Fugas - Vinhos

Nuno Ferreira Santos

Os formidáveis brancos da Terceira estão de volta

Por Pedro Garcias

Depois de um interregno de dois anos, a dupla Anselmo Mendes e Diogo Lopes volta a fazer os vinhos dos Biscoitos, na ilha Terceira. Os brancos Magma e Muros de Magma de 2015 vão chegar ao mercado dentro de dias e são dois vinhos admiráveis.

Anselmo Mendes e Diogo Lopes estão de regresso à ilha Terceira, nos Açores, para retomar um projecto iniciado em 2011 e que criou grande ilusão nos amantes dos vinhos brancos: a produção dos vinhos Magma e Muros de Magma, da Adega Cooperativa dos Biscoitos, no concelho da Praia da Vitória. Os dois enólogos fizeram um acordo com os serviços regionais de agricultura e com a direcção daquela adega cooperativa, através do qual a empresa Anselmo Mendes Vinhos passou a assumir a produção e a comercialização dos vinhos. A primeira colheita de novo sob o controlo da dupla de enólogos é de 2015 e deverá chegar ao mercado dentro de dias.

Provámos os vinhos, ambos da casta Verdelho, e a primeira reacção foi de assombro e de questionamento. Assombro, porque são vinhos extraordinários e distintos, capazes de surpreender os enófilos mais exigentes; questionamento, porque custa a acreditar como um vinho com este potencial tem sido tão esquecido e tão sujeito aos humores do dirigismo local. Depois de terem feito os vinhos de 2011 e 2012, Anselmo Mendes e Diogo Lopes já não colaboraram nas colheitas de 2013 e 2014, “por razões de política local”. A maioria do vinho foi vendida em bag in box

O regresso dos dois enólogos à Terceira é, pois, uma grande notícia. Na prática, a Anselmo Mendes Vinhos assume a gestão total da Adega Cooperativa dos Biscoitos, tendo para o efeito estabelecido um contrato de comodato de sete anos, renovável por idêntico período. Não só vai fazer e vender os vinhos, como ficará também responsável pelo pagamento das uvas aos sócios da cooperativa. Graças ao novo acordo, já receberam a vindima de 2015 e de 2016, ao preço de 1,50 euros o quilo de uva. A Adega Cooperativa dos Biscoitos terá direito a 5% das vendas totais e ainda a uma certa quantidade de vinho, que poderá comercializar à porta da adega.

O vinho na Terceira nasceu com a chegada dos primeiros povoadores, no início do século XVI, e expandiu-se com a aventura marítima. Quase desapareceu com a filoxera, no final do século XIX, mas voltou a ganhar alguma projecção já no século XX graças à Casa Agrícola Brum. Com o declínio desta casa, a pequena Adega Cooperativa dos Biscoitos passou a ser o derradeiro baluarte dos vinhos brancos da ilha. Inaugurada em 1999, conta actualmente com cerca de 60 sócios. A produção total de vinho é ainda diminuta (pouco mais de 10 mil litros) e um dos grandes desafios de Anselmo Mendes e Diogo Lopes passa por incentivar os viticultores locais a plantar novas vinhas e a reestruturar algumas das existentes, tirando partido dos generosos apoios existentes. No Pico, a corrida aos apoios para a plantação de novas vinhas tem sido intensa. Mas na Terceira o interesse tem sido residual. A área disponível também é bastante inferior. A Área de Paisagem Protegida das Vinhas dos Biscoitos (integrada no Parque Natural da Terceira), criada pelo governo regional para travar o avanço da construção imobiliária, estende-se por apenas 165,40 hectares de biscoito.

Biscoito é o nome que se dá à terra queimada nascida dos vulcões. Muitas das zonas pedregosas de basalto preto situadas junto ao mar são fajãs formadas pelas lavas provenientes de erupções vulcânicas. Por serem terras pobres e de difícil granjeio, foram utilizadas desde cedo para o cultivo da vinha. Para a cultura ser viável, foi necessário proteger as videiras das intempéries, através da construção de curraletas, parcelas pequenas delimitadas por muros de pedra seca. É uma arquitectura que combina sabiamente a necessidade de arrumar a pedra resultante das covas onde eram plantadas as videiras com a preocupação de proteger a vinha dos elementos.

Cada curraleta pode levar entre seis a dez videiras (muitas levam menos), que crescem sem qualquer aramação junto ao solo. São suportadas por tinchões, pequenos ramos de urze que evitam o contacto dos cachos com a terra pedregosa e proporcionam uma melhor incidência da luz solar. Alguns produtores produzem apenas algumas dezenas de quilos de uva, mas continuam, ano após ano, a tratar das suas curraletas. A sua devoção a esta cultura, praticada num ambiente hostil e sem retorno económico visível, é verdadeiramente emocionante. É ela que confere aos brancos dos Biscoitos uma dimensão que vai muito para além da faceta orgânica e química do vinho. Por trás de cada copo há muito heroismo e poesia — e é também por isso que estes brancos são tão especiais e formidáveis.  

 

Os vinhos

Magma Verdelho 2015

A cor oxidada sugere um vinho já com muitos anos de idade (a desfolha foi excessiva e os cachos apanharam sol em demasia), mas é pura ilusão. A casta Verdelho presta-se a isto. No entanto,provando o vinho, percebe-se que é um vinho vivo e fresquíssimo. De aroma austero, também típico da casta, mostra na boca os dois lados do basalto: madureza (embora tenha só 12,5% de álcool) e frescura. A sua secura, salinidade e acidez são prodigiosas e deixam-nos a salivar. Este, sim, é um branco de terroir, tributário do mar e da lava. Foram feitas apenas 2500 garrafas.
Preço: 15€
Nota: 94

Muros de Magma Verdelho 2015

Tudo o que escrevemos para o Magma serve para o Muros de Magma. O vinho é o mesmo, mas, enquanto o Magma passou apenas pelo inox, o Muros de Magma fermentou e estagiou durante um ano em barricas usadas. Está, por isso, mais rico e gordo. Um grande vinho vinho. Foram cheias 1500 garrafas.
Preço:30€
Nota: 95

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