Uma bicicleta dobrável, sem corrente e com um mecanismo que a torna "impossível de roubar"; uma cadeira feita de garrafas de refrigerante e de água recicladas; um cesto de borracha que se molda às necessidades do utilizador (tanto serve para colocar roupa suja como para arrefecer vinhos).
Entrar no Centro Dinamarquês de Design (sobretudo enquanto durar a exposição 10+ Design Forecast, patente até Abril de 2011) lembranos que já chegamos ao futuro. Ou pelo menos a uma parte do que imaginamos que ele será: mais sustentável, mais flexível, menos previsível.
Esta é a cidade que a prestigiada revista Monocle decretou como sendo "a cidade do design". A tradição de bom design não é nova na Dinamarca (nos anos 1950 e 1960, gente como Arne Jacobsen, Poul Kjærholm, Verner Panton destacaram-se pelos produtos simples e funcionais que criavam).
Em Copenhaga, o design (e por design referimo-nos a tudo o que cumpre bem as suas funções e, já agora, que o faça com estilo) está um pouco por todo o lado: no planeamento urbano, nas lojas, nas bicicletas. A esta tradição, nos últimos anos juntaram-se novos pesos pesados da arquitectura. Aquela sensação de futuro surge vezes sem conta numa ida a Copenhaga.
Cidade quase totalmente plana, percorre-se toda (ou quase) de bicicleta ou a pé. A capital dinamarquesa não faz a coisa por menos: por todo o lado, há bicicletas gratuitas prontas a ser usadas (basta pôr uma moeda de caução e seguir caminho), com excepção dos meses de Inverno, em que são recolhidas para serem arranjadas. Estes transportes também se chamam "bicicletas", mas parecem vir de outra galáxia se comparadas com os velocípedes vendidos na Cykelmageren, uma das lojas mais conhecidas na arte dinamarquesa de tornar as bicicletas (montadas à mão, peça por peça, um festim de quadros, rodas e guiadores coloridos) em objectos de desejo.
Na rua da Cykelmageren, a Kongensgade, encontramos o Museu Dinamarquês de Arte e Design. Obras de artes decorativas com 500 anos convivem com produtos desenhados por Arne Jacobsen, Kaare Klint e outros clássicos da era dourada do design do país. Em pouco mais de cinco minutos a pé, chegamos a Amaliehaven.
É um pequeno jardim perto do Palácio de Amalienborg, a residência de Inverno da família real, que oferece uma vista invejável da Casa da Ópera de Copenhaga, uma das mais caras do mundo (custou mais de 350 milhões de euros). Aberta em 2005, é uma das jóias da nova paisagem arquitectónica da cidade.
O arquitecto Henning Larsen (o mesmo que gizou o Centro Dinamarquês de Design) imaginou um edifício imponente, com um telhado que é também uma pala gigantesca com 32 metros de comprimento.
Tradição e invenção
Umas pedaladas na marginal do porto levam-nos à Biblioteca Real Dinamarquesa. Junto ao velho edifício, de 1906, surgiu um "diamante negro", assim baptizado devido à sua forma e aos materiais utilizados (granito negro e vidro que reflecte a água do porto).
É uma imagem radicalmente diferente da outra metade da biblioteca, a parte velha, a que está ligada por uma ponte. Para além dos livros, no "diamante" há um auditório para concertos, um espaço para exposições e um café com uma esplanada invejável (sobretudo nos meses menos frios).
Se no centro a liberdade de movimentos dos arquitectos é menor (a vanguarda tem que dialogar com a tradição), outras áreas de Copenhaga são uma espécie de laboratório, onde é possível testar novas soluções. Sobretudo no capítulo ecológico, uma das marcas identitárias desta cidade.
Ørestad é uma das zonas em desenvolvimento de Copenhaga, uma cidade dentro da cidade que está a ser planificada e construída do zero. Está ligada por metro ao centro, mas é também acessível a pé ou de bicicleta.
A visita a Ørestad justifica-se quase apenas pelo DR Byen ("cidade DR"). Não é só o design que aponta ao futuro em Copenhaga, também a arquitectura o faz. O DR Byen é um complexo que inclui as instalações do serviço público de televisão e rádio dinamarquês (DR) e um auditório.
É também um laboratório de arquitectura sustentável: o consumo de electricidade foi reduzido em 75 por cento, graças a um sistema de ar condicionado que aproveita águas subterrâneas. O auditório, inaugurado em 2009, impressiona por outras razões.
Desenhado por Jean Nouvel, prémio Pritzker, o "Nobel da arquitectura", em 2008, o seu interior assemelha-se ao que imaginamos que será o miolo de um meteorito. O exterior também impressiona: é um "misterioso paralelepípedo" azul, como lhe chamou o arquitecto, que recebeu um prémio nos Design Awards de 2010 da revista Wallpaper. "Tento ser um arquitecto de contexto e geralmente gosto de dialogar com os meus vizinhos, mas neste caso não tinha vizinhos", explicou Nouvel numa entrevista.
Tentou construir o auditório como um "construtor de catedrais do século XI" curiosamente, ou talvez não, o século em que se crê que Copenhaga tenha sido fundada. Criou uma "catedral" do século XXI, como outras que Copenhaga tem sabido fazer, sem beliscar uma identidade com dez séculos.
Compras e mais compras
A Illums Bolighus (o "melhor sítio do mundo para comprar móveis para a casa" para o Financial Times) e a Artium vendem objectos que são a perdição dos adeptos do design escandinavo. A primeira está situada em Strøget, a principal artéria de consumo da cidade (é a maior rua pedonal da Europa), muito perto de outra "instituição", a Royal Copenhaguen, fundada em 1775, uma referência mundial na porcelana.
O Centro Dinamarquês de Design também tem uma recheada loja com objectos inventivos, todos seguidores do conceito travel light todos os produtos são leves, compactos e geralmente têm mais do que uma função.
Vesterbro tem sido transformada na zona da moda da cidade nos últimos anos. Subsiste o tráfico e o consumo de drogas e a prostituição, mas a dinâmica é positiva, com o aparecimento de várias mercearias de luxo, lojas de roupa de autor, cafés e bares.
Onde ficar
Duas opções entre várias possíveis: o First Hotel Skt Petri, cinco estrelas, situado perto do centro (preço por noite a partir de 215 euros) e o mais económico Wake Up Copenhagen (86 euros por um quarto duplo). Quem não se importar de partilhar um quarto com outros hóspedes tem uma opção bem mais barata: o hostel Danhostel Copenhagen City fica por 17 euros por pessoa.
Onde comer
Para além do estatuto de "cidade do design", Copenhaga está a tornarse uma referência gastronómica. O Guia Michelin deste ano deu estrelas a 13 restaurantes da cidade. O destaque vai para o Noma, considerado o melhor restaurante do mundo em 2010 pela revista Restaurant. A maioria das pessoas terá que contentar-se com propostas menos caras. A zona de Vesterbro tem várias pizarias take away e um restaurante com uma ementa 100 por cento biológica (incluindo os vinhos), o BioMio.
Para algo totalmente dinamarquês, recomenda-se uma visita a um apølsevogn (literalmente, carrinha das salsichas), que vendem uma variedade enorme de cachorros custam, regra geral, 25 coroas dinamarquesas, pouco mais de três euros.
O que fazer
No extremo oposto do quadro pintado pela Monocle, há uma outra Copenhaga. A "cidade livre" de Christiania é uma autoproclamada zona autónoma onde vivem algumas centenas de pessoas em casas construídas pela comunidade. Não haverá muitos sítios como este no mundo.
Criada em 1971, é uma espécie de comuna, que parece transferida dos anos do flower power para os dias de hoje. Lá dentro, o consumo e venda de cannabis e haxixe estão banalizados. Visitar o Tivoli, um dos parques de diversões mais antigos do mundo (existe desde 1843) e uma inspiração para a Disneyland, é também garantia de um dia bem passado. As viagens de barco pelo porto e canais de Copenhaga são uma boa maneira de ficar a conhecer a cidade.
Como ir
A TAP tem voos directos diários a partir de Lisboa. A dinamarquesa Cimber Sterling também voa a partir de Lisboa e a SATA a partir da Madeira.