- Meu pai tinha negócios com teu avô.
E o passeio começa, escadas acima, junto à muralha fernandina que delimitava a cidade, protegendo-a "dos diabos do Norte"
- Piratas normandos e de outros eventuais invasores.
A subida é íngreme, mas Imanuel Aboab tem pressa: da Igreja de São João Novo para cima é território judeu, diz Balazão, precisando que foi por ali, na judiaria do Olival, que Aboab nasceu e foi criado pelo avô. Há gente à janela, e vem aí confirmação:
- É natural que ele nascesse aqui, porque nesta zona havia muitos "judaicos".
Até D. Manuel I os expulsar, pelo menos: quando Aboab nasce, o judaísmo já é um culto clandestino, e há muito que os grandes da comunidade, como Uriel Acosta, saíram do Olival. Isto que começa por ser uma história de coabitação transforma-se numa história de segregação, mas não por muito tempo. Descemos ao Jardim das Virtudes, ouvimos o rio Frio que ainda corre debaixo dos paralelos da cidade moderna
- Aboab, eu lembrar: mãe lavar roupa aqui
E daí vamos pela Rua dos Armazéns e pela Viela de Sant'Ana até à Rua Monte dos Judeus, onde o Porto do século XVI é o de sempre:
- O senhor come um pãozinho se eu lhe atirar daqui?
- Quer um bocadinho de regueifa?
Era aqui a segunda judiaria da cidade: tinha a sua própria sinagoga, o seu próprio cemitério. Hoje, no lugar onde os judeus enterravam os seus mortos, há um palácio com duas sereias à porta e uma freira com a chave de casa no bolso disposta a explicar ao grupo, Imanuel Aboab e Manoel Balazão incluídos, como vivem as religiosas da Casa Madalena Canossa e como em tempos um dos Portocarreros desta casa, suspeito de simpatias napoleónicas, foi arrastado até Miragaia e atirado ao rio.
Será muito depois do nosso tempo, no século XIX.
Kebabs com vinho verde
No nosso tempo, Imanuel Aboab e Manoel Balazão lutam com espadas de madeira nas Escadas do Monte dos Judeus, entre a Rua do Cidral de Cima e a Rua do Cidral de Baixo.
- Tu fazias de cristão, eu de turco
- Mas Arménia ganhar sempre
Se no século XXI de toda a tecnologia aquelas botas de biqueira revirada ainda são uma vantagem competitiva, imaginamos o brilharete que terão feito no século XVI.
- Ó Balazão, se dás um pontapé no rabo a alguém...
Mas isso ficará para outro dia. Já estamos outra vez na praia de Miragaia, futura Alfândega do Porto, e os barcos continuam a chegar. Um dia destes trarão turcos, e como já não haverá fronteiras, nem guerras religiosas (coisa medieval, que no futuro parecerá ficção científica), somos gajos para encontrar o judeu Imanuel Aboab e o cristão arménio Manoel Balazão a comer kebabs no sr. Ahmed, perto de Cedofeita.
E a brindar com Muralhas.
Os percursos
O percurso teatralizado Arménios e Judeus na Miragaia dos Séculos XV e XVI é um dos três agora lançados pelo Visionarium, numa parceria com a Material e com a companhia de teatro Radar 360º. Tal como as outras opções - O Porto barroco de Nicolau Nasoni e Cenas da vida do Porto por Júlio Dinis -, o preço para um participante individual é de 15 euros e as marcações devem ser feitas pelo telefone 256370634 ou através do endereço de email info.visionarium@aeportugal.com.
Os percursos duram duas a três horas e efectuam-se aos domingos, desde que se verifique a inscrição de um mínimo de 15 participantes. A médio prazo deverão surgir novos percursos nestes três eixos: Porto História, Porto Arquitectura e Porto Literatura.