A primeira sensação é a de que devemos estar a fazer alguma coisa mal. Entre tantos botões (e no escuro da noite que já caiu...) deverá estar a resposta para este comportamento singular. O comando da caixa de velocidades está na posição "A", de automático, não há sistemas electrónicos a limitar ou condicionar o andamento, então por que é que... E lá está outra vez! Um solavanco em aceleração. Não fosse estarmos em 2010 e quase poderíamos pensar que é a caixa a passar as velocidades...
E é mesmo. Com a prática, aprendemos a "domesticar" o problema e começamos a levantar ligeiramente o pé assim que percebemos que a rotação permite mudar a velocidade engrenada pela caixa. Mas não há solução para o problema de fundo: a caixa automática do Citroën C4 1.6 eHDi fica muito aquém dos parâmetros de qualidade a que já nos fomos habituando nos últimos anos. É lenta e faz-se sentir de forma sacudida sempre que entra uma nova mudança.
O problema é particularmente irritante (e desconfortável) entre a primeira e a segunda, mas não desaparece daí para cima, em especial se a pressão sobre o pedal do acelerador for mais intensa. Arrancar para uma ultrapassagem em quarta e de repente ficar "parado no ar" enquanto a caixa engrena uma quinta velocidade ultrapassa mesmo as fronteiras do incómodo: torna-se perigoso.
Apesar de tudo, as reduções entram melhor e nem sempre são mais ostensivas do que as produzidas por uma condução com caixa manual. Em aceleração é que não há maneira de dourar a pílula: esta caixa (de funcionamento semelhante às manuais, com sistemas hidráulicos) até pode sair barata (e o preço final do carro aí está para o provar), mas já não está a viver no seu tempo...
Optando pelo modo manual sequencial, percebe-se como nem tudo são pecados: as relações estão bem conseguidas, ajudando o generoso motor a mostrar-se bastante aguerrido em qualquer regime (algumas recuperações a alta rotação são mesmo muito interessantes), e há mesmo uma certa suavidade de funcionamento. Ou seja: para quem não esteja para andar aos safanões, a opção é meter as mudanças à mão, um cenário pouco interessante - presume-se - para quem escolheu um carro com caixa automática... Mais: como só se pode fazer passagens de caixa usando as patilhas na coluna da direcção, está fora de questão meter mudanças em estradas sinuosas, porque os comandos estão constantemente a fugir-nos dos dedos.
Longa vai a prosa e ainda não se disse o resto: que o carro é seguro, confortável, relativamente espaçoso e bonito. Que o resto da mecânica se mostra bastante bem conseguida, destacando-se o motor e uma direcção particularmente incisiva. Que, apesar de alguns materiais menos interessantes, há qualidade e bom gosto nos interiores. Que o comportamento em curva nos recorda o facto de o antecessor deste modelo reinar no Mundial de Ralis (neste caso, uma suspensão bastante dura consegue a proeza de não se mostrar penalizadora para os passageiros). E que, finalmente, a opção ecológica permite fazer boas economias.
Pneus especiais de baixo atrito e um sistema "Start/Stop" que desliga o motor quando o carro pára são a face mais visível das preocupações com a economia de consumos. Ao contrário do que acontece com outros modelos equipados com semelhante dispositivo, neste carro o arranque do motor dá-se assim que o condutor deixa de pisar o travão - tirar o pé direito dos pedais, mesmo se estamos num sítio plano, não é, portanto, uma opção. No pára-arranca, pode tornar-se mesmo mais prático desligar o sistema, o que se faz pressionando um botão à esquerda do volante.
Há muitos botões, nem todos particularmente óbvios, alguns surpreendentes (como os que permitem mudar a cor da iluminação nos mostradores do velocímetro e conta-rotações). O som do "pisca" faz lembrar uma batida rock (sim, bate em três tempos!). Não se vê nada para trás, mas há sensores de estacionamento. Temos um belo espaço para arrumos na consola central, coberto por uma tampa de correr. Dispomos de sistema de alerta de veículos em ângulo morto e um botão permite emitir um aviso de emergência e localização do carro em caso de acidente.
Tem tanta coisa este C4... Apetece dizer que pode ser uma caixinha de surpresas. Mas, com aquela caixa de velocidades, o trocadilho teria sempre um travo infeliz.