A catedral gótica de Santa Maria, um rico património religioso acumulado ao longo de séculos e as margens verdejantes do rio Arlanzón fazem de Burgos um destino que há muito merecia uma visita. Mas agora, com a inauguração do Museu da Evolução Natural e com a exposição no centro da cidade de alguns dos mais relevantes achados das escavações arqueológicas da Serra de Atapuerca, conhecer esta localidade da região de Castela e Leão tornou-se praticamente obrigatório.
Situada no coração do chamado Caminho Francês para Santiago de Compostela, e portanto ponto de passagem de um sem número de peregrinos, a cidade de Burgos foi povoada no século IX e tem hoje perto de 200 mil habitantes. Do castelo, do qual pouco restou depois das invasões napoleónicas, avista-se um aglomerado compacto, rasgado por uma linha de água e limitado por campos agrícolas.
Entre muitos edifícios cor de tijolo, monumentos religiosos e a imponente catedral gótica que desde 1984 integra a lista do Património da Humanidade da UNESCO, destaca-se um conjunto de três edifícios de linhas modernas projectados pelo espanhol Juan Navarro Baldeweg. O do centro é o recém-inaugurado Museu da Evolução Humana, que se ergue lado a lado com um centro nacional de investigação científica em funcionamento há um ano e com um auditório que deverá abrir as porta dentro de meses.
Um prisma de luz onde cabe Atapuerca
O museu, cujas paredes e tecto de vidro lhe garantem uma luminosidade ímpar, desenvolve-se em quatro pisos e convida a visitas com itinerários feitos à medida de cada um, quer sejam curiosos, cientistas ou crianças em idade escolar. Este não é definitivamente um equipamento cultural convencional, dividido em salas estanques e onde os visitantes são conduzidos ao longo de um roteiro previamente estabelecido.
Neste prisma de luz com 60 metros de frente, 30 de altura e 90 de profundidade, os vestígios arqueológicos descobertos nas escavações a uma vintena de quilómetros de Burgos são a jóia da coroa mas a exposição está muito longe de se esgotar aí. Ou, como se diz num dos textos de promoção do espaço, este é "um museu para Atapuerca mas não o museu de Atapuerca". Por este equipamento, inaugurado com pompa e circunstância pela rainha de Espanha numa manhã particularmente quente do mês de Julho, a adjunta da direcção Quionia Herrero estima que passarão cerca de 300 mil visitantes por ano. A todos um serviço em autocarro oferece a possibilidade de ficarem também a conhecer a Serra de Atapuerca e o Parque Arqueológico, que faz as delícias de miúdos e graúdos.
Mas regressando ao museu, que se ergue numa das aprazíveis margens do rio Arlanzón, a especificidade deste equipamento cultural torna-se evidente assim que se atravessa a porta de entrada: quatro prismas paralelos, separados por profundos cortes verticais, recriam os diferentes ecossistemas de Atapuerca, evocando as suas paisagens no tempo em que lá viveram os nossos antepassados Homo Neanderthalensis, Homo Heidelbergensis e Homo Antecessor.
No piso inferior estão expostos cerca de 200 fósseis originais, humanos e de diversas espécies animais, descobertos desde a década de 70 do século XX num trabalho iniciado pelo paleontólogo Emiliano Aguirre. Entre os mais emblemáticos estão o "crânio número cinco" ou Miguelón, pertencente a um hominídeo que viveu há 500 mil anos e que é considerado um dos mais completos e mais bem conservados fósseis a nível mundial. Há também um maxilar encontrado numa área conhecida como Gran Dolina e que permitiu aos investigadores descobrir uma nova espécie com mais de 800 mil anos, o Homo Antecessor. Em exposição está igualmente a pélvis Elvis, encontrada na zona da Sima de los Huesos, que pertenceu a um hominídeo com meio milhão de anos e constitui o mais completo registo fóssil mundial do Homo Heidelbergensis.
Esculturas evocam hominídeos mais emblemáticos
Voltando a subir ao piso térreo, alcança-se uma área consagrada à evolução biológica, onde não falta uma recriação do Beagle, o barco em que Charles Darwin realizou, em meados do século XIX, as suas expedições científicas à volta do mundo. Para ver há também um cérebro de grandes dimensões e um casting, como lhe chama a direcção do museu, "dos hominídeos mais representativos, os personagens protagonistas da evolução".
A recriação desses personagens, da autoria da francesa Elizabeth Daynes, não pode deixar de impressionar os visitantes pelo seu realismo. Expostas em cilindros de vidro, as esculturas são feitas de silicone, cabelos naturais e próteses oculares e resultam, como conta a sua autora, de um trabalho de mais de um ano e meio feito a partir dos fósseis existentes e de uma apurada discussão com antropólogos e outros cientistas.
No primeiro piso explica-se a evolução cultural, com destaque para as manifestações que identificam os grupos humanos e os distinguem de outras espécies, por exemplo ao nível da habitação, tecnologia, alimentação, mobilidade e arte. O domínio do fogo está também em destaque, num espaço circular onde o visitante é colocado no centro de uma projecção com som e imagem, onde só falta mesmo sentir o calor das chamas que o rodeiam.
No derradeiro andar existe, além de um café, uma livraria e um auditório, uma área ampla que no futuro deverá servir de palco a exposições temporárias, actividades didácticas e cerimónias oficiais. Daqui avistam-se mais uma vez os tais prismas imponentes que recriam a passagem do tempo pela Serra de Atapuerca, demonstrando que este foi, tal como admitiu o arquitecto Juan Navarro Baldeweg, um edifício projectado "tendo presentes as relações entre arquitectura e natureza".
"No interior o visitante encontra-se com a natureza, recebe a luz, tem a vegetação. É como entrar numa paisagem e essa é a ideia fundamental de todo o projecto", descreveu o arquitecto numa entrevista recente. Juan Navarro Baldeweg, cuja proposta para o Museu da Evolução Humana venceu um concurso internacional em que participaram Isozaki, Nouvel, Holl e Cruz y Ortiz, destacou também a luminosidade do espaço, afirmando que as paredes do edifício "são quase cortinas de distinta transparência".
Também não foi esquecida a relação com a Catedral de Santa Maria, o mais emblemático edifício da cidade de Burgos. Diz Juan Navarro Baldeweg que houve "um esforço deliberado" para estabelecer uma dialéctica entre ela e o complexo de três edifícios do qual faz parte o museu, desde logo na medida em que o auditório ainda em construção "conduz visualmente à catedral".
O museu representa um investimento de mais de 70 milhões de euros, que foi suportado pela Junta de Castela e Leão, cujo presidente sublinha que, graças a este empreendimento, Burgos se converteu "na sede do mais completo sistema de lugares e de equipamentos do mundo sobre a evolução humana". Quanto ao projecto arquitectónico, Juan Campo classifica-o como "brilhante, inteligente e transparente", destacando a sua "integração harmoniosa com a beleza patrimonial, histórica e natural" da cidade.
O património religioso e as margens do Arlanzón
A meia-dúzia de minutos do museu, a Catedral de Santa Maria, que desde 1984 integra a lista do Património da Humanidade da UNESCO, continua sem dúvida a ser um ponto de visita obrigatório. A construção arrancou em 1221, quando o rei Fernando III e o bispo Maurício lançaram a primeira pedra, e prolongou-se pelos séculos seguintes, constituindo um reflexo de variadas correntes artísticas. Ao longo do tempo, o edifício foi ampliado, nasceram duas torres que originalmente não existiam e foram sendo acrescentadas capelas, que agora são quase 20.
Outros pontos de interesse da cidade são os múltiplos edifícios religiosos, preservados com primor, e os arcos históricos, como o de Santa María, que conduz à catedral. Para ficar a conhecer Burgos, nada como começar no topo do castelo, de onde se tem a melhor vista, e descer pelo bairro medieval que se desenvolve a partir daí. Pelo caminho merece visita a Igreja de San Nicolás, que ostenta um impressionante retábulo em pedra. Outro dos mais notáveis edifícios é a Casa del Cordón, onde Cristovão Colombo se dirigiu depois da sua segunda viagem ao novo mundo.
As margens do Arlanzón, ladeadas de amplos canais para os peões e ciclovias, convidam a um passeio ou mesmo a um piquenique no meio da vegetação. No rio é comum avistar pescadores de cana em riste a tentar apanhar trutas. E mesmo nos dias mais quentes do ano em que o sol se torna abrasador, não faltam em Burgos amplas alamedas com árvores frondosas. No final do século XIX, uma companhia inglesa criou uma linha férrea para permitir o transporte de carvão para Burgos. Esta linha, que algum tempo depois acabou por ser desactivada por não ser economicamente viável, atravessava a Serra de Atapuerca e foi graças a ela que, já na segunda metade do século XX, se descobriram no local os primeiros vestígios arqueológicos. Hoje estas escavações assumem uma importância indiscutível a nível mundial, integrando desde 2000 a lista do Património da Humanidade da UNESCO.
Do novo Museu da Evolução Humana partem autocarros em direcção à Serra de Atapuerca, permitindo aos visitantes ver in loco de onde vieram as duas centenas de fósseis que desde o passado mês de Julho abrilhantam os expositores daquele equipamento cultural. Pelas escavações passam cerca de 150 mil pessoas por ano, na maioria dos casos espanhóis, mas este número promete aumentar significativamente agora que o museu fez Atapuerca saltar para as páginas dos jornais.
Os trabalhos no terreno, em que participam cientistas espanhóis, de outros países europeus e norte-americanos, não duram mais do que um mês e meio por ano, em pleno Verão. Durante esse período avançam-se por regra cerca de cinco centímetros em cada uma das frentes de escavação. No resto do ano, o trabalho é desenvolvido no centro de investigação científica em Burgos e em universidades um pouco por todo o país, limpando, restaurando, datando e catalogando os fragmentos recuperados da terra.
"Temos uma série de janelas para o passado", explica Juan Luis Arsuaga, um dos três responsáveis por Atapuerca, numa visita guiada ao local onde é possível fazer uma verdadeira viagem ao passado: na Sima del Elefante foram descobertas ferramentas e ossos com marcas de corte com mais de um milhão de anos, que constituem os mais antigos vestígios de ocupação humana em toda a Europa; na Galería, que funcionava como uma armadilha natural na qual muitos animais caíam, há vestígios com mais de 300 mil anos; na Gran Dolina viveu há 800 mil anos o Homo Antecessor, espécie documentada pela primeira vez neste local (e na qual foram pela primeira vez detectadas marcas de canibalismo); na Sima de los Huesos acumulavam-se cadáveres humanos com 400 mil anos, levando os arqueólogos a pensar que este poderá ser o mais antigo cemitério de que há indícios.
Também a partir do Museu da Evolução Humana é possível ir de autocarro em direcção a um outro equipamento único: o Parque Arqueológico. Aqui a ideia é que os visitantes descubram a pré-história de uma forma dinâmica e participativa, vestindo a pele dos nossos antepassados. É caso para dizer que, em especial para os mais pequenos, certamente cansados de estarem fechados em salas de aula, nunca foi tão divertido aprender História.
Neste parque é possível, por exemplo, moldar uma ferramenta em pedra, pintar numa parede usando as técnicas de antigamente, simular uma caçada com instrumentos imitando os primitivos (se bem que aqui as presas são fardos de palha), além de visitar as suas habitações. No final da visita guiada a este espaço, a poucos quilómetros de Burgos, fica a sensação de que se parte mais sábio e com algumas noções básicas de sobrevivência.
Como ir
A Easyjet voa para Madrid com preços a partir de 10,49 euros (ida) e 12,99 (regresso), consoante a altura do ano e antecedência com que se reserve as viagens. De Madrid para Burgos alugar um automóvel ou viajar de autocarro (com preços a rondar os 16 euros e 2h45 de viagem) são as melhores opções.
Onde ficar
NH Palacio de la Merced
Localizado numa das aprazíveis margens do rio Arlanzón, este hotel ocupa um antigo edifício religioso do século XVI, sendo o pequeno-almoço servido junto a um claustro gótico impecavelmente preservado. Os preços para um quarto duplo neste hotel de quatro estrelas, em pleno centro de Burgos e a poucos minutos da Catedral de Santa Maria, começam em 85,6 euros.
Onde comer
A morcela de Burgos, que se encontra em praticamente todos os restaurantes, é uma das mais típicas iguarias da gastronomia desta região. Também vale a pena provar o saboroso borrego assado em forno a lenha e os pratos de caça. Para os apreciadores de vinho, a oferta é variada e de qualidade.
El 24 de la Paloma
Com uma cozinha inovadora e um ambiente intimista, este restaurante fica mesmo no centro de Burgos, a poucos metros da Plaza Mayor. Por 55,5 euros está acessível um menu de degustação, variável conforme os produtos alimentares da época, que inclui um aperitivo, várias entradas, pratos e vinhos.
www.restauranteel24delapaloma.com
Comosapiens
Fica em pleno Caminho de Santiago, não longe da Serra de Atapuerca, e tem um jardim em que apetece demorar. No interior, o espaço não é menos convidativo. O menu inclui uma oferta variada de enchidos e queijos, inventivas saladas e pratos mais tradicionais.
http://www.comosapiens.com/
A Fugas viajou a convite do Turismo Espanhol