Odisseias pela Terra, Matéria, Vida, Universo e Informação esperam os visitantes do Visionarium, o Centro de Ciência do Europarque, que aposta na interactividade. Manipular os objectos expostos não é interdição, é obrigação - o visitante finge-se cientista por algumas horas e o museu é o seu laboratório.
Se o Visionarium tivesse um slogan poderia bem ser algo do género "Quem diz que a ciência não pode ser divertida?", a que poderia seguir-se um convite, "Venha jogar bilhar gravitacional". Para os cépticos e não cépticos a receita do Centro de Ciência do Europarque, em Santa Maria da feira, é a mesma: interactividade, que é como quem diz, (semi) experimentação. Neste museu de ciência interactivo, tocar e manipular os objectos expostos não são interdições, são obrigações.
Durante algumas horas (o tempo mínimo de visita recomendável é 2h30), os visitantes vestem a pele de cientistas -não vão dar novos mundos ao mundo, mas vão seguir os passos de gerações de investigadores que ajudaram a formatar o mundo tal como o conhecemos. Os mestres de cerimónia são de peso (Fernão de Magalhães, Mendeleiev, Hubble e Mendel, patronos de quatro das salas de exposição) e o conceito é o de "descubra você mesmo": para cada teoria apresentada, há uma breve explicação teórica, um enigma (sempre ligado ao dia-a-dia) e módulos de experimentação bastante intuitivos onde, seguindo as instruções dos painéis, tentamos perceber a resolução desses enigmas (não os resolvemos mesmo, mas a ilusão é boa). A experiência pode, todavia, ser frustrante se o equipamento não está totalmente operacional, e tal não é raro acontecer se seguimos, por exemplo, o rasto de dezenas de alunos do primeiro ciclo. A manutenção é um problema, devido ao fluxo de visitantes (cerca de um milhão desde 1998).
Os mais jovens são o público privilegiado do Visionarium, que pode ser visto como uma extensão, prática, da sala de aula (não é à toa que 75 por cento dos visitantes são escolas e que os currículos escolares foram tidos em conta na concepção), mas o público menos jovem também pode fazer revisão da matéria dada. Certo é que ninguém sai cientista desta espécie de mega-laboratório, mas pode sair com curiosidade de saber mais e só mesmo os mais distraídos sairão em branco.
No Visionarium somos recebidos por um vasto átrio (rodeado pela recepção, loja de recordações e bar à espera de concessionário) encimado por uma enorme cúpula de madeira. Se há escolas de visita, uma nuvem de algazarra ecoa permanentemente pelo amplo edifício de três andares. Mas, no auditório onde começa a visita, o silêncio é de ouro, enquanto se assiste a um espectáculo multi-sensorial, que estabelece um paralelismo entre as descobertas dos navegadores portugueses e as descobertas tecnológicas do presente.
É a metáfora para a visita: nós somos exploradores percorrendo as cinco salas temáticas que constituem a exposição permanente. São chamadas de "odisseias", da Terra, da Matéria, da Vida, do Universo e da Informação, e nelas somos "recebidos" pelos patronos, que nos surgem em pequenos ecrãs (accionados através de sensores), como se viessem das profundezas da memória, para nos contextualizar.
Começamos pela Terra: orientação e cartografia, mecânica, fluidos em repouso e em movimento são os eixos matrizes desta sala (onde não falta sequer uma representação de partes de um navio); e latitude, longitude, funcionamento de roldanas, de velas e de asas de avião são alguns dos conceitos a testar. Passamos pela Matéria, que é com quem diz, o mundo das estruturas moleculares, da luz, do electromagnetismo e da tabela periódica -entramos no teatro de objectos para desvendar os segredos da luz ("Onde está a cor? No objecto em si ou na luz que o ilumina?" desafia o enigma) e no caminho aprendemos que o estado de plasma é o mais comum do universo, por exemplo.
Na sala da Vida "descodificamos" o código genético (temos puzzles de DNA), exploramos os sentidos ("testes" de visão e audição com aparelhos estranhos, desafios ao nariz e assinaturas únicas -impressão digital e registo vocal) e cartografamos o cérebro. Com a entrada na sala do Universo subimos à lua e percorremos galáxias, embora não à velocidade da luz. Há telescópios (mas não há horizonte para os apontar), há a dança Terra-Sol-Lua (solstícios e equinócios, eclipses, fases, marés) e há uma sala com o sistema solar (podemos lançar um foguete a ar comprimido e jogar bilhar gravitacional para compreender os campos de atracção dos planetas).
A viagem chega ao fim na sala mais "museológica": a da Informação. É a mais pequena e deveria representar a vanguarda tecnológica. Porém, os aparelhos, como o Laser Disc Player da Pioneer, parecem anacrónicos (e, pelo tamanho, jurássicos), e ver o mecanismo de funcionamento de um rato de computador tradicional (com rolamentos) tem apenas um interesse histórico.
Outras atracções
Jardim lúdico e científico
O Visionarium não é apenas uma sucessão de salas com exposições-experiências. Também é um jardim enorme (25 mil metros quadrados), com vários espaços lúdicos, desde o "inocente" parque infantil a, ou não estivéssemos num museu da ciência, um modelo, à escala, do sistema solar e jogos de água. Quando o tempo o permite, a ciência transfere-se para fora de portas e são organizadas diversas actividades nestes imensos relvados com vista para um lago e uma antigo moinho de pedra.
Clube Visionarium
Tem mais de dois mil membros e é uma porta aberta para aventuras: viagens (internas e externas sempre com a ciência como objectivo), workshops, campos de férias, cursos e palestras. Os membros têm descontos em algumas actividades.
Laboratorium
O Laboratorium inclui experimentação, formação e divulgação são os três vértices que estruturam o conceito. Este é um verdadeiro laboratório -supervisionado.
A maior parte do equipamento é interdito aos "cientistas de ocasião" e manipulado apenas pela equipa do Laboratorium (Luísa Ribeiro, Mário Ferreira e Paulo Barros), que prepara e concebe as experiências que giram em torno das áreas da biologia celular e molecular, genética, microbiologia, bioquímica, química e ecologia. Há actividades de curta duração - os mini-labs - e mais aprofundadas - os laboratórios - dirigidas a um público escolar (assim como as oficinas e mini oficinas).
Como ir: A partir do Porto ou de Lisboa apanhe a A1 até à saída de Santa Maria da Feira. Depois das portagens, siga os sinais que indicam Europarque -a cerca de três minutos da saída da auto-estrada.
Horários (2011): de terça a sexta-feira, das 09h00 às 18h00. Fins-de-semana e feriados, das 14h00 às 19h00.
Preços: Além de visitas em grupos, um jovem até 18 anos ou com cartão de estudante, paga 5€. Um adulto, €6,5. Sénior, 5€. Famílias desde 14€ (dois adultos e um jovem)