Ou ainda não. Porque a segunda coisa que o dinheiro não nos compra é sossego. Ter dois adolescentes a fotografar-nos o carro à porta de casa já depois da 1h00 da manhã; ver um carro da polícia parar na nossa rua e fazer marcha-atrás para que os agentes apreciem o modelo (ou verifiquem a base de dados de carros roubados, sabe-se lá...); parar num semáforo e ouvir um cavalheiro bem posto num SUV atirar: "Todo o dinheirinho que deste por ele foi muito bem dado!"; cruzar a estrada em frente a uma paragem de autocarro numa tarde de chuva e com muito trânsito e ouvir um apelo lancinante: "Estica! Estica!"... Foram só três dias. Três dias dentro de um aquário para onde toda a gente quer espreitar, nem que isso, visivelmente, nos impeça de sair do carro. Não há sossego.
A não ser que - lá está - se procurem os espaços abertos. E aí, capota em baixo e climatização à medida, nem o Inverno assusta. Ou, na auto-estrada, carregar um bocadinho mais no acelerador. Impressionante.
BARÓMETRO:
+ Visual, mecânica, prestações, solidez, equipamento, capota eléctrica, capacidade para assumir andamentos "civilizados"
- Conforto, espaço interior, visibilidade com a capota levantada, manobrabilidade limitada, "horror" aos pisos degradados, preço
Impagável
Só está disponível em opção e custa 670€, mas, na verdade, não tem preço. Desfilar por uma estrada litoral ao princípio da noite de capota em baixo, enquanto nas bermas as pessoas se agarram a casacos e cachecóis, é uma daquelas experiências que deviam ser vividas por todos pelo menos uma vez na vida. Graças às saídas de ar quente colocadas na zona da nuca, o frio fica lá fora (mesmo a velocidades de cruzeiro elevadas) e podemos desfrutar toda a gloriosa qualidade de vida proporcionada por um descapotável. Até em Dezembro. Desde que não chova, claro.
Monstro
Para fazer justiça ao modelo, há que chamar as coisas pelos nomes: o SLS Roadster é um motor com dois assentos acoplados. Exagero? Não. Quase metade dos mais de 4,5 metros de comprimento do carro é ocupada pelo volume dianteiro, onde se aloja o gigantesco propulsor de 6200cc e oito cilindros em V. É uma visão impressionante, que encerra, no entanto, um problema para quem não está habituado: aplicando aqui as proporções normais, é como se o condutor estivesse sentado no banco de trás... A frente é enorme. E, como a manobrabilidade deixa a desejar, há que ter muito cuidado a estacionar.
Apertado
Com um interior reduzido e um painel bastante esguio, foi necessário "carregar" a consola central de comandos. Reforça-se a sensação de cockpit, mas também fica a certeza de que um toque inadvertido pode criar confusão - em andamento, com a proximidade dos comandos, isso não é um cenário hipotético. Destaque-se, no entanto, a extrema qualidade dos materiais e a forma intuitiva como podem ser manejados. A excepção é mesmo a falta de bastão à direita do volante, o que atira tudo para o outro lado. Até nos habituarmos, estamos constantemente a fazer pisca na alavanca do controlo de velocidade... Faltam espaços para arrumos e até os bolsos nas portas são de couro flexível, sob pena de não conseguirmos lá meter as mãos.