. Entramos no seu ambiente de eleição e podemos então usufruir dos benefícios conseguidos pelo estudo das suas formas em túnel de vento. À velocidade de cruzeiro de 120 km/h o motor gira sensivelmente às 3.000 rpm, isento de vibrações e disponível para o que nos apetecer.
O pára brisas isola-nos do exterior o suficiente para podermos apreciar o conforto do banco e ouvir música, com efeito surround, disponibilizada em seu redor através de seis altifalantes. Para os dias mais frios temos à disposição aquecimento, para os pés proveniente de uma conduta na carenagem e para os punhos e assento através de uma resistência, com regulação individual em cinco posições. À disposição também um sistema de navegação, com o painel colocado em posição central, de tamanho generoso e com boa leitura. Não é preciso rodar muito para se perceber as razões que a levaram ao sucesso. A sua presença é imponente e tem conseguido reinventar-se ao longo dos anos, não passando despercebida seja em que ambiente for, mas é o que transmite ao condutor que a distingue e continuará a cativar por mais alguns anos, seguramente.