Numa altura em que se discute a sobrevivência do modelo social europeu e a crescente supremacia de potências como a China, um carro como o Range Rover Evoque dá algum conforto e esperança. A segurança de saber que só os europeus conhecem, como ninguém mais, o segredo de criar obras sobre quatro rodas desejadas em qualquer canto do mundo. Mesmo que boa parte dos proventos do golpe de génio que originou este veículo vão para a Índia, sede do grupo Tata, detentor das britânicas Land Rover e Jaguar.
Nestas questões, o critério é o gosto de cada um, mas pouco mais há a dizer sobre a estética deste Evoque, para além do facto de a mesma quase banalizar os modelos rivais das marcas de prestígio alemãs, habitualmente tão bajuladas pelos portugueses. Ou seja, mesmo antes de entrarmos neste carro, o mais pequeno dos Range Rover já destilou boa parte do seu (elevado) poder de sedução.
No interior, encontram-se materiais e um nível de montagem dignos da marca, se bem que não tão impressionantes quanto os de um Range Rover ou de um Range Rover Sport. O botão na consola central, tipo "máquina de lavar", emerge quando se liga o motor e permite comandar a caixa de velocidades - mais conhecido dos modelos Jaguar -, é outro contributo para uma atmosfera geral de classe superior.
Como se não bastasse tudo isto, o Evoque é um daqueles veículos que se conduzem só por prazer. O conjunto motor/caixa de velocidades automática tornam-no despachado. Curva com competência em estradas sinuosas e mantém-se igualmente estável a alta velocidade em auto-estrada. Acresce que possui uma suspensão cómoda.
É preciso afinar os sentidos para lhe encontrar defeitos. Que também os há. Em estrada aberta notam-se alguns ruídos aerodinâmicos, apesar de não chegarem a incomodar, e o Evoque é tão "orelhudo" que, em curvas à esquerda ou mudanças de direcção neste sentido, a visibilidade do condutor fica prejudicada. Já a habitabilidade e a bagageira revelaram-se muito melhores do que seria de esperar num veículo com formato coupé e cujas dimensões esteriores são, na realidade, menores do que aparenta. No entanto, o acesso aos lugares traseiros requer agilidade e os passageiros que aí se sentarem podem reclamar devido a alguma claustrofobia provocada pela reduzida altura dos vidros laterais.
Mesmo sendo o mais pequeno da gama, este Range Rover apresenta alguns tiques de estrela. Além de se fazer pagar bem caro na aquisição, dispensa sistemas que visam poupar combustível, como o que desliga o motor quando o veículo está parado (esse lado politicamente correcto pode encontrar-se nas versões com apenas duas rodas motrizes). O resultado são consumos médios que facilmente andam pela casa dos 11 litros de gasóleo, até porque o tal apelo a uma condução hedonista leva a carregar mais no acelerador do que seria recomendável. Ainda no que à carteira diz respeito, convém também recordar que os Land Rover e Range Rover são conhecidos por necessitarem de mimos caros, leia-se de uma manutenção dispendiosa.
A maior parte dos clientes do Range Rover Evoque por certo viajará para locais chiques, mas não ousará colocá-los num chiqueiro de lama (bastante escassa por estes dias, como se sabe). Só não sabem o que perdem. Não é uma surpresa total para quem conhece as capacidades dos Land Rover /Range Rover quando saem fora das estradas asfaltadas, mas, ainda assim, não deixa de impressionar a forma como um veículo com uma imagem tão cuidada vence obstáculos com uma facilidade desconcertante. Mais um dom para quem já nasceu dotado de tantos.