Vamos num autocarro que parte de Plasencia bem cedo em direcção à Sierra de Gata e à Reserva Borbollón. A cidade, com a sua monumental catedral, concluída no século XIV, fica para trás e a paisagem rural predomina. Vêemse oliveiras e a terra está coberta de água. Johann, um jornalista alemão, exibe uma gigantesca teleobjectiva, ganhando de imediato a alcunha de paparazzi. O grupo de jornalistas e operadores turísticos convidados pelo turismo da Extremadura espanhola para conhecer alguns dos percursos ornitológicos mais ricos da região está equipado a rigor: sapatos de caminhada resistentes, casacos quentes mas leves, de cores verde e castanho que se confundem com a paisagem.
Há algumas regras básicas que um observador de aves deve seguir. Uma delas é evitar perturbar as aves no período de nidificação. "Um adulto assustado durante a incubação, ou quando as crias são pequenas, pode retroceder, arruinando a descendência de um casal", lemos num guia de roteiros ornitológicos, editado pela Junta de Extremadura. As caminhadas devem ser silenciosas porque só assim nos apercebemos do canto dos pássaros, essencial para distinguir espécies. As roupas, discretas, sem impacto visual. É melhor andar a pé e levar binóculos ou telescópio: assim não precisamos de nos aproximar muito das aves e é mais fácil distinguir espécies.
Cerca de 75 por cento da área da Comunidad Autónoma de Extremadura está classificada como IBA (Área Importante para Aves). É uma das regiões mais ricas na Europa Ocidental, com mais de um milhão de hectares de Zona de Especial de Protecção para as Aves (ZEPA) e alberga 35 por cento das espécies europeias protegidas.
À medida que o autocarro avança, o entusiasmo cresce. Um pássaro rompe o céu e alguém grita. Os binóculos já estão nos olhos e fazem-se listas de espécies de pássaros que é possível avistar ao longo do percurso (estorninhospretos, abutre do Egipto, abutre preto, cegonhas, gansos ou patos). Fevereiro e Março são meses de grande dinamismo para estes animais, talvez os mais fáceis de observar em plena natureza. Com o aproximar do Verão, começam a chegar vindos de África, explica Godfried Schreur, guia holandês que vive há anos em Espanha. Empresta-me uns binóculos, que guardo na mochila. Vão ser muito úteis mais tarde.
O percurso de autocarro demora, pelo menos, meia hora. Paramos para uma visita ao parque de campismo da Sierra de Gata, mas não há condições para grandes passeios. A chuva cai impiedosa. Ficamos a saber que o parque é frequentado sobretudo por crianças que invadem a Sierra de Gata nos meses de Verão para aprender tudo sobre compostagem, colocar ninhos e observar a mata botânica autóctone.
Nikolae senta-se na esplanada do café abrigado da chuva e começa a desenhar. O seu trabalho na revista Vögel (pássaro em alemão) é reproduzir espécies de animais e paisagens e ele é capaz de estar horas a espreitar no telescópio, sentado num banco incorporado numa prática mochila a desenhar, em detalhe, o que vê. A chuva não é amiga dos birdwatchers. Johann explica que os pássaros precisam de muita energia para voar e, por isso, preferem ficar abrigados. Sem aves à vista, Nikolae desenha a paisagem verde.
Neste roteiro também é possível observar grifos, a água perdigueira e o chapim do mato, todos residentes, o que significa que estão no território durante todo o ano. Para além disso, há invernantes (passam os meses de Inverno na Extremadura) como o grou, e os estivais (cegonha negra ou abutre do Egipto, só para citar alguns).
Regressamos ao autocarro debaixo de chuva, mas o clima dá tréguas na próxima paragem. Em Arroyo de Las Pilas, reserva ecológica, entramos no território dos abutres-pretos. Há cerca de meia centena de casais reprodutores nesta região, mas juntando com as populações existentes em Hurdes e Granadilla (mais a Norte) chegam aos 100 pares.
"A Extremadura tem a maior colónia de abutres da Europa. E este é o maior pássaro da Eurásia [continentes europeu e asiático] com três metros de comprimento quando abre as asas. A população está a aumentar, apesar da falta de comida", explica Godfried Schreur. Circulam histórias de abutrespretos com fome que atacaram cordeiros doentes ou recémnascidos. "São animais tímidos e isso mostra quão desesperados estavam", continua. Em Portugal esta espécie não é avistada com regularidade. Os grandes abutres que voam ao longo da fronteira na Beira e no Alentejo são, geralmente, oriundos de Espanha.
A caminhada não dura mais do que meia hora e com os olhos sempre postos no céu avistamos os primeiros abutres, enormes e imponentes, a cruzar as nuvens. Os binóculos ajudam a ver melhor. Plumagem negra, bico forte, capaz de despedaçar as peles mais rijas. Espécies como o grifo, corvos ou os estorninhos têm de esperar que o abutre-preto termine a refeição para poderem também começar a comer.
Godfried coloca o telescópio apontado para um enorme ninho, construído por este gigantesco pássaro em cima de uma árvore. A distância é muita e é preciso fazer um esforço e apurar a visão para perceber os detalhes.
Azeite e vinho em Robledillo de Gata
Com o tempo pouco favorável, seguimos para Robledillo de Gata, aldeia com cerca de 100 habitantes declarada conjunto históricoartístico onde, no Verão, se podem aproveitar as piscinas naturais. À entrada, uma placa descreve outros pontos de interesse, como o hospital-enfermaria franciscano, construído no século XV.
Foi nesta aldeia que nasceram as primeiras casas de turismo rural na Sierra de Gata e encontrar alojamento é fácil. Em cada esquina há uma casa rural, mas ao início da tarde não se avistam habitantes.
O rio Árrago corre veloz junto a um antigo moinho de azeite, hoje transformado no Museu Molino del Medio. É tão antigo como a própria aldeia e pensa-se que tenha sido edificado entre os séculos XI e XII. A entrada custa 1,50€ e ainda se pode observar intacta a maquinaria montada em 1943. Se a porta estiver fechada basta tocar à campainha e alguém há-de abrir. "Para além de poder ver a prensa hidráulica que mói as azeitonas para produzir azeite, também fazemos provas", conta Júlio, que pertence à associação Oleanum, de defesa do azeite, e recebe os visitantes no museu.
Quase todas as casas particulares têm adegas no rés-do-chão e Pacheco não hesita em convidarnos a entrar. A "Bodega de Pacheco" tem 300 ou 400 anos. Já pertencia ao bisavô de Pacheco, que ganha a vida no campo no cultivo de oliveiras e vinha. Oferece um copo de vinho branco enquanto explica que o espaço é reservado a amigos, não está aberto a turistas. Um cartaz avisa: "Donativos para a conservação da adega". Parece um museu particular, com uma mesa corrida de madeira, toalha de chita, chão de terra e alfaias agrícolas que enchem as paredes.
"A maior parte dos habitantes da Sierra de Gata são pequenos proprietários rurais que trabalham a terra de forma artesanal, cultivam vinho e oliveiras. É uma região muito forte em azeitonas de mesa, nomeadamente da manzanilla Carcerena", conta Gregorio Naharro, empresário e guia turístico. Goyo (como é conhecido) esteve envolvido num projecto que visava juntar Portugal e Espanha na promoção do turismo ornitológico, em 2003, mas que nunca chegou a arrancar.
A manhã vai longa, muito ao jeito espanhol. São três da tarde e paramos para almoçar no restaurante da urbanização Parraluz Golf. O cenário é desolador. Há dezenas de casas à venda e uma promessa de qualidade de vida que não se concretizou quando a crise financeira mundial deixou em cacos o mercado imobiliário em Espanha. Nada que afecte a refeição. Desfilam entradas onde os protagonistas são os enchidos, segue-se a truta e o cabrito assado no forno a lenha. Em termos gastronómicos, a região da Extremadura ostenta doze denominações de origem.
Foi a custo que nos levantámos da mesa. O relógio já batia nas cinco da tarde quando seguimos para o lago da Reserva Borbollón. Objectivo: observar bandos de grous. Não foi preciso esperar muito para os avistar. Calcula-se que haja cerca de quatro mil aves desta espécie na Extremadura. São pássaros grandes, do tamanho de uma cegonha branca, com plumagem cinzenta e um tufo de penas na cauda. O pescoço é preto, a cabeça preta e branca com uma pequena mancha vermelha. Fazem um som muito característico e quase fazem lembrar gigantescas galinhas desajeitadas. Surgem sobretudo no Outono e no Inverno, em lagos e arrozais. Lemos no guia de aves que não se reproduzem nesta região espanhola desde a primeira metade do século passado. Comem bolotas, arroz, milho e invertebrados. "Entre Setembro e Dezembro vêem-se aos milhares", conta Godfried.
Regressamos a Plasencia, com paragens no caminho para observar as cegonhas brancas.
No salto do cigano
O dia amanhece cinzento mas o ouvido começa a estar treinado para escutar novos sons. Um dia a colar os olhos aos binócolos e já nos sentimos quase integrados no grupo dos birdwatchers mais fervorosos.
Depois de um pequeno-almoço onde não faltou a tortilla de batata e o chouriço assado (para os mais destemidos), seguimos em direcção ao Parque Natural de Monfragüe, o destino mais emblemático da região para a observação de aves e o 14.º Parque Nacional de Espanha. Tem quase 18 mil hectares e estende-se ao longo do rio Tejo e parte do rio Tietar. O nome Monfragüe vem do latim Mons Fragorum, que significa monte fragoso.
A visita ao parque pode começar no Centro de Visitantes de Villarreal de San Carlos, uma pequena aldeia onde é possível ter toda a informação sobre o espaço protegido, que possui uma das áreas de floresta e mata mediterrânea mais bem conservadas do sudoeste da Península Ibérica. É aqui que podemos avistar a águia imperial ibérica, em perigo de extinção, que tem onze casais reprodutores. Trata-se da ave de rapina mais ameaçada da Europa e uma das mais sensíveis à perturbação provocada pelo homem, lê-se no site português avesdeportugal.info.
A primeira paragem é no Salto del Gitano (Salto do Cigano), ponto de observação obrigatório, com as suas imponentes rochas. É uma montra ao vivo de grifos (calculase que haja aqui 80 pares), alcões peregrinos, cujo voo picado é um dos mais impressionantes, águia real ou abutre do Egipto. As rochas e a água fazem do Salto do Cigano um habitat seguro para plantas e animais e o seu nível de conservação é muito alto.
Martin Kelsey vai escutando a paisagem com o olhar treinado de quem, desde criança, segue os passos do pai na observação de aves. O guia britânico, e dono de uma casa rural em Pago de San Clemente, a onze quilómetros de Trujillo, coloca o telescópio num local estratégico e deixa-nos espreitar pela poderosa lente. Do outro lado do rio, no meio dos grifos, um veado espeta as orelhas, parecendo saber que está a ser observado.
Mais meia hora de reconhecimento da zona e juntámos à nossa tímida lista de pássaros, o corvo, a andorinha das rochas (também conhecida como andorinha de Inverno) e o magnífico merlo-azul.
O espectáculo mais memorável estava, contudo, guardado para o fim. Em Portilla del Tieter, outro ponto de observação, voltamos a ver os grifos a alimentarem-se e ao longe uma águia imperial. O momento é vivido com entusiasmo. Não é todos os dias que se vê esta espécie, única na Península Ibérica. Mas a verdadeira estrela chama-se Chony e é uma cegonha negra fêmea, que descansa no ninho no meio das rochas, com o seu par. Martin, uma vez mais, coloca o telescópio à disposição, e conseguimos ver estes tímidos animais de penas pretas e longas patas cor-de-rosa choque, bico enorme. À medida que mexe o pescoço, a penugem inunda-se de reflexos de cor verde e azul.
Alimenta-se de peixe ou caranguejos e surge na região da Extremadura para nidificar todos os finais de Março, voltando a África no final do Verão. Com sorte, é possível ver os ovos e as crias. São oportunidades únicas, já que este é um dos pássaros mais difíceis de observar no habitat natural.
Chony foi identificada quando tinha apenas um ano em 1999. A população de cerca de 20 pares tem-se mantido estável, mas continua em número reduzido, explica Martin.
Os miradouros espalhados pelo Parque Natural de Monfragüe têm boas infra-estruturas e, nesta altura do ano, é possível estar tranquilo a olhar para o céu e observar o voo dos grous. Há pouco movimento na estrada que acompanha a reserva e a paisagem é inspiradora.
No final da viagem, devolvemos os binóculos aos guias, mas ficamos a pensar que não é má ideia adquirir um par. Com os olhos postos no céu, o mundo fica maior.
Como ir
A viagem de Lisboa a Plasencia demora quatro horas e meia e o ideal é rumar ao sul, pela A2, depois entrar na A6 em direcção a Badajoz. Aí, seguir pela Ex-100 em direcção a Cáceres e sair na saída de Plasencia. A auto-estrada espanhola tem boas indicações. Do Porto, pode seguir na A1 em direcção à A25 e seguir para o IP5 em direcção a Espanha. Já instalado na Extremadura, de Monfragüe até Plasencia são cerca de 30 quilómetros pela estrada C-524. Entre Plasencia e Cáceres distam 80 quilómetros.
Onde dormir
Parador de Plasencia
Instalado no Convento de Santo Domingo, o edifício onde hoje fica o Parador de Plasencia foi fundado pela família Zúñiga em meados do século XV. A decoração é inspirada na Idade Média e os quartos são acolhedores.
Plaza San Vicente Ferrer
10600 Plasencia
Tel.: 0034 927 42 58 70; reservas: 0034 902 547 979
reservas@parador.es
http://www.parador.es/
Hotel Alfonso VIII
Av. De Alfonso VIII, 32,
Plasencia
Tel.: 0034 927 41 0250
www.hotelalfonsovii.com
Onde comer
Restaurante Parraluz
Carretera Moraleja Guijo de Cória.
Santibáñez el Alto (Cáceres).
Situado na urbanização Parraluz, próximo do lago Borbollón
Tel.: 0034 927 197 219
paco@parraluz.com
Pratos de forno a lenha.
Preço médio: 35 euros.
Restaurante La Catedral
Avenida Calvo Sotelo, 23,
Plasencia, 10600
Tel.: 0034 927 418 579
Comida tradicional e boa carta de vinhos.
Preço médio: cerca de 40 euros
Outros locais a visitar
Para além da paisagem natural, a região da Extremadura tem cidades com forte riqueza histórica.
Plasencia
É o quarto núcleo urbano mais importante da região e um destino turístico pelo seu edificado histórico. Fundada em 1186 em plena batalha entre os cristãos e os muçulmanos, foi definitivamente tomada por Alfonso VIII em 1201. Converteu-se num local de transacções agrícolas, comerciais e de gado, o que impulsionou a realização de inúmeras feiras e festas. Na primeira terça-feira de Agosto, decorre a Martes Mayor, declarada Festa de Interesse Turístico Regional.
Mérida
Declarada Património da Humanidade em 1993, Mérida tem uma imensa riqueza arqueológica, com cerca de 21 monumentos classificados. Durante o Império Romano chamava-se Emérita Augusta e era a rica capital da província da Lusitânia, fundada por Octávio Augusto. O Teatro Romano merece visita obrigatória, tal como o Museu Nacional de Arte Romana.
Zafra
Também conhecida como Pequena Sevilha, Zafra está localizada entre Mérida e Córdoba, na base da Serra de Castellar. Cresceu à volta do castelo do século XV que era, originalmente, uma fortaleza árabe. Com belas praças, a cidade sempre teve uma vida comercial intensa, abastecendo as zonas agrícolas que a rodeiam. Um dos mais importantes eventos anuais é a Feira Internacional de Gado, na última semana de Setembro e na primeira de Outubro.