Fugas - Vinhos

Adriano Miranda

Loureiro... e um dos produtores mais irreverentes da Califórnia

Por Rui Falcão

Randall Graham é um dos enólogos e produtores mais irreverentes de que há memória no universo vínico, um provocador nato que ajudou a transformar e revolucionar a paisagem do vinho norte-americano.

Mais que um enólogo puro, ministério para o qual não possui qualquer formação formal e cujos conhecimentos foi ganhando de forma empírica, Randall Graham é um ideólogo do vinho, um pensador e reformador que gosta de viver livre e sem regras, um agitador que gosta de desinquietar, um espírito inquieto que necessita de desafios contínuos.

Um ideólogo que, para além de simplesmente fazer bons vinhos e determinar novos caminhos, demonstra uma facilidade e intuição natas para propagandear e exaltar as suas criações, exibindo dotes de comunicação invulgares. É um homem do mundo do espectáculo que sempre conseguiu divulgar os seus ideais de forma global, seja pelas artes do escândalo e divertimento, seja pela profundidade das suas convicções e pela sinceridade desconcertante com que as apresenta e promove.

Entre os actos de maior escândalo e entretenimento conta-se o mediático funeral da rolha de cortiça, acto rebelde e contestatário que em 2002 estremeceu a cidade de Nova Iorque e o ambiente habitualmente sereno do vinho. Randall Graham determinou o enterro da rolha de cortiça com direito a cortejo funerário pelas ruas de Nova Iorque e vigília no ambiente monumental do Grand Central Terminal de Manhattan, com as exéquias a serem proclamadas pela famosa Jancis Robinson face a um caixão onde repousava um corpo feito de cortiça, o corpo da personagem Thiery Bouchon, diante de um Randall Graham vestido de smoking roxo que fez o epitáfio da rolha de cortiça. O que não significa que Randall Graham não seja muito mais que um simples show man, muito mais que um mero provocador e homem de ideias inovadoras de marketing.

Randall Graham transformou-se em produtor de vinho em 1983, data em que fundou a Bonny Doon sem que à época dispusesse ainda de um plano formado sobre que vinhos fazer, ou como os fazer, para além de saber muito bem que tipo de vinhos gostava de beber. Se no início se voltou para o Pinot Noir, tendo em conta a sua paixão pela Borgonha, cedo percebeu estar a apostar no cavalo errado, pelo menos na Califórnia, optando pelas variedades das Côtes du Rhône quase desconhecidas à época na Califórnia. Randall Graham abraçou estas novas castas com um tal fervor que acabou por ficar conhecido como o Rhône Ranger, num gracejo e trocadilho com o famoso Lone Ranger do imaginário do Oeste norte-americano.

Os vinhos excelentes, mas também as suas tácticas de guerrilha institucional e de comunicação irreverente, deram-lhe uma visibilidade anormal que rapidamente o transformaram num dos mais célebres produtores de culto californianos. Sem ter qualquer treino formal em enologia, Randall Graham conseguiu criar uma sequência de vinhos excepcionais que demonstraram uma intuição natural para a causa. A sublinhar a qualidade surgiu uma montanha de rótulos estranhos e misteriosos, pelos nomes e pela iconografia usada, parodiando muitas das conjunturas mais estranhas do vinho. Entre os rótulos mais famosos conta-se o “Le Cigarre Volant”, um rótulo que graceja com uma lei francesa verídica de uma comuna das Côtes du Rhône que determina a qualquer ovni a proibição de aterrar nas vinhas da região. Ora, como em França os ovni são coloquialmente conhecidos como charutos…

Quase duas décadas depois, Randall Graham resvalou de ser um iconoclasta do vinho a grande produtor, assumindo uma produção que chegou a ultrapassar os cinco milhões e meio de garrafas. Foi por essa altura, e depois de um problema grave de saúde, que percebeu estar a trilhar o caminho errado. Vendeu quase tudo, terra, adega e marcas, para passar a dedicar-se a reinventar o projecto inicial, reassumindo o papel de criador e revolucionário, adoptando de corpo e alma a perspectiva da agricultura orgânica, de onde rapidamente passou para os princípios da biodinâmica.

Para grande felicidade, encontrei-o há pouco mais de uma semana em Nova Iorque, na prova anual do grande importador e distribuidor que se transformou quase numa lenda, Michael Skurnik, onde tive oportunidade de provar todos os seus vinhos. Alguns deles excelentes, outros intrigantes, outros ainda estranhos e perturbadores. Porém, ainda mais que os vinhos, o que mais inquieta é o seu discurso fácil e apaixonado, a sinceridade desconcertante com que afirma já ter mudado de opinião diversas vezes, o mea culpa que assume sem relutância, a mudança profunda na crença absoluta nos vinhos de terroir, sem manipulações de qualquer ordem na vinha.

E ainda mais desconcertante foi ter Randall Graham a explicar com todos os cuidados os porquês da sua aposta relativamente recente na casta Alvarinho, de que acabou de lançar um vinho, o Bonny Doon Albariño Central Coast 2012, assim mesmo, escrito na versão galega da casta. Um vinho extremamente aromático, mas atípico, que identifica a variedade, embora num registo diferente e algo exótico. Segundo Randall Graham, o seu Albariño nunca poderia ser comparado com um Alvarinho português… mas não ficaria mal perante um Albariño galego, num dos maiores elogios que os vinhos Alvarinho portugueses poderiam receber.

Mas ainda mais inesperado foi ouvir Randall Graham elogiar até à exaustão a outra das grandes castas brancas da região do Vinho Verde, o Loureiro, variedade que já teve plantada num passado recente e que deseja replantar muito em breve, depois de a ter perdido por completo numa vinha experimental. Os elogios foram tão enfáticos e tão empolados que não resistiu a identificá-la como uma das melhores do mundo e uma das mais promissoras para o futuro. Depois de ter ajudado a colocar no mapa variedades como a Grenache e o Carignan, será que Randall Graham poderá fazer algo de semelhante pelo Loureiro e pelo Alvarinho?

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