Numa fachada do Terreiro do Paço, em Lisboa, surge um coelho com corpo humano que, em vez de sair das cartolas como é habitual, faz números de magia. Também há homens-rã acrobatas, trapezistas inspirados em ágeis gatos e um homem-corvo, o anfitrião deste espectáculo multimédia assinado pelo atelier O Cubo.
Nos ecrãs estão os cenários, as personagens, as vozes e as músicas do Circo de Luz, que monta a "tenda" nos cerca de cem metros da fachada norte do Terreiro do Paço, entre sábado, 14 de Dezembro, e o dia de Natal. Por trás da ideia, que demorou apenas um mês a transformar-se em realidade virtual, estão Carole Purnelle e Nuno Maya, que por estes dias se desdobram em tarefas, como contar quantos saltos dá uma trapezista.
O convite partiu da Câmara de Lisboa, que encomendou um espectáculo parecido, em termos técnicos, ao realizado no Verão naquele mesmo local, aquando da inauguração do Arco da Rua Augusta.
A abordagem escolhida pelos dois artistas multimédia foi "mais livre do que aquele Natal da árvore ou das estrelinhas", conta Nuno Maya à Lusa. A tradição dos circos no Natal serviu de inspiração para um "circo totalmente fantástico, com personagens imaginárias".
"Atenção, atenção, está a chegar o circo bestial, genial, mais luminoso deste Natal", anuncia o homem-corvo, que tem a voz do locutor e comediante Nuno Markl. As personagens "são todas humanos que são caracterizados com cabeças de animais, numa brincadeira", explicou um dos criadores. O objectivo foi "criar um circo muito rico visualmente" e "fugir a uma pura decoração de Natal, o que não era suficientemente forte para que o público vá e sinta uma emoção para aquilo que vai ver no espectáculo".
Este circo nasceu em desenhos em papel, no chamado story-board, que é a base das animações em duas e três dimensões. Também há o guião que Nuno Markl leu na terça-feira para que o homem-corvo, "super-enérgico e que defende o seu circo ao máximo", tivesse voz.
Fado encerra o espectáculo
Além dos números de circo, há uma história, que se desenrola antes e depois do espectáculo. "A ideia de que é Inverno, ainda não é bem o Natal, e as pessoas podem estar um bocadinho tristes porque está frio e vento, mas de repente este circo vem do universo de carroça", desvenda Nuno Maya. Depois dos números circenses, as pessoas voltam a ter "alegria e esperança e sentimentos positivos" e a cidade de Lisboa passa a estar decorada para a época.
Uma música original dos Deolinda encerra o espetáculo de 20 minutos. A escolha deste grupo de "fado muito contemporâneo" explica-se por se estar em Lisboa e esta ser uma cidade de fados.
A população e os turistas da cidade também entram no espectáculo: na Rua Augusta foi montada uma espécie de estúdio fotográfico, onde as pessoas simulavam as emoções vividas no circo. O espanto, as palmas ou as gargalhadas foram assim integradas nas animações.
Os prazos apertados fizeram aumentar o número de animadores para 20. Mas nas contas ainda entram mais dez pessoas para a produção interna e muitas outras para garantirem que a "tenda" chega a tempo ao Terreiro do Paço. No total estão envolvidas mais de 60 pessoas.