Começámos pelo final (pela cafetaria, ao lado da loja), antes de irmos para a casa de partida, e ainda bem. Ainda não tínhamos entrado e já havia algum "feedback": o Centro Infantil de S. Mamede estava de saída e os tubarões tinham impressionado os visitantes. Houve alguém que afirmou ter até falado com um e com uma raia. O que eles disseram, ficamos sem saber, mas já íamos preparados: os tubarões são as vedetas.
O que descobrimos depois, foi o encanto e a simpatia das raias. E percebemos as razões do fascínio dos miúdos pelo Sea Life Porto: é um aquário, mas é, acima de tudo, um parque temático. Tudo está pensado para entreter os mais novos, apelando ao imaginário de livros infantis e de algum universo Disney esperámos até encontrar Ariel, a pequena sereia, mas tivemos de nos contentar com o Nemo ("nemos", há vários peixes palhaço) e com Neptuno e o seu tridente, num cenário que inclui "ruínas" greco-romanas. Há ainda um navio afundado com os baús dos tesouros e, para se conhecer um pouco da região onde este Sea Life (o 30.º da companhia Merlin Entertainment, que possui ainda a Legoland e o Madame Tussaud's, entre outros) está localizado, navegamos pelos socalcos do Douro e sob a Ponte D. Luís, até passarmos à pérgola da Foz, em direcção ao mar alto. Pelo caminho, testa-se a atenção e o conhecimento dos visitantes com diversas perguntas didácticas quem passa no "exame", tem direito a prémio.
Uma "viagem de descoberta e aprendizagem" é o que pretende ser o Sea Life, diz Ana Torres, directora de marketing. E também de sensibilização para a "vida nos oceanos". Para tal, foram transportados para o Porto, para um edifício construído entre o Parque da Cidade e o Atlântico, cerca de 5.600 peixes, de cem espécies diferentes, que foram espalhados por trinta aquários em 12 espaços distintos, pelos quais vamos passando sem dar conta.
Não encontrámos muita gente no final desta manhã de sexta-feira, no Sea Life. Sai a escola, e os visitantes avulsos mal se cruzam aliás, mesmo em dias de enchente, a regra é não estarem mais de 500 pessoas em simultâneo no Sea Life, e a entrada nunca é feita por mais de 25 pessoas ao mesmo tempo.
Encontrámos aquários tão coloridos que parecem saturados, peixes tão delicados que parecem ser de porcelana pintada, um "fóssil" de 300 milhões de anos, como o visitante Telmo Rodrigues sublinhará mais tarde ao seu filho. Mas o Francisco presta-lhe pouca atenção. Tem cinco anos e duas paixões: dinossauros e tubarões. "Os meus pais pensavam que era um parque de tubarões", diz-nos, um pouco desapontado, "não conheço estas espécies". Quais conhece? "O cabeça-de-martelo, o tigre, o areia, o azul...". Os tubarões, sempre.
A fauna do rio Douro
Por enquanto, ainda estamos no rio, água doce, portanto, e o oceano vem longe. E o rio é o Douro, as imagens dos socalcos de vinhedos nas paredes não deixam que esqueçamos a nossa geografia. Há rochas, árvores, plantas e aquários baixos onde desfilam trutas, góbios e barbos. Não é à toa que falamos destes três com eles, percebemos a importância da preservação do ecossistema, "os três complementam-se", resume Ana Torres. E mostra a tabela informativa, uma das muitas que acompanham o percurso.
Vamos circulando e espreitando por "escotilhas", que são a janela amplificadora para este mundo subaquático: a sensação é a de que os aquários são imensos, mas é quase um "tromp l'oeil", e é propositado para nos levar lá para dentro, aproximar-nos o mais possível daquilo que vemos. Enquanto pensamos nisto, surge o primeiro "quizz" (são 10 questões ao longo do percurso): "Que distância pode percorrer o salmão para fazer a desova?" São três as opções de resposta, que está algures nos placards informativos das redondezas.
"As questões abordam espécies, habitats e informação científica", explica Ana Torres, "achamos que esta forma de aprendizagem é mais interactiva e lúdica". A resposta certa é mil quilómetros, ou não fosse o salmão "uma espécie extremamente inteligente".
O salmão ficou para trás, e já nos vemos entre a madeira. Estamos num barco rabelo carregado de pipas de vinho do Porto e vamos descendo o rio entre trutas, pimpões, enguias que se exibem nos aquários em volta. Passamos sob a Ponte D. Luís e já estamos entre peixes "mais tropicais", cores exuberantes, habitantes mais constantes em paragens como a Madeira e os Açores. Detemo-nos no aquário onde "vive" um polvo. Esperamos e esperamos, porém ele não nos compraz com a sua aparição, e ficamos a olhar apenas para as rochas escuras onde ele, provavelmente, está camuflado. Do outro lado, linguados, anémonas e tainhas.
Já avistamos a pérgola da Foz e, num aquário, há redes de pesca, cordas, bóias, papagaios (de papel) no alto. Agora há pocinhas, piscinas rochosas e os animais estão ao alcance de uma mão molhada. Tocamos nos ouriços-do-mar e nas estrelas, observamos caranguejos a competir pela comida, vemos búzios, camarões e santolas, descobrimos lesmas que parecem pedaços secos de ouriços-cacheiros e os pepinos do mar.
Uma raia altiva
Entretanto, noutra parede, já é o fundo do oceano, que é como quem diz, o fundo do aquário maior. Os tubarões fazem a primeira aparição, mas é a raia americana que plana com a altivez de quem é dona deste reino de Neptuno sim, lá está a estátua no centro, coberto de musgos, e as colunas clássicas e murais por detrás. Este é o tanque oceânico, a jóia da coroa do Sea Life. São 500 mil litros de água por detrás de cinco centímetros de vidro vamos vê-lo em vários níveis, até à tona de água; aqui, nas profundezas, vemos o tubarão de ponta preta e o tubarão lixa, o corcovado, o cirurgião amarelo.
Por agora, entramos no casco de um navio afundado. Faz lembrar os filmes de piratas - não falta o baú do tesouro (com mais uma pergunta), mas não é apenas o efeito cénico que se pretende. Este é um habitat muito rico em alimento e é um abrigo, um escudo de protecção, sublinha Ana Torres. As águas são "mais tropicais" e os aquários são um festival de cores há até "corais" (os aquários foram desenvolvidos por uma equipa de escultores). Vemos o peixe-balão, que incha quando está assustado e tem espinhos, o peixe porco-palhaço, amarelo e com dentes; o xaréu de barbatana longa, espalmado com fios longos, é um brincalhão que vem direito a nós ("em cardume, fazem um efeito belo", nota Ana Torres); o peixe dragão-leão, que é lindo, branco e castanho, e também venenoso; o peixe-folha, alvíssimo com riscas delicadas que parecem desenhadas a tinta-da-china; o cirurgião-amarelo, com uma cauda que são pinças que parecem bisturis; o cangulo, que tem um "focinho" comprido e é solitário.
No anfiteatro, uma tela grande e bancos corridos de madeira, passa um filme-alerta contra a pesca comercial das baleias. Está vazio, como vazio está o aquário das alforrecas, logo a seguir "está em manutenção" e é apenas um buraco negro. Mais à frente, estão os peixes-palhaço (os "nemo") em convivência com anémonas "há um mutualismo: apesar dos tentáculos venenosos, a convivência com o peixe palhaço é bastante sadia", explica a guia) e novamente o grande aquário.
Agora, Neptuno olha-nos de frente, mas nada pode contra o charme da Zuleika, uma garoupa com tiques de top-model, que não resiste a uma máquina fotográfica: enorme, fica imóvel durante longos segundos, até se entediar. Os tubarões aqui parecem maiores: o tubarão-lixa é um animal de fundos (ou meias águas), pode estar parado, diz Ana Torres, o de-pontas-negras, em compensação, "dorme reduzindo os movimentos vitais e com isso descansa".
Seguimos como se estivéssemos debaixo do oceano, e encontramos um festival de laranjas, brancos e pretos: são os peixes-palhaço em toda a sua glória e um nadar trapalhão. Mais à frente, ficamos a saber que o maior cardume de peixes registado foi de arenques, três mil milhões.
A voracidade do tubarão lixa
Já estamos na parte superior do aquário principal e os tubarões andam por ali até o tubarão lixa deixou os fundos para se vir alimentar e é voraz, "quanto mais tem, mais come". Está a ser experimentado, aliás, um novo método de alimentação, uma nova estação de alimentação que é uma abóbora (por enquanto está pendurada, mas o objectivo é que fique depositada em baixo) com ranhuras, e que deverá ser mais utilizada com os peixes mais pequenos "os maiores são facilmente alimentados".
Qual a sensação de tocar na pele de um tubarão? A resposta vem mais à frente, palpável. Lixa autêntica. E que tal testar a força das suas mandíbulas? Um jogo de pesos: o tubarão tigre move três mil quilos por centímetro quadrado. Mais tubarões: a exposição temporária (para o ano, o tema serão as espécies venenosas) é dedicada a eles. A ideia é "desmistificar o tubarão como assassino da espécie humana", diz Ana Torres (logo, esquecer o filme de Spielberg).
Voltamos à visita e passamos a uma sala mais pequena, mais peixes tropicais. O peixe-vaca tem corninhos e é verde e amarelo; o peixe-anjo, espalmado, é de um azul que é quase lilás e amarelo; as estrelas-do-mar, vermelhas e cinza, parecem artesanato. Um pequeno aquário para uma grande quantidade de fuzileiros, prateados, olhos enormes e barbatanas pretas e brancas: "A ideia é perceber como funcionam em cardume", explica a guia. E, de repente, tantos cavalos-marinhos juntos, serenos e verticais, em diversos aquários, de diversas cores e feitios. "São curiosos", reflecte Ana Torres. Têm a cabeça de cavalo, a cauda pênsil, camuflagem como um camaleão, olhos de lagarto e bolsa de canguru.
Atravessamos o oceano para chegar aos trópicos. Aqui a paisagem tropical é a Baía das Raias, uma "praia" com palmeiras, rochas, guarda-sóis de palhinhas. O tanque é baixo e está aberto às nossas mãos. As raias, brincalhonas, respondem parecem dar às "asas" quando se deslocam elegantemente e, na raia-focinho-de-vaca, branca e cinza, a semelhança com o bovídeo é eloquente.
Imóvel, o caranguejo-ferradura é história pura: um fóssil vivo, 300 milhões de anos sem qualquer evolução, 10 olhos ("oito por baixo, os de cima com visão ultravioleta"). Parecem pedras, ou esculturas de cérebros. Por detrás, há grutas baixinhas, onde o Francisco, de cinco anos, observa pelas "escotilhas" os seus animais preferidos, os tubarões (traz tubarão branco na mão). Aqui existe um viola e um ponta negra. Não tem dúvidas: "No oceanário, as raias são maiores e os tubarões também". Na última sala, a da preservação, Francisco "entra" no aquário para se sentir como peixe na água: há uma cúpula e, depois, é só água e peixes tropicais à volta. A ideia, aqui, é alertar os visitantes (e conseguir o apoio das entidades locais) "para as campanhas de conservação e de protecção da fauna e flora da nossa costa".
A saída é na loja, que logo se transforma em café e tem grandes janelas abertas sobre o mar, ali do outro lado da rua. Telmo Rodrigues e a mulher, Carla Casimiro, descansam enquanto o pequeno Francisco brinca num pequeno parque infantil interior. "Foi o melhor dia para virmos, não está muita confusão como ao fim-de-semana". Já tinham estado à porta e desistido, mas, na véspera, quando disseram ao Francisco que vinham, já ninguém o segurou foi logo fazer pesquisas na internet. "Ele gosta de coisas muito grandes e com muitos dentes". Na prática, significa que o Francisco pouco ligou aos aquários com peixes pequenos e procurou sempre os tubarões. E as raias, lembra o próprio: "Gostei das raias. Pareciam aviões, como o meu pai me disse". Tenta sair do pequeno labirinto e tem espalhados no chão o seu tubarão branco com nova companhia: mais seis pequenos tubarões.
A loja é incontornável. É colorida e isso diz muito. Há imensos animais (alguns nem sequer "vivem" no Sea Life), em vários feitios e materiais, de peluche a borracha (para brincar no banho): tubarões, tartarugas, focas, caranguejos, cavalos-marinhos, raias, polvos, caranguejos, enguias. Estão em mochilas, lápis, canetas, borrachas, t-shirts, mealheiros, globos. E, para os aspirantes a piratas, não faltam os chapéus, os lenços (com caveiras), os ganchos, os baús de tesouro, os barcos...
Telmo, Carla e Francisco vão almoçar agora. Voltam às 16h00, à Baía das Raias, para assistir à alimentação das raias e dos tubarões, claro.
Sea Life Porto
1ª. Rua Particular do Castelo de Queijo
4100-379 Porto
Tel.: 22 617 52 16
E-mail: marketing.porto@merlinentertainments.biz
Horário: aberto todos os dias, excepto Natal. De segunda a sexta-feira, das 10h00 às 18h00 (última visita às 17h15); sábado e domingo, das 10h00 às 19h00 (última visita às 18h15).
Preços: criança (4 a 12 anos), €8,20; crianças até aos 3 anos, grátis; adulto (mais de 12 anos), €10,95; sénior (mais de 55 anos), €8,20.