Fugas - dicas dos leitores

No marco imaginário do Equador

No marco imaginário do Equador

São Tomé e Príncipe, país de contrastes

Por Helder Taveira

Na Páscoa passada estive em São Tomé e Príncipe. Fiquei maravilhado com a beleza da ilha mas ainda mais com as pessoas. Simpáticas, atenciosas e educadas.

Começámos por passar uns dias no ilhéu das Rolas, um pequeno paraíso com praias de areias brancas e com uma vegetação luxuriante. Logo no cais da Ponta da Baleia, enquanto esperávamos o barco que nos levaria ao Ilhéu, fomos abordados por crianças com as roupas rasgadas e sujas, parecendo que saíram do livro Oliver Twist, de Charles Dickens, e que pediam incessantemente “Doce, doce…”, na ânsia de receberem um rebuçado ou, na melhor das hipóteses, uma caneta.

No ilhéu, as crianças oferecem-se para nos guiarem ao marco da linha imaginária do Equador e de seguida à descoberta de praias desertas de areia branca e com águas tépidas. A caminhada pela floresta cheia de coqueiros é agradável. Os moços que nos acompanham sobem num ápice aos coqueiros e em poucos segundos a areia fica coberta de cocos que de imediato são abertos a cortes de catana habilmente manobrada pelos jovens.

Enquanto os turistas ficam alojados em confortáveis bungalows, os habitantes do ilhéu vivem em condições muito precárias, em casas de madeira apoiadas em estacas despojadas de tudo e sem o mínimo conforto – o céu e o inferno nunca estiveram tão próximos. Contudo, a natureza foi generosa para tão boa gente pois há muitas bananas, mangas, jaca, papaia e fruta-pão prontos a colher. É verdade que aí as crianças não tem videojogos e não exibem o telemóvel da última geração – exibem, isso sim, com orgulho, o pião que eles próprios fizeram.

De repente, revi-me na minha infância ao ver as crianças a jogar ao pião e a jogar à bola, a conduzir pequenos carros em madeira por eles construídos. Foi com prazer que lhes deixei uma bola.

De regresso à cidade de São Tomé, e no caminho para o hotel, víamos as ribeiras cheias de mulheres a lavar a roupa, os porcos passeando-se calmante pelas ruas, chafurdando na terra. Nas roças, agora quase todas abandonadas e cada vez mais degradas, já não há escravos dos homens mas há muitos escravos da pobreza. Na Agostinho Neto (antigamente Roça do Rio do Ouro), o senhor José, antigo trabalhador, com grande saudosismo, mostrou-nos o que foi esta roça. Estava emocionado quando evocava tempos passados, tempos de trabalho mas também tempos de fartura. José é o último elo que ainda transmite a ideia daquilo que foi a roça. Com o seu desaparecimento, desaparecerá para sempre a memória de um passado que, sem ser exemplar, certamente foi melhor que a situação actual …

Por ali pululam crianças vestidas com roupas alguns números acima do seu tamanho, a recordar que quem as ofereceu era bem mais encorpado. Não aparentam estar desnutridas e, apesar da pobreza, sente-se nos seus olhos a felicidade.

Ao final da tarde, quando passeávamos pela marginal, vimos uma criança sentada num banco a olhar o mar. Era o Jerson, 12 anos. Simpático e falador, mostrou-me duas moedas de 500 dobras (cerca de 20 cêntimos). Como eram as primeiras que eu via, e vendo ele o meu interesse nas moedas, ofereceu-mas. Prometi-lhe uma bola. No dia seguinte, chegamos ao hotel já anoitecia e lá estava o Jerson à espera da bola. Ficou radiante.

Incongruências do destino, no país que produz cacau para fazer o melhor chocolate por esse mundo fora, as crianças brincam no meio dos sacos cheio de fava de cacau e, ironia das ironias, na sua simplicidade pedem a todos os que por lá passam um doce, um chocolate – não sabem nem sonham que os melhores chocolates são feitoscom o cacau que bem conhecem e que apenas usam para as suas brincadeiras.

Não queria terminar sem deixar aqui uma nota ao fabuloso almoço de Páscoa servido na Roça dos Angolares e preparado pelo chef João Carlos Silva. Uma autêntica desconstrução de sabores dos trópicos.

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