Fugas - Vinhos

Os vinhos quase épicos do Norte da Madeira

Por José Augusto Moreira

Produção de vinhos de mesa é recente e começa a dar frutos, sobretudo com a casta Verdelho. Terras do Avô Grande Escolha e Quinta do Barbusano assim o demonstram.

É quase uma tarefa épica, a produção de vinhos de mesa na Madeira, e por isso mesmo esta é uma actividade muito recente, mas em crescimento.

Só há cerca de 15 anos é que este tipo de vinhos começou a ser engarrafado, uma produção que se restringe praticamente à zona Norte da ilha e que começa a dar frutos com a casta Verdelho, a que melhor se dá com as características de solo e clima locais.

Daí que seja normalmente designada como Verdelho da Madeira, uma classificação que muitos recusam por redundante, já que consideram que este é o único e verdadeiro Verdelho, correspondendo todos os outros plantados no território do continente a clones das castas Gouveio ou da espanhola Verdejo.

Denominações à parte, o certo é que é pelas temperaturas mais amenas que os vinhos produzidos nas encostas Norte da Madeira têm características que permitem o seu engarrafamento como vinhos de mesa.

Além do clima e da humidade, as condições de cultivo adquirem contornos quase épicos, dada a diminuta dimensão das parcelas e a dificuldade no amanho, como comprovámos em recente visita a dois produtores na região, a Seixal Wines e a Adega Barbosano.

Foi quase por birra que Duarte Caldeira avançou para o engarrafamento de vinhos de marca própria, os Terras do Avô, lançados a partir de 2008. Depois do desencontro entre sócios num projecto de produção colectiva, aproveitou o facto de ter já três hectares de vinha replantada para criar uma sociedade com os filhos com base nos terrenos herdados do avô.

Apesar da reduzida dimensão da área de produção, o facto é que os três hectares estão divididos por 31 parcelas e múltiplos socalcos, o mais pequeno dos quais com 19 metros quadrados e escassas 12 parreiras. A vindima é, obviamente, manual e por vezes até bago a bago. A produção beneficia ainda de uvas de outros proprietários, por vezes em parcelas tão pequenas que numa só cesta é entregue toda a vindima.

A Terras do Avô engarrafa apenas quatro vinhos, dois Colheita, branco e tinto, e dois Grande Escolha, sendo que estes são apenas engarrafados nos anos em que a qualidade da colheita o justifique. Nos brancos é usada exclusivamente a casta Verdelho, enquanto os tintos provêm de lotes com as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Shyraz.

A aposta é no incremento da produção de brancos, sendo que da última colheita resultaram 19 mil garrafas (antes eram apenas cerca de 10 mil), enquanto os tintos se ficaram pelas cerca de nove mil.

O Grande Escolha Branco – apenas com mosto de lágrima - é claramente o vinho mais afinado e de maior potencial. Aromas tropicais, uma acidez fantástica, secura final e alguma complexidade de boca, que lhe conferem boa aptidão gastronómica, sobretudo se aliado com peixes e outros produtos do mar.

Duarte Caldeira, um calejado agrónomo que conta com o apoio da filha, Sara, que enveredou pela mesma profissão, acredita que é no Seixal, onde estão as suas vinhas, que estão as melhores, e quase únicas, condições para os vinhos de mesa madeirense. Tudo devido a uma dupla insolação (a directa e uma segunda resultante do reflexo do sol pelas águas do oceano) que aumenta o período de insolação. Logo, mais fotossíntese e mais açúcar nas uvas.

Mais ousado e ambicioso é o projecto da Quinta do Barbosano, onde o sonho passa até por construir adega própria. Isto numa zona onde todos os vinhos são feitos na Adega de São Vicente, um investimento público e com capacidade mais do que suficiente para todos os produtores. As vinhas próprias, com 13 hectares, ficam em São Vicente, em terrenos que pela inclinação e configuração se assemelham ao cultivo no Douro. Às terras próprias adquiridas por Tito Brazão e o seu sócio em 2006, juntam-se mais 6,5 hectares de vinha alugada em Porto Moniz. Além dos vinhos de mesa, o projecto passa também pela produção de vinhos Madeira, o que deverá acontecer já nas próximas colheitas.

Com início da produção em 2009 e 46 mil garrafas na última colheita, quase na totalidade vendidas na ilha, são quatro os rótulos com a marca Barbosano (branco, rosé, tinto e barricas tinto) e mais dois com a marca Ponta do Tristão (branco e tinto). Na primeira é exclusivamente utilizada a casta Verdelho para os brancos, enquanto no rosé e nos tintos entram a Aragonez, Touriga Nacional, Tinta Negra e Complexa. Já nos Ponta do Tristão, onde é privilegiado o volume, entram apenas as castas que garantem maior produtividade. Aragonez e Touriga para os tintos, um pouco de Verdelho e a alemã Arnsburguer (aparentada à Riesling) para os brancos.

O destaque vai, naturalmente, para o branco Verdelho (tropical, seco e com boa acidez), mas também o rosé e o barricas tinto (seis meses de estágio) se tornam apelativos pela boa relação entre a qualidade e o preço.

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