Um fim anunciado
A falta de gente pelas ruas que vamos palmilhando em passadas curtas e pausadas é notória e, tal como nos dizia Alípio, a maioria já passou há muito dos 60 anos. Ainda assim, a Pousada da Juventude vai recebendo visitas regulares e o castelo acolhe uma Pousada Histórica de Portugal.
A Rota do Fresco, que o município integra, ou as actividades ligadas à proximidade da água, vão levando pessoas até à isolada vila. "Daqui não se vai para lado nenhum; há uma carreira de manhã e ao fim do dia e pouco mais", diz Alípio. Para ir a Beja de comboio é preciso primeiro chegar a Vila Nova da Baronia, a sete quilómetros da sede de concelho. "Não ter carro aqui é pior do que ser analfabeto", atira.
E não está optimista quanto ao futuro: "Com a reforma administrativa é muito possível que o Alvito deixe de ser município — algo que, aliás, já aconteceu no passado, na reforma de Passos Manuel"; uma directiva que pouco durou, até pela história do concelho, cujo foral, atribuído por D. Afonso III, data de 1249. "O que vai acontecer é que a vila vai perder o pouco que tem: dois bancos, os correios, o centro de saúde..." Os serviços passarão a concentrar-se ou em Cuba ou na Vidigueira e ambas "estão a cerca de 20 quilómetros".
"E aí vai desaparecer ainda mais gente" de uma vila carregada de História, como a que conta o chão que pisamos: a Rua da Calçada, designada assim precisamente por ter sido a primeira via no Alvito a ter calçada. Tudo para que o rei pudesse deslocar-se entre o castelo e a igreja. "Agora, as casas já não deixam ver, mas nesse tempo do Pelourinho avistava-se bem a igreja."
Até a pesca, que há uns tempos atraía muita gente às margens da barragem do Alvito, parece ter perdido fôlego. Ainda vão chegando gentes um pouco de todo o lado, mas "há mais peixes na água que pescadores fora dela".
"A verdade é que ao fim de oito dias já se conheceu tudo o que se tinha a conhecer." E depois de a incursão no Transtagano ter fracassado, acabou por regressar a Lisboa: "Faz mais sentido estar lá do que cá". A casa, que alberga quase toda uma vida, continua como que habitada: sempre pronta para o receber ou para acolher amigos em busca de um pouco de paz. "E isso encontra-se facilmente no Alvito", onde descansar é fácil.
Padre sem vocação
Aos 83 anos, Alípio mantém a jovialidade no sorriso quando quase faz pouco de nós ao questionarmos se o seminário na sua juventude foi uma questão de vocação. "Qual vocação?! Eu só queria estudar!" Não por vontade do avô, que achava que tal coisa não passava de desperdício de tempo, mas pela inspiração da avó, que vinha duma família em que "todos os homens estudavam". E na pequena Vinhais, onde nasceu e viveu os primeiros anos de vida, as oportunidades não abundavam. Foi assim que foi parar ao seminário: estudou Filosofia e depois Teologia, tendo sido ordenado padre em 1952. Acabaria por ficar com uma paróquia na serra de Montesinho, que recorda com saudade, e onde começou a ter contacto com as "duras realidades dos lavradores".