Especial: 10 Viagens em Família
Não é difícil regressarmos à infância diante dos gamos. Eles são dóceis e bonitos, uns autênticos "bambis" saídos dos livros para os de palmo e meio. Deitados na relva, estes animais deixam-se contemplar pelos nossos olhos curiosos e derretidos. Estamos na Quinta da Paiva, em Miranda do Corvo, um espaço com cerca de 13 hectares, alguns dos quais ocupados por um jardim zoológico dedicado à vida selvagem que se distingue dos demais por só acolher espécies tipicamente portuguesas. Nada de animais exóticos. Muitas das crianças que visitam o lugar ficam encantadas com as raposas - afinal, elas, que também povoam as histórias da pequenada, existem mesmo e são ariscas.
Pedro Faria, engenheiro agrário que trabalha na quinta, é o nosso anfitrião. Conta-nos, espantado, que há imensa gente que nunca viu raposas, burros, javalis ou outros animais que existem no nosso país, assim tão perto. Sobretudo crianças. A Fugas não fez nenhum brilharete nesta matéria, quase foi preciso soletrarem-nos o nome de uns bicharocos chamados sacarrabos, animais que não só nunca tínhamos visto como nunca tínhamos sequer ouvido falar. Parecem doninhas ou furões...
Assim vale a pena. Sempre aprendemos que há mais vida selvagem para além daquela que vemos nos documentários da televisão e que conhecemos no jardim zoológico, quando o visitámos pela mão dos nossos pais, numa altura em que ainda não medíamos um metro sequer. Aí eram os leões e as girafas que nos faziam arregalar os olhos, mas afinal uma simples raposa ou uma lontra têm o mesmo efeito diante dos pequenos e dos mais velhos (ainda que tentemos disfarçar).
Pedro conta-nos ainda que, em Setembro, uma fêmea gamo deu à luz no parque. Antes, também os javalis já se tinham reproduzido e, na tarde em que fomos lá passear, pudemos comprovar que, no espaço reservado a estes animais, uma fêmea andava novamente a preparar um ninho para mais um parto. Enquanto nos fala dos nascimentos que acontecem na Quinta da Paiva, Pedro Faria vai atirando bolotas para aquela zona da floresta, destinada a estes animais fortes de focinho comprido, com duas narinas que mais parecem dois buracos negros apontados para nós. Eles, os javalis, aparecem a correr, todos juntos, aproximam-se rapidamente da cerca, afastam-se de repente. Não que queiram brincar, são um tanto ou quanto brutos, ainda que engraçados. Mas gostaram das bolotas que, por acaso, cobrem o chão da quinta.
Parque biológico
A Quinta da Paiva era mesmo uma antiga quinta de família, continua a contar Pedro Faria. Hoje está transformada num espaço polivalente. Tem um Museu Vivo de Artes e Ofícios Tradicionais, um conjunto de oficinas de artesanato onde trabalham pessoas com doença mental ou deficiência mental e/ou física, e um Museu da Tanoaria, uma homenagem aos tanoeiros de Portugal que mostra ao público uma colecção doada pelo médico Joaquim Leitão Couto, com diversas ferramentas usadas no ofício, bem como trajes, documentos e brasões. O espaço tem ainda um restaurante chamado Museu da Chanfana e várias infra-estruturas de lazer como um parque infantil, uma piscina ao ar livre, campos de jogos, um circuito de manutenção, um centro hípico e, o ex-libris da quinta, uma vasta zona dedicada à bicharada o Parque Biológico da Serra da Lousã -dividida entre a vida selvagem, numa área de cerca de 33 mil metros quadrados, e os animais da quinta -é a Quinta Pedagógica, onde existem as vacas, as cabras e os porcos.
A Quinta da Paiva Parque Biológico da Serra da Lousã tem, por isso, objectivos didácticos, mas não só. Tem também uma missão social que quer ver cumprida. Na Quinta da Paiva quase todo o trabalho é assegurado por portadores de doença mental ou com deficiência mental e/ ou física. São eles que tratam da limpeza, da alimentação, do bem-estar dos de quatro patas, entre muitas outras tarefas. A Quinta já venceu mesmo o primeiro prémio Nacional do European Entreprise Awards/ Prémio Internacional de Empreendedorismo na Categoria de Investimento Humano, atribuído pelo Ministério da Economia/ IAPMEI, em 2007.
O projecto resulta de uma parceria entre a Associação para o Desenvolvimento e Formação Profissional de Miranda do Corvo (instituição privada de solidariedade social, sem fins lucrativos) e o Município de Miranda do Corvo. Se decidir meter-se a caminho, saiba que pode optar por passear pelo espaço livremente, usufruir de forma calma, ao ritmo que quiser, ou optar por uma visita guiada, na qual pode escolher, entre outras, actividades como equitação. Há também programas especiais para grupos e escolas que incluem iniciação à equitação, exibição de engenho de água com tracção animal, passeios em carroça, entre outras possibilidades.
Três mil visitantes
Quando estiver a passear pela quinta, vai ouvir barulhos mais ou menos familiares depende do contacto que tiver com a natureza como o grasnar dos patos, o zurrar dos burros e o mugir das vacas.
Já viu um porco de raça alentejana? Nós vimos porcas que, por sinal, estavam "gordíssimas", segundo Pedro Faria. E veados? Já viu? Nós fomos um pouco mal recebidos por um macho que não apreciou nada a nossa presença. E gansos? Também vimos. Nós e os cerca de três mil visitantes que o Parque Biológico da Serra da Lousã já recebeu, desde que abriu, em Junho de 2009. Ouvimos patos, rãs. Só não vimos as lontras que costumam fazer um sucesso, mas neste dia estavam a dormir... Águias, milhafres, rolas, perdizes, cavalos, burros, cágados, cães (como o rafeiro do Alentejo, o simpático Napoleão, e o serra da Estrela, o já enorme em tamanho, mas pequeno em idade, Mondego). Mais? Ratos e ratazanas, esquilos e chinchilas, ouriços-cacheiros e ginetas. E os responsáveis ainda querem lá o lobo e o lince ibérico. Todos estes animais podem ser vistos com alguma proximidade, porque, embora estejam integrados em ambiente de floresta, vivem dentro de cercas, ainda que amplas.
Na quinta existe também um labirinto de frutos - quem quiser pode perder-se à vontade no meio de cheiros, folhas e flores. Trata-se de uma homenagem aos viveiristas da região. O labirinto tem cerca de 320 árvores de 21 espécies distintas, num espaço de 16 corrimões que ocupam um quadrado com 1000 metros quadrados. Ao lado, há um roseiral que ocupa uma área de cerca de 400 metros quadrados. E existe também um fluviário, uma série de aquários onde se podem ver várias espécies de peixes dos afluentes da região - o rio Dueça passa mesmo na quinta - como a carpa, o góbio, a perca, o pimpão, a truta, entre muitos outros.
Localização
A Quinta da Paiva situa-se nas proximidades da vila de Miranda de Corvo, a 25 quilómetros de Coimbra, a 20 de Conímbriga, a 14 de Penela e a oito da Lousã. Está próxima da EN 17-1 e da Estrada Nacional 342, a alguns minutos do centro da vila.
Coordenadas GPS Latitude: 40.081569 Longitude: -8.332025
Onde comer
Museu da Chanfana
É o restaurante da Quinta da Paiva. Lá pode saborear comida tipicamente portuguesa e regional. Plumas de porco preto, cabrito, bacalhau, bucho recheado, sarrabulho, chispe são alguns dos pratos. Há ainda sopa de veado, costeletas de veado... mas também pratos vegetarianos. Trata-se de um espaço que alia o que de mais tradicional existe na cozinha portuguesa à decoração contemporânea. Tel.: 239 538 445
Quinta da Paiva
3220-154 Miranda do Corvo
Tel.: 239 538 444
quintadapaiva@adfp.pt
http://www.quintadapaiva.pt/
Horário (Junho a Agosto 2011): 09h00 às 20h00
Preços (2011): criança de 3 a 12 anos 3€; adulto (13 a 65 anos) 4,50€; idoso (+65 anos) 4€. Preços especiais apara grupos e livres-trânsitos. Bilhetes família desde 10€.