Fugas - motores

  • Rui Soares
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Promessas por cumprir

Por Luís Francisco

Há para aí tanto carro a vender o que não é que já não devíamos estranhar. Mas o Hyundai Veloster leva este conceito tão longe que nos deixa descoroçoados, desamparados, a precisar de refazer conceitos. O carro não é nada mau. Mas também não é nada do que promete.

Um apendicezito aerodinâmico aqui, um arabesco estilístico ali, uma jante a puxar ao modernaço, umas ponteiras de escape com pinta. A lista podia continuar, mas não é preciso muito mais para dar a um carro um aspecto racing - como bem sabe qualquer adepto do tunning e os responsáveis das marcas que piscam um olho ao público mais jovem.

Não é, portanto, novidade que se encontrem alguns destes detalhes em carros que, após um contacto mais prolongado, revelam tudo menos um temperamento desportivo. Novidade é aparecer um carro em que tudo (ou quase tudo...) no exterior passa uma mensagem ilusória.

E esse carro está aí. O Hyundai Veloster apresenta-se aos nossos olhos com um visual desportivo e dinâmico - uma regra a que só escapa, em termos de visual exterior, a já famosa terceira porta lateral, do lado contrário ao condutor. Permite um acesso razoável à segunda fila de bancos e só isso mostra como este detalhe muito pouco visto (será mesmo inédito nesta configuração, porque o sistema parecido do Mini Clubman funciona com uma porta que abre ao contrário) não é, na verdade, um pormenor.

Olha-se para o carro e vê-se um desportivo. Com um bocadinho de imaginação até se vai mais além, imaginando um bólide de temperamento explosivo. Lá dentro, pedais em metal, volante com pinta, posto de condução rodeado de instrumentação, botão de ignição em posição central no tablier. E, no entanto... A aceleração dos 0 aos 100 km/h faz-se em apenas 9,7s, a resposta do motor é sempre muito gradual, sem picos de adrenalina (o binário é bastante fraco e só se atinge a uma rotação elevada). Isto é tudo menos um desportivo. Nem sequer é um coupé despachado. Então o que é?

Resposta possível: é um carro para senhoras, jovens mães, mulheres independentes. Pode ser, tem ajudas electrónicas, condução suave, muitos espaços para arrumos. Mas não, este visual agressivo não cola com o espírito feminino. Outra resposta: trata-se, na verdade, de um familiar diferente. Sim, embora só tenha quatro lugares, são bem conseguidos e espaçosos (excepção feita à altura atrás). Os consumos não assustam, a capacidade de manobra é boa, a visibilidade surpreendente. Mas não é assim tão confortável, a bagageira não é muito prática, só tem uma porta de acesso aos lugares traseiros.

Bom, não é um carro para senhoras nem para a família. Também não pode aspirar a ser um desportivo e na lista de coupés para dar umas aceleradelas também andará longe do pódio. Então o que é? A única solução possível é procurar um conceito fora das prateleiras em que estamos habituados a catalogar os automóveis. O Veloster assume esse direito à diferença desde logo pela inovação da terceira porta lateral. A mensagem fica clara: "Não me classifiquem, eu fujo a essas convenções."

E faz muito bem. À partida, tudo a favor. O problema é que não basta iludir as categorias pré-existentes; é preciso mostrar argumentos. E o bonito carro da Hyundai baqueia em alguns aspectos básicos. O primeiro, e porque a concorrência está cada vez mais competente, é a falta de um verdadeiro comportamento desportivo sem que isso seja compensado por elevados padrões de conforto. Numa altura em que tantos carros conciliam de forma brilhante este equilíbrio, a suspensão do Veloster (muito sensível aos maus pisos) fica uns bons furos abaixo. Outro ponto é o desempenho do motor: um 1.6 sem turbo nunca será explosivo, mas este é realmente muito "mole", obrigando a radicais manobras de caixa para conseguir alguma reacção mais nervosa.

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