Fugas - Viagens

António Carrapato

Passar a fronteira como os contrabandistas

Por Bárbara Wong

Nasceram numa Europa sem fronteiras. Para os mais novos, não é fácil imaginá-las com guardas a revistarem os carros. A dificuldade é maior quando se fala em contrabando e caminhadas nocturnas com sacas de café às costas

A subida faz-se quase a pique. As rochas de granito estão molhadas da chuva da noite e da humidade da manhã, por isso é preciso ir com cuidado para não escorregar. Depois de alguns minutos em silêncio, à procura do melhor sítio para pousar o pé, faz-se uma paragem a meio da subida. A respiração afogueada procura voltar ao ritmo normal. Os olhos percorrem o vale: de um lado é Espanha, do outro é Portugal. "Agora imaginem o que é fazer este caminho com 40 quilos de café às costas e de noite para não ser visto pela Guarda Fiscal", propõe António Garraio, que caminha à frente.

O contrabando, não só de café mas de outras mercadorias, parece ter existido desde sempre na zona fronteiriça, entre o Alto Alentejo e a Extremadura espanhola. Pelo menos faz parte das histórias de família de António Garraio, 47 anos, funcionário da autarquia de Marvão e que imaginou um passeio pedestre a que deu o nome de Percurso Romântico do Contrabando de Café.

Vestidos e com calçado adequado para grandes caminhadas, os caminhantes estão prontos para iniciar o percurso, que começa frente à igreja de Galegos, a poucos quilómetros da vila de Marvão. É ao pé da igreja que se deixa o carro estacionado. Depois, por uma estrada de terra batida, os pés escorregam na lama e o caminho faz-se entre muros feitos de granito, com as pedras bem encaixadas umas nas outras. De um lado e do outro há oliveiras, sobreiros e castanheiros. Lá ao fundo, por cima de Galegos, vê-se um pequeno aglomerado de casas; parecem estar longe e não imaginamos que seja possível chegar lá pelo nosso próprio pé.

Mas os olhos enganam. E a caminhada prossegue. Não há um caminho único do contrabando nem sequer havia caminhos, qualquer percurso podia ser usado para o fazer, o objectivo era não ser visto pela Guarda Fiscal. Por isso, a serra de São Mamede era percorrida de noite por pessoas que faziam do contrabando um modo de subsistência. Não era sequer algo muito organizado, por exemplo com carrinhas, como acontecia noutras regiões.

António Garraio recorda que o contrabando podia ser feito por qualquer um: pelo garoto que escondia um quilo de café nos calções ou pela idosa que passava uns ovos para o outro lado da fronteira, na altura da Guerra Civil espanhola, quando muitos espanhóis passavam fome.

Para os mais novos, que nasceram numa Europa sem fronteiras e para quem as fronteiras ficam nos aeroportos, é difícil imaginar que era preciso autorização para passar de Portugal para Espanha; que as bagagens era revistas; e que certos produtos tão banais quanto os de mercearia, os caramelos ou a farinha não pudessem atravessar a fronteira. "Tudo o que tivesse valor comercial passava", resume António Garraio.

Contrabando a sair pela janela

Hoje, como então, a linha da fronteira é visível nos marcos de pedra, de um lado, o "P" de Portugal, do outro, o "E" de Espanha. "Agora tenho um pé em Espanha, agora estou em Portugal. Espanha! Portugal! Espanha! Portugal!" A brincadeira dos mais pequenos, as corridas de um lado para o outro da fronteira, não param, às portas de Fontañera, uma aldeia que a grafia denuncia ser espanhola. A terra não cresceu em volta da fonte que a abastece, mas ao longo da estrada, em direcção à fronteira com Portugal, mostra António Garraio. Por causa do contrabando, acredita e fundamenta: as últimas casas, junto à fronteira, eram lojas e têm todas janelas para trás. "Os guardas fiscais podiam estar a beber uma cerveja e o contrabando a sair pela janela das traseiras", ilustra. Como só havia uma estrada, quando a guarda espanhola chegava à aldeia, os habitantes avisavam-se uns aos outros e assim que as autoridades chegavam junto à fronteira já não apanhavam ninguém.

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