Não é exagero. Da primeira vez que carregamos no botão da ignição do Mercedes SLS AMG Roadser convém já ir com uma ideia do que nos espera. É isso, ou dar um salto no assento. O súbito troar do gigantesco motor V8 de 6200cc invade o habitáculo e faz-nos estremecer. Há um monstro debaixo do capot e tudo aquilo em que pomos as mãos e os pés recorda-nos desse facto.
Estamos praticamente sentados no fundo do carro, com pedais desportivos, volante desportivo, travões de elite, mecânica do outro mundo... Este é "o" supercarro da Mercedes. Enquanto seleccionamos o modo Drive na caixa automática e olhamos receosos para a humidade que ainda cobre o asfalto, há vários números que não nos saem da cabeça: 571cv de potência, aceleração dos 0 aos 100 km/h em 3,8s... E, no entanto, o carro desliza com suavidade assim que pisamos o pedal do acelerador.
Parece disparatado, pegar num desportivo deste calibre e começar por lhe elogiar a capacidade para assumir andamentos civilizados, mas é exactamente essa a primeira impressão que fica. E essa facilidade de utilização, proporcionada por um pedal do acelerador com um curso relativamente longo, permite ganhar confiança para depois espreitar as potencialidades diabólicas do modelo. E elas, claro, não tardam a fazer-se notar. Sim, é possível respeitar o limite de 50 km/h dentro das localidades - e até em sétima velocidade... - mas isso implica respirar fundo 240 vezes e proceder a aplicados exercícios de relaxamento muscular enquanto meditamos na efemeridade da vida.
Se nem notamos os 50 km/h, os 100 km/h haveriam de passar por nós com igual discrição não fosse o facto de irmos sentados atrás de um monstro ululante. Diz-se de alguns carros que não damos pelo facto de irmos depressa. No SLS seria assim, mas não é, por causa do barulho. A caixa está bem escalonada (e, com esta potência disponível, mesmo que não estivesse seria igual), a direcção é uma maravilha, os travões impressionantes (basta olhar para eles de fora... e a viatura de teste vinha equipada com um sistema em cerâmica, uma opção que "vale"... 10.000€). Sim, os números são impressionantes, a começar pelo preço. Apesar de custar, sensivelmente, metade do que era pedido pelo anterior supercarro da marca, o SLR McLaren, é aterrador pensar que estamos sentados em cima de quase 300.000€ de tecnologia.
Por esse preço temos muita coisa, mas há duas que ficam, miseravelmente, fora do nosso alcance. A primeira é o conforto. Em termos de acústica, o ronco do motor acaba por cansar. E depois temos a sensação de estar a viajar em cima de uma tábua com rodas. Suspensão desportiva é suspensão desportiva e não há milagres. Mas este carro é de tal maneira avesso a mau piso que temos mesmo de ter cuidado com as irregularidades, sob pena de o chassis bater no pavimento. Mesmo em andamentos moderados, os ocupantes são sacudidos lá dentro de forma que há-de ser caricata vista de fora. Felizmente estamos lá dentro...
Apertados, já agora. O habitáculo é aquele pedacinho de carro que sobra entre o compartimento do motor e o espaço para recolher a capota (mais uma pequena bagageira). Com a capota em baixo, nem se dá por isso, mas em versão fechada (e com tanto barulho e falta de visibilidade) vive-se com alguma claustrofobia. É dos poucos pontos negativos a anotar, mas, já que estamos para aí virados, registe-se a perplexidade de encontrar um cinto de segurança meio retorcido pendendo frouxamente da lateral do assento ou portas com alguma relutância em fechar-se à primeira. Em espaços apertados, e porque a sua dimensão impede que se abram num ângulo confortável, é também difícil entrar e sair do carro. E chega de dizer mal.