Fugas - Viagens

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Alípio de Freitas e o Alvito

No entanto, o tempo de estudos serviria também para lhe abrir os horizontes. "Durante o tempo do seminário li muito sobre as viagens dos padres jesuítas e os relatos inspiraram-me. Primeiro, queria ir para Timor. Mas o bispo não me deixou. "Tu sabes onde fica Timor?", perguntou-me. "Isso fica do outro lado do mundo!"", lembra, com uma sonora gargalhada.

Foi então que surgiu o convite do arcebispo de Maranhão, no Nordeste do Brasil, para ir leccionar História Antiga e Medieval na universidade local. "Ia para uma cidade grande, achava eu: 300 mil habitantes!" Mas "uma cidade assim na América Latina" é como um Alvito no meio do Alentejo. E, depois de ver que a cidade tinha "um centro urbano mais ou menos interessante", percebeu que esses tais 300 mil eram "um mundão de gente habitando em casas de pau-a-pique, em favelas...". E assim, como no adoptado Alvito, "ao fim de oito dias já se conhece todo o mundo".

Chegado ao Brasil, porém, outros objectivos se formam: "Comecei a andar pelos lugares, a conhecer as pessoas." E se a pobreza de Trás-os-Montes o havia chocado, a miséria brasileira cavou ainda mais o fosso entre si e as instituições que o acolheram. "Comecei a ter alguns problemas com a universidade, onde só me mantinha o tempo necessário para dar as aulas. Até que percebi que dar aulas qualquer sujeito pode dar. Para quê perder o meu tempo nisso?" A partir daí começou a envolver-se nos meios dos camponeses e daí a desencontrar-se com a Igreja, "profundamente conservadora", foi um passo.

"Cheguei em 1957 e aguentei o barco até 1962." Foi nessa altura que decidiu trocar o sacerdócio pela política, ocupando um lugar de relevo entre as Ligas Camponesas que lutavam pelo direito à terra. Mas, pouco tempo depois, o Presidente João Goulart foi deposto pelo Golpe Militar e muita gente viu-se forçada ao exílio: "Fui para o México e depois para Cuba, onde estive entre 1965 e 1966." 

Apoiante da revolução cubana ("Fui até o primeiro jornalista no Brasil a escrever sobre o caso, em 1958, embora não soubesse muito bem o que era aquilo"), lembra como o caso mexeu com o meio camponês por toda a América Latina: "Todos queriam ir a Cuba ver como tinha sido a revolução e a posterior reforma agrária. Cuba foi um alimento ideológico imenso no Brasil." "Os camponeses vinham de lá e queriam logo pegar em armas. O problema era fazê-los ver que não era assim tão fácil." É que, se é verdade que o clima era favorável a uma revolução no Brasil, também a reacção era forte: "A direita, o imperialismo, os norte-americanos... ninguém queria largar os anéis."

Acabaria por voltar ao Brasil — e ainda volta: "sempre que posso" —, onde escreveu em jornais, assumiu programas na rádio e foi líder do Partido Revolucionário dos Trabalhadores. Mas, durante a década de 1970, foi preso e perdeu qualquer cidadania, tornando-se apátrida. 

"Jamais, por mil anos que viva, a lembrança desses dias pavorosos se apagará da minha memória. Jamais", escreveu Alípio em Resistir é Preciso

Na casa do Alvito, as memórias desses dias estão expostas logo à entrada, reveladas em litografias assinadas por si que nos diz ter executado durante o tempo em que esteve preso: "Há muitas mais, mas não havia espaço para todas."

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