Fugas - Viagens

Adriano Miranda

Alerta vermelho, "Hamilton turn" à espreita no Douro

Por Nuno Sousa

É destemido como Moby Dick, é versátil como o Homem-Elástico, é irrequieto como Jack-Jack. Nome de código: Haka. Missão (pouco) secreta: entertainment. Para todos. Nuno Sousa e Adriano Miranda incluídos, que estiveram no Douro a experimentar a adrenalina do jet boating

Para o bem e para o mal, uma primeira vez é sempre uma primeira vez. E da primeira vez que Luís Alvim, como que a autorizar a descolagem de um helicóptero, levantou o braço direito para desenhar círculos no ar com o indicador, franzimos o sobrolho. Fincámos os pés no chão, segurámos a barra de protecção, reprogramámos o botão de alarme. Pousada do Porto: há menos de um minuto, estávamos de costas para ela e agora já precisamos de enxugar os olhos para a reconhecer na outra margem.

Jet boating é isto. É apertar o colete de salvação e abdicar dos óculos de sol (medida de precaução para quem viaja na ponta). É passar a milímetros de uma bóia verde, em forma de garrafa de champanhe, com o cabelo desalinhado. É trocar a dignidade de uma viagem de barco por um punhado de chicotadas aquáticas. Os pontos querem-se nos ii - isto não é, nunca foi uma viagem. Experiência, desafio, mini-aventura, bem-vindos a bordo.

Somos nove e ainda sobram dois lugares no banco traseiro do Haka. À primeira vista, não daríamos muito por ele. Estrutura em alumínio, 5,60m por 2,44m, nada de especialmente imponente. What lies beneath, é isso que importa. No caso, um motor de 400cv a carburar e um sistema de propulsão a jacto que expele cerca de 400 litros de água por segundo. Estamos expectantes. E prestes a transformar princípios de engenharia em shots intermitentes de adrenalina.

Braço direito em riste; um, dois, três, quatro golpes no volante para o lado esquerdo. Luís, um dos poucos pilotos de jet boat certificados em Portugal, sabe o que faz. Conhece a frente e o verso do barco, sabe como reage. Aos espasmos do casco respondemos com contracções musculares, que vão e voltam quase ao ritmo do ponteiro das rotações. A ponte do Freixo começa a fazer sombra, agora já não faz outra vez.

"Não é a velocidade que conta, é a manobrabilidade". Já nos tinham avisado e não podemos deixar de concordar. Devemos ter chegado aos 90km/h mas nunca vimos as margens do Douro a fugir a sete pés. Vimos aquilo que Luís permitiu que víssemos: a água a abrir-se à nossa frente, a ponte Luiz I com uma inclinação de 45 graus, a Praça da Ribeira de olhos postos naquela mancha vermelha que ia cortando o rio com a subtileza com que uma pedra faz ricochete na água.

Agora encontrámos um projecto, uma amostra de ondulação. Solavanco número um, direita, esquerda, slide, semicírculo, um desenho geométrico. Aí vem o braço direito outra vez, Hamilton turn na calha, acautelem-se! O nariz do barco enterrado na água e nós lá em cima, em versão chuveiro improvisado. Os calções encharcados e o tronco pronto a subir à passerelle para o concurso Mr. t-shirt molhada. 

Acabou o tempo para contabilizar os estragos. Por esta altura, já não vale a pena tentar manter a compostura. Perdido por um, perdido por mil. Venha de lá esse crash stop - e não é que, do pico da velocidade, o Haka consegue mesmo passar aos zero km/h em meia dúzia de metros? O rasto de espuma que deixou para trás ainda não se dissolveu e já estamos a arrancar novamente, qual Moby Dick em perseguição de um baleeiro. Mais perto da margem, mais familiarizados com as convulsões. 

Ajustamos a posição no banco, soltamos as mãos para limpar o rosto e, quando damos por ela, já estamos a caminho da casa partida. Passaram 25 minutos? Pareceram cinco. Os carros estão virados do avesso, lá em cima, na Ponte do Freixo. Cá em baixo, é como se tivessem instalado uma corrente de lombas no leito do rio. Salto, solavanco, salto, solavanco. Estamos novamente colados à água e as pestanas perderam o duelo com o vento frontal. Olhos semicerrados, um último pensamento em forma de apelo: mais um braço direito no ar? 

Um complemento, uma experiência, uma escola

2008, ano zero. Amadeu Peixe olhou para o Douro e, mais do que um rio, viu uma oportunidade. Viu uma espécie de cocktail emocional pronto a servir. "Foi um pouco a percepção de que faltava algo a uma cidade virada para o turismo, uma experiência de curta duração, que pudesse ser combinada com uma viagem de negócios ou uma visita de algumas horas". 

O empresário chama-lhe "pack de emoção", um soundbyte que tenta servir de chamariz para os milhares dos frequentadores do Centro de Congressos, mesmo ali à mão de semear. "São cerca de três milhões de visitantes que vêm todos os anos ao Porto e é preciso apresentar-lhes algo de novo", sugere. Daí à importação de uma das pérolas da escola neo-zelandesa foi uma braçada.

Amadeu tratou do licenciamento (moroso, como sempre), cumpriu (com mais dois pilotos), durante três meses, as 50 horas de formação (o número duplica quando se trata de operar com clientes, como comprovou Luís Alvim) sob a batuta do especialista Simon Gibbon e, quase um ano depois, deu o tiro de partida para o negócio. 

Já com este franchising de "um modelo de negócio muito avançado" na água, foi lançando o isco. Às empresas (que podem alugar o barco para "missões" especiais), aos particulares (que podem encontrá-lo durante a semana na marina do Freixo), a quem propõe um tecto de 25 minutos de toca e foge aquático. E porquê 25 minutos? "Chegou-se à conclusão que, mais do que isso, não traz valor acrescentado à experiência. E assim podemos ajustar o produto a um preço mais competitivo".

E se o botão do preço é fixo, o das descargas de adrenalina pode ser ajustado. Com cinco "níveis de emoção" disponíveis na ementa, a Xtreme Jet (é este o nome da empresa) promete adaptar-se à vontade dos clientes. As diferenças na hierarquia são justificadas pelo arrojo das manobras, pela velocidade e, acima de tudo, pelas condições naturais. "Normalmente, operamos no nível um, nível dois, por causa do tráfego no rio", explica Amadeu. E o que seria um nível cinco? "Se pudéssemos operar à noite, aí sim, até porque o risco está sempre controlado".

Para já, não podem. A licença que têm em mãos não o permite. Por muito que o empresário descreva o seu Haka como um amigo do ambiente - "silencioso, económico" -, por muito que insista que é o único barco "autorizado a trabalhar em santuários naturais". E até é bom que assim seja. O sol sempre ajuda a secar a roupa.

INFORMAÇÕES

Xtreme Jet
Preços
Grupos
11 Participantes: 200,20 euros (maiores de 8 anos )
Baptismo Jetboat (15 minutos)
Adultos: 25,50 euros (mais de 16 anos )
Crianças: 20,50 euros (dos 8 aos 16 anos )
Missão de Jetboat (25 minutos)
Adultos: 35,50 euros( mais de 16 anos )
Crianças: 25,50 euros (dos 8 aos 16 anos )
De 2.ª a 6.ª feira: Opera no Porto e em Gaia 
Ponto de saída e de chegada: Marina do Freixo, Porto
Fins-de-semana: Opera a partir do Tâmega, Pinhão, Paiva - para empresas e com marcação prévia
Reservas: +351 93 391 05 17 (com um mínimo de 48 horas de antecedência)
E-mail: oporto@xtremejet.pt
www.xtremejet.pt

A Fugas subiu a bordo do Haka a convite da Xtreme Jet

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