Se a vida fosse só isto, não podíamos pedir mais nada. Mas isto pode enjoar. Literalmente, uma vez que estamos a conduzir numa estrada sinuosa. Este é o território do Renault Twingo Gordini, um pequeno diabinho com 133cv de potência e argumentos mecânicos a condizer. Basta apontá-lo às curvas e lá vai ele, como um pequeno predador, veloz e elegante, a cumprir as trajectórias. Salvo uma ou outra reacção mais súbita, a exigir atenção e habituação, isto é puro gozo.
Fosse, de facto, a vida apenas isto de nos divertirmos numa estrada secundária com muitas curvas e nenhum trânsito e estaria tudo bem. Porque este mini-desportivo que carrega o nome do lendário preparador francês dos anos 60 e 70 do século passado é, de facto, muito divertido. Mas também extremamente cansativo.
Mesmo com a plataforma do Clio, adoptada na sua última geração (e vem aí uma renovação em breve), o Twingo é um dos carros menos plausíveis de se transformar num desportivo. Que a Renault o tenha feito (juntamente com uma versão gémea do Clio) mostra imaginação e capacidade para enfrentar o risco. E que o tenha feito bem confirma a qualidade do trabalho da divisão Sport da marca francesa. Mas fazer bem uma coisa não significa que se alcancem milagres.
Ou seja, para o Twingo se transformar numa "fera" foi preciso atirar os compromissos para trás das costas. E é por isso que esta versão musculada do pequeno citadino se transforma numa má companhia assim que deixamos de fazer o que ele quer e passamos a fazer o que nós precisamos. Desconfortável e ruidoso, parece até contrariado por ter de andar no dia-a-dia. Também nós, mas é a vida...
O Twingo Gordini é, praticamente, uma tábua com rodas. A suspensão é duríssima e hipersensível à mínima irregularidade do piso, para mais quando os pneus são de baixíssimo perfil (o ruído de rolamento é elevado) e o entusiasmo do motor nos leva, constantemente, a andar mais depressa do que queríamos. Parece uma receita para o desastre, mas não é.
Expliquemo-nos: as oscilações do habitáculo são apenas verticais. Podemos andar a bater com a cabeça no tejadilho por tudo e por nada, mas nunca nos desviamos da trajectória. Isto é particularmente notável dado tratar-se de um carro bastante leve e com uma distância entre eixos a condizer com as suas reduzidas dimensões. E se os travões podiam ser mais progressivos (entram muito rapidamente em acção, mas é preciso um esforço extra para, efectivamente, deter o carro), a verdade é que a proliferação de ajudas electrónicas garante um nível de segurança muito assinalável. Dispensável era o histérico aviso sonoro sempre que o controlo de estabilidade entra em acção. E é tão fácil...
Aliás, já que falamos de ruído, aí é que não há nada a fazer. A insonorização é bastante má e não vale a pena tentar compensar com o aumento do nível sonoro do rádio, porque este também deixa algo a desejar e rapidamente o som perde qualidade. Andar devagar também não é opção, não só porque o motor dispara ao mínimo toque no acelerador - até nos habituarmos, é bastante comum darmos uns valentes sacões nas mudanças mais baixas - como o nível de ruído não baixa assim tanto a baixa rotação.
Reconheça-se que, de resto, a vida a bordo tem as suas alegrias. Os bancos são bons, o volante excelente (e a direcção, conforme se pode perceber pelo atrás descrito, só merece elogios), o banco traseiro deslizante garante uma habitabilidade pouco comum neste tipo de carros (prejudicando a bagageira, claro, mas permite que se faça essa opção), há um verdadeiro pneu suplente lá atrás e alguns dos materiais interiores são bastante bons (embora outros destoem).
Por fora, as linhas são agressivas e elegantes, com pormenores racing e as duas listas a toda a extensão do carro vincam ainda mais o carácter desportivo desta versão. Não há por aí muitos rivais. E se pensarmos que um Mini Cooper 122cv custa pelo menos mais dois mil euros do que este Twingo atrevidote e bem equipado, não restam dúvidas de que o carrinho da Renault poderá ter o seu nicho de mercado entre a malta mais nova. Ficam, para já, prometidas emoções fortes. Depois, todos crescemos. E aí começa a saber bem não andar todo o dia metido dentro de um shaker que, ainda por cima, ameaça com ruídos parasitas.
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Como (só) fazer uma coisa (muito) bem