Fugas - motores

Daniel Rocha

Um carro bem mais universal

Por Luís Francisco

Depois de alguns anos a construir uma imagem assumidamente desportiva, a BMW inflectiu a estratégia. Não é um recuo, é um novo passo. Agora, os carros do construtor alemão querem ser mais universais e o novo 320d mostra como é possível agradar a mais gente sem abdicar dos princípios da marca.
É preciso assumi-lo logo de início: torna-se ainda mais difícil encontrar pontos fracos nos BMW série 3 desde que foi lançada a nova geração deste modelo de sucesso. Muitos dos problemas mais evidentes foram limados e as opções do construtor alemão parecem agora apontar para uma relativização da aura puramente desportiva que soube construir nas últimas décadas. Com essa guerra ganha, o esforço parece ser agora no sentido de cativar todos aqueles que se sentiam algo intimidados com os humores dos BMW. Para já, missão cumprida.

Mas quererá isto dizer que todos ficarão felizes, ou completamente felizes, com esta transformação? Não. Fica um ligeiro travo a desilusão quando percebemos que a direcção é agora menos comunicativa; que a suspensão conseguiu melhorias ao nível do conforto sacrificando algumas das boas sensações que proporcionava em curva; que os travões não são particularmente assertivos. Dito assim, sobra a conclusão: os carros da BMW estão a ficar iguais aos outros?

Bom, apetece dizer que sim. Mas quando um construtor usa as armas electrónicas que tem ao seu dispor, então não há respostas simples. Sim, o 320d é agora mais uma berlina familiar do que um proto-desportivo, assim uma espécie de antecâmara do reino da adrenalina. Só que isso é quando o modo de condução é o que se activa por defeito ao carregarmos no botão da ignição. Estamos em Comfort e ainda podemos ser mais racionais e optar pelo Eco Pro, que privilegia a economia e a ecologia - e este é um motor com notável desempenho neste campo.

Mas, em sentido inverso, existe a opção Sport (em opção podemos ter ainda Sport +, um figurino que desliga as ajudas electrónicas e não se recomenda a quem não tenha mãozinhas ou enfrente condições adversas). Accionando uma destas configurações, regressa toda a magia BMW: um motor generoso, uma suspensão que não dá tréguas, uma direcção que permite sentir melhor o que se passa na estrada. E, essencialmente, relações mais curtas e maior velocidade de passagens na que será, muito provavelmente, a melhor caixa automática que por aí anda... Com oito velocidades, pode ainda ser accionada em modo sequencial na alavanca ou através de patilhas no volante.

Se a estética exterior se altera sensivelmente (uma frente mais arredondada reforça a filosofia de "não-violência"), é no interior que se notam as maiores diferenças. O carro é nove centímetros mais comprido do que o seu antecessor e também um centímetro mais alto. A distância entre eixos cresceu cinco centímetros e isso reflecte-se nas cotas de habitabilidade oferecidas aos passageiros da segunda fila, que ganham espaço para os joelhos. Mas, mantendo a largura do habitáculo e insistindo na clara definição dos lugares laterais, a BMW não consegue oferecer um quinto assento de qualidade.

A sensação geral de franco agrado é quebrada quando se notam alguns pequenos problemas. Antes de mais, a insistência pela não regulação em altura dos cintos de segurança - apesar das amplas possibilidades de acerto do banco do condutor e da coluna de direcção, pode ser difícil em alguns casos garantir a correcta colocação do cinto. Só que isto não é nada comparado com outro pecadilho, este sim muito aborrecido. Por alguma razão que a razão desconhecerá, as portas teimam em ficar mal fechadas se não forem batidas com alguma energia...

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