Fugas - Viagens

Um workshop fotográfico no Gerês com muitas palavras dentro

Por Abel Coentrão

Abel Coentrão pôs os pés ao caminho e acompanhou um workshop fotográfico no único Parque Nacional do país com o profissional Pedro Alarcão. Voltou com centenas de imagens na máquina mas, mais confortável na sua pele de repórter, preferiu jogar pelo seguro: mil palavras contadas para nos guiar pelas cores do Outono. As fotos são de alguns dos participantes e do próprio Pedro Alarcão.

A caminho da hibernação, a mata caducifólia do Gerês vai-se despindo, plantando no chão a passadeira vermelha de folhas com que há-de receber o Inverno. É Outono, e no único Parque Nacional do país o prenúncio da estação fria é uma boa notícia, feita de carvalhos, faias e bétulas (vidoeiros de seu nome, por aqui) a convidar o sol para um assomo ténue de calor que lhes sature, ainda mais, as cores da despedida. O resultado deste conluio impregna-se facilmente na memória, mas alguns amantes da fotografia aceitaram fazer perdurá-lo também com as suas máquinas, num workshop guiado pelo profissional Pedro Alarcão, conservacionista e fotógrafo da natureza.

O desafio da Agência Nomad Foto não era fácil mas por isso, também, é que era um desafio: um dia em alguns dos mais belos e conhecidos pontos de atracção do Parque Nacional da Peneda-Gerês; um dia com um profissional que, depois de editar em Lisboa a extinta revista Forum Ambiente, mudou-se para estas serras para fotografar o lobo, ele também em risco de extinção; um dia a tentar fazer mais do que o postalinho igual a tantos outros que a tecnologia digital, com a explosão de gente com máquina fotográfica, veio permitir, num teste às nossas próprias capacidades e limitações.

Ribeiros, riachos e estradas a distribuir pela paisagem linhas de força capazes de guiar o olhar fotografia adentro; a luz perante o frio verde de pinheiros e camacíperes a resistir eternamente ao Inverno; o lado mais quente do espectro fornecido por árvores de folha caduca, que entre o amarelo, o laranja e um vermelho vivo, vão celebrando a estação, sabendo que, lá para Março, o ciclo háde recomeçar. Haja curiosidade, capacidade de olhar, que nada falta por aqui. Bom, talvez um lobo desse jeito para compor a imagem, mas eles não aparecem à toa, e nisto de fotografar a sério não são permitidas montagens, como avisa Alarcão nas margens da ribeira do Arado, antes de nos soltar às feras.

A primeira é mansa, de tão lenta. Ao pé da ponte, o Arado é um rio vencido pelo cansaço de uma descida abrupta, refastelandose entre os pedregulhos até um horizonte dominado por uma montanha esfumada pelos vapores que o sol faz erguer. Pelo chão, o açafrão-bravo (Crocus serotinum) pontua com as suas flores lilás o verde das espécies rastejantes que bordejam o rio. E poucos dos participantes são imunes à sua presença, como o prova o esforço com que tentavam integrá-lo em suados enquadramentos alguns, mais à frente no dia, a pedir que quase nos deitássemos na espessa cama que o Outono vai espalhando pelo chão.

A uma centena de metros, o Arado atira-se monte abaixo, ruidoso. Há um miradouro, mas a vista é limitada por uma árvore frondosa, e quem queira captar todo o fulgor desta queda de água precisa de descer uns metros com mil e um cuidados a um ponto pouco protegido. O exercício é desaconselhado a quem se encontre sozinho, mas a entreajuda do grupo permitiu que alguns pudessem aproximar-se, de máquinas e tripés, dessa visão. Que, longe da imponência de Iguaçu, Niagara ou Victoria Falls, não deixa de ser merecedora das lentes que lhe são apontadas.

Nada aqui, aliás, desmerece o nosso olhar. Entre a ponte do Arado e o miradouro da Pedra Bela, um bosque de vidoeiros acolhe as mesas de pedra em que partilhamos, apressadamente, o farnel. Estamos com um olho na comida e outro na luz enternecedora que, nestes dias, se vai embora mais cedo, e que aqui junto à Fonte de Chelo parece brincar com a folhagem, dourando-a sem esforço num beijo de vários quilates. Há água, mas esta corre silenciosa. Como se não quisesse interromper tal romance, ou como quem se aproveita dele, pelas frestas, descendo a encosta com uma carapaça mais brilhante.

Mas há que prosseguir. Alarcão está a apostar no que nos possa oferecer um spot junto à Portela de Leonte, na estrada para a Portela do Homem. Coração do parque, a Mata da Albergaria não o desilude. As faias, de um lado, e de novo os vidoeiros, do outro, acotovelamse junto a um ribeiro, Leonte, lançando sobre um pacato plano de água os reflexos límpidos desta luta pela nossa atenção. Não é difícil distrairmo-nos entre tantos estímulos, e o nosso guia explicanos a vantagem de, entre toda esta luz e sombra, recorrermos a opções como o foco selectivo e à medição pontual da luz que, bem aproveitadas, podem melhorar as nossas fotografias.

Com este objectivo em mente, corremos Albergaria adentro, a espreitar o luxo multicolor que, de uma encosta íngreme, se atira até ao rio que quase não se vê. São 15h30 e o lugar quase parece tomado pela noite, tal a densidade de folhosas centenárias de porte altivo. E tal como os olhos demoram a descobrir contornos na penumbra, a luz assim filtrada pede tripés, mãos firmes que a deixem entrar na máquina, em tempos longos que gravem nos sensores digitais o seu esforço para iluminar um tronco, ou um ramo de faia ainda verdejante a desafiar a morte. É um exercício de paciência, de um quase conter da respiração para não tremer. E alguns, a conselho de Pedro Alarcão, recorrem ao flash, repondo assim também a cor que este crepúsculo, como qualquer crepúsculo, teima em roubar.

Não nos sobra muito tempo, neste lugar feito de tempo. Quase puro agora, imagina-se quão intocado seria, quando no século I os romanos o atravessaram com a via XIX, cujas marcas perduram a poucos metros de nós. Duas pontes seguram os nossos últimos olhares. Ambos concentrados num ribeiro, primeiro, e no rio Homem, depois. De novo uma cascata, para acabar como quase começamos. Mas, mesmo a céu aberto, quase sem luz. Poucos se atrevem a congelar este momento. Boa parte do grupo já guardou as máquinas recheadas de milhares de imagens. Melhores, espera-se, que as do repórter que os acompanhou, e a quem não resta mais do que tentar resgatá-las, com estas mil palavras. Apertadas pela saudade contra um ponto final.

Como ir

Os pontos visitados neste workshop no Gerês cascata do Arado, Pedra Bela, Portela de Leonte, Mata de Albergaria concentram-se nas imediações da vila homónima (concelho de Terras de Bouro), onde se chega seguindo pela A3 até Braga. Depois é tomar a direcção de Chaves (EN 103) e, já no concelho de Vieira do Minho, virar à esquerda, até ao destino, bem assinalado por placas.


Onde ficar

Não faltam na vila do Gerês e arredores opções de alojamento com condições e preços muito variados. Desde pensões mais baratas à excelência do Aqua Falls Spa Hotel Rural, já na encosta pertencente a Vieira do Minho, passando pelo turismo em espaço rural (ver a central de reservas em www.adere-pg.pt), a oferta está adaptada às exigências de cada um. E não faltam sequer os parques de campismo, que são três, e bons, só no parque.

Quando ir

Quem visita regularmente o Gerês reconhece que o Outono, pela profusão de cores geradas pela mata caducifólia, é a altura mais interessante do ano para fotografar. Mas não faltam, durante o resto do ano, motivos para apontar a câmara às diversas paisagens do único parque nacional do país.

Sugestões

É extenso, e variado, o leque de workshops previstos pela Nomad Foto para os próximos meses. Do menu, consultável em www.nomadfoto.pt, destaca-se um regresso ao Gerês, e à companhia de Pedro Alarcão, em pleno Inverno, para um workshop de dois dias, personalizado (o limite são quatro inscrições, os lugares disponíveis no Jipe do Fotógrafo, e o preço é 350 euros). Direccionado para fotógrafos mais exigentes, o workshop realiza-se a 11 e 13 Fevereiro 2011e a 4 e 6 Março 2011 (Carnaval). Há outro, em Janeiro, mas já esgotado. Pedro volta a receber amantes da fotografia no Gerês para uma "aula" mais distendida sobre fotografia da Natureza, no clima menos inóspito de Abril (22 a 24, com um custo de 180 euros). A 22 e 23 de Janeiro, Luís Quinta dá no Porto uma lição sobre fotografia de vida selvagem, com a parte prática a desenvolver-se, no segundo dia, no Parque Biológico de Gaia (135 euros).

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