Fugas - Viagens

Raquel Esperança

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Hoje o meu dia foi só sabura!

Caminhar pelo bairro lembra algumas aldeias portuguesas: pela falta de planeamento e arquitectura descaracterizada, pelos cães pachorrentos que saúdam quem passa. As casas são feitas à medida do gosto e das posses dos seus proprietários. Há moradias enormes, com varandas e portadas de alumínio, casas bem pintadas, de cores alegres, que noutro qualquer sítio do país valeriam muito dinheiro; ao lado estão outras inacabadas, com buracos a fazer de janelas, telhados de zinco e tijolo à vista.

Cada casa, por muitos andares que tenha, pertence a um único proprietário, como a "Vivenda Rocha Manuel, esposa e filhos", na Rua dos Reis. Normalmente, o dono vive no rés-do-chão e os descendentes ou os inquilinos nos andares de cima, que são alugados. Aquela que parece um enorme castelo, com ameias e pintada de cor-de-rosa, a antiga Igreja Apostólica do Arrebatamento de Jesus, foi toda transformada em quartos para alugar.

Grandes ou pequenas, imponentes ou simples, a maioria tem em comum um santo protector pintado nos painéis de azulejos, colados na parede principal da casa, por cima da porta da rua. São José, Nossa Senhora de Fátima, a Sagrada Família, São João de frente para a Igreja Metodista Weslyana, que funciona num résdo-chão.

O sabor da cachupa

No início, Heidir Correia teve alguma dificuldade em conseguir parceiros para o projecto, mas actualmente são os comerciantes que propõem colaborar com a associação. O bairro tem 26 restaurantes e os que fazem parte do projecto representam cada uma das ilhas cabo-verdianas. Os nomes dos estabelecimentos e a decoração de alguns deles evocam o arquipélago e as suas tradições, como o Restaurante Vulcão, representante da ilha do Fogo; ou os restaurantes Coqueiro e Cantinho do Sossego, que são cartões-de-visita da ilha de Santo Antão.

Aproxima-se a hora do almoço e os cheiros das cozinhas começam a misturar-se na rua, aguçando o apetite. O convite é para comer um prato tradicional como a feijoada ou a cachupa rica, um doce e, no final, beber um copo de grogue ou de ponche, duas bebidas típicas nas ilhas, ao som de música ao vivo. Quem gostar, pode depois dirigir-se à Mercearia Bom Paladar Familiar e comprar feijão pedra ou outros ingredientes para experimentar os pratos em casa.

Depois da visita feita e de uma boa refeição é possível dizer: "Hoje, o meu dia foi só sabura!". Sabura é o nome do projecto em crioulo e não tem tradução para português mas quer dizer qualquer coisa como "muito positivo", "bom". O programa pode terminar aqui ou ser reinventado: conversar com os habitantes, provar torresmos ou aprender a tocar o batuque ou a dançar hip hop. E, por fim, tirar várias fotografias junto aos grafittis mais bem pintados.

Despeça-se com um "até breve". Quem sabe se, na próxima vez, o programa não passa por uma noite com música ao vivo num bar nocturno da Cova da Moura, de preferência com os amigos, que os miúdos ficam a dormir em casa dos avós? "Não é preciso entrar no bairro acompanhado, não há problema. É muito raro haver um assalto", termina Heidir Correia.

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