Vancôver é a cidade na boca do "jet set" internacional, dos criativos e dos boémios ocidentais. Provavelmente também de meio mundo que nasceu depois de 1980, na China e arredores. Em qualquer dos casos, a maior cidade da Costa Oeste do Canadá está definitivamente na moda. Presença regular nas votações dos melhores lugares para viver, mas também para visitar, Vancôver está "condenada" a ver a sua celebridade crescer quando os olhos do mundo convergirem para os Jogos Olímpicos e Para-olímpicos de Inverno, que se presta a acolher nos inícios de 2010.
O magnetismo de Vancôver começa pelo esplendor do cenário. Falamos de uma cidade-península com uma frente marítima espectacular, enquadrada por praias e florestas luxuriantes, coroada por imponentes montanhas de picos nevados. Não admira se a publicidade sugere aos visitantes que passem a manhã a esquiar e a tarde a banhos de mar, antes de uma noite de hedonismo urbano. Até porque se a moldura natural é excepcional, o recheio urbano não lhe fica atrás. Vancôver é uma cidade jovem, que nem sequer completou século e meio de existência. Pouco mais que uma modesta base industrial, ainda em meados dos anos 70 do século passado, conheceu nas três últimas décadas um crescimento prodigioso, que tem por face mais visível a floresta de torres envidraçadas que não pára de crescer um pouco por toda a baixa, mas sobretudo na sua esplêndida frente de mar.
A realização de grandes eventos internacionais, a Expo 86 e agora os Jogos de Inverno, atraiu uma população também ela jovem, educada e ligada a profissões liberais. O género de demografia que frequenta estabelecimentos de massagens, ginásios, cafés "lounge" e mercearias exóticas, certificando Vancôver como um paraíso de consumo, entre o requintado e o alternativo. Depois é uma cidade de emigrantes, como tantas outras cidades do Canadá. A diferença, porém, é que cerca de 40 por cento da sua população é de origem oriental, fluxo acentuado com a devolução de Hong Kong à China, em 1997. Mas, aí está, a população que emigrou da antiga colónia britânica foi sobretudo uma elite que veio enriquecer Vancôver, a começar pelo magnata chinês que comprou os melhores terrenos da Expo 86, na enseada de False Creek, para construir a faustosa urbanização de Concorde Pacific.
Há gente incomodada com a percentagem de orientais e tensões latentes entre as comunidades que integram o caleidoscópio social de Vancôver. Uma cidade onde também se vê muita gente nova a viver na rua com a "mobília" em carrinhos de supermercados. Mas as tensões raciais e os desequilíbrios sociais são por enquanto males menores comparados com outras metrópoles e a imagem que fica de Vancôver é sobretudo a de uma cidade jovem, risonha e próspera. É, para já, a cidade que mais se aproxima da utopia descontraída e refinada, meio chique meio "new age", com que sonha meio mundo.
Cidade-mosaico
Vancôver é por excelência uma cidade-mosaico, com várias cidades lá dentro e uma variedade de zonas "nobres", não resultando fácil dizer qual merece mais atenção. O ponto de partida mais óbvio será Gastown, onde Vancôver nasceu em torno de um "saloon" aberto em 1867. A noção de centro histórico deve, no entanto, ser relativizada, quando hoje Gastown é sobretudo um distrito de negócios sediados em torres modernas. Pelo meio conserva, no entanto, alguns edifícios dignos de qualquer "tour" de arquitectura moderna.
Cabe destacar o antigo Hotel Europa, espigão de planta triangular na esquina das ruas Alexandre e Powell, construído em 1909 como uma espécie de duplo do famoso Fratiron de Nova Iorque; a Sun Tower, arranha-céus de vistosa cúpula acobreada, erguida em 1912 para sediar o "Vancôver Sun" (100, W. Pender); e sobretudo o Marine Building, torre de escritórios desenhado em estilo Art Deco em 1930 (355, Burrard St.) com preciosas decorações marinhas. Um par de edifícios mais recentes completam o ramalhete, nomeadamente o Harbour Centre (515 West Hastings), peça de resistência do Brutalismo, coroada pelo Vancôver Lookout, que oferece vistas a 360º sobre a cidade e imediações; e o Canada Place, centro de congressos edificado para a Expo 86 com um telhado que recria as velas ou as ondas do mar. O passeio marítimo que o circunda é também um excelente balcão sobre a enseada de Burrard, animada pelo constante tráfico de hidroaviões, caiaques e todo um sortido de embarcações.
Outro distrito histórico é o de Chinatown, que começou por acolher os emigrantes orientais durante a febre do ouro de meados do século XIX, mesmo antes de a cidade existir. Hoje, a comunidade chinesa prefere viver noutros lados, sobretudo na cidade satélite de Richmond, enquanto Chinatown virou zona de "shopping" e lazer. Uma fantástica gama de lojas e de restaurantes tradicionais, porventura os melhores da China-fora-da-China, alternam com galerias de arte e boutiques de jovens criadores de origem chinesa, justificam plenamente a visita.
Das docas à fábrica de sonhos
A península onde nasceu Vancôver e a mancha urbana que dela derivou para sul são separadas por uma enseada protegida, chamada False Creek. É nas suas margens que mais se tem desenvolvido a revitalização da cidade, a começar por Granville, pequena ilha criada artificialmente para fins industriais, na cabeça meridional da enseada. Desde finais dos anos 70, fábricas e armazéns foram sendo reconvertidos em espaços de lazer, centrados num mercado de charme, que oferece desde bancas de compotas a cafés biológicos, passando por todas as cozinhas do mundo. Nas redondezas há galerias de arte, salas de espectáculos, ateliers artísticos, casas de artesanato e de tudo um pouco, menos lojas corporativas, que aqui não são admitidas. Aos fins-de-semana, os principais cruzamentos, e sobretudo os terraços de madeira que bordejam o mercado, servem de palco a uma variedade de espectáculos circenses, que acentuam a atmosfera festiva da ilha. Granville é a ponta sudoeste do passeio de madeira que bordeja toda a angra de False Creek, obra realizada na maior parte para a Expo 86, mas só agora completa para os Jogos de Inverno. São quase cinco quilómetros que se podem percorrer a pé, de patins ou de bicicleta, ou atravessar numa das pitorescas cascas de nós que a toda a hora cruzam as águas da enseada é, em qualquer caso, um dos melhores passeios de Vancôver. Granville começa por levar à nova Aldeia Olímpica, que depois dos Jogos de Inverno dará lugar a um bairro com capacidade para 12 mil residentes. Na curva oriental da enseada ficam dois ícones da cidade herdados da Expo 86: o BC Place, cogumelo gigante que será também um dos principais cenários dos Jogos, e o Science World, a maior cúpula geodésica do mundo (47m) da autoria de Buckminster Fuller.
Na ponta noroeste da enseada, ou seja, em frente a Granville, estende-se Yaletown, vasta zona portuária requalificada para a Expo 98, que é hoje o sector residencial mais selecto da cidade. Acolheu 40 mil habitantes nos últimos dez anos, na maior parte jovens quadros entre os 20 e os 40 anos de idade com muitos zeros nas folhas de ordenado. Vivem em velhos armazéns portuários transformados em "lofts", mas sobretudo em condomínios de torres envidraçadas com árvores plantadas nos terraços. Podem ser vistos a fazer "jogging" e a passear cães minúsculos nas redondezas, a almoçar no mercado gourmet Urban Flare, ou então, à noite, a jantar em esplanadas de restaurantes chiques e à porta de discotecas exclusivas, sobretudo entre a Hamilton e a Mainland Street. Yaletown é também um óptimo destino para ver montras topo de gama, incluindo lojas de cosmética com os seus próprios arrumadores de carros.
Outras direcções a explorar são o West End, sobretudo a sua "aldeia gay" centrada em Davie Street, onde se alinham um punhado de restaurantes e lojas de decoração ultra fantasistas, e o troço meridional da Main Street, mais conhecido por soMA, que antes era a zona de má vida e hoje é o "fashion district" da cidade, repleto de lojas de roupa de jovens estilistas canadianos. Depois há Commercial Drive, artéria principal da antiga Little Italy, agora o bairro da grande misturada alternativa e sobretudo dos activistas antiglobalização. Um distrito conhecido tanto pela qualidade dos restaurantes etíopes como pelos cafés onde se consome marijuana à moda de Amesterdão, ou ainda por essa coisa rara na América que são os festivais de rua sem carros.
Melhor que entral Park?
Vancôver dispõe de um dos mais fantásticos parques urbanos à face da terra. Chama-se Stanley Park e ocupa toda a ponta nordeste da península 400 hectares de verde, cobrindo uma superfície um pouco superior ao nova-iorquino Central Park. A maior parte são manchas de floresta intacta, incluindo cedros e sequóias monumentais, zonas ajardinadas (sempre com um toque 'chinese style'), lagos e lagoas com vida selvagem, tudo rematado por um cordão de praias esplêndidas. A principal via de circulação é o passeio interdito a carros, colado ao paredão construído dos mais 8 quilómetros da frente marítima da ilha. A maior parte das infra-estruturas desportivas concentra-se a sudoeste, na baía e Coal Harbour, troço em que o dito passeio oferece as melhores vistas sobre o centro histórico da cidade.
Stanley Park é o parque mais conhecido, mas está longe de ser o único de Vancôver, que é também uma cidade de excelentes zonas verdes. Cabe destacar os Jardins Botânicos de Van Dusen, 22 hectares de terra mesmo ao lado da Estação de Comboios, arrancados aos especuladores imobiliários pelo empresário que lhe deu nome, para exibir 7500 variedades de plantas. Ou ainda o Dr. Sun Yat-Sen Classical Chinese Garden, uma extrapolação americana dos jardins chineses, que quando chove exibe uma majestosa cortina gotejando do telhado do seu pagode central. Depois há as praias, que são muitas e muito boas, sobretudo as que se encontram a sul da cidade, no Parque Regional de Pacific Spirit. Entre estas cabe realçar Wrech Beach, a maior praia do estado em que os fatos de banho são opcionais (6,5 km de comprimento).
Falta dizer que Vancôver é também uma cidade de cultura, dotada de excelentes museus e uma intensa agenda de espectáculos, suficientes para ocupar o visitante por vários dias. Havendo que eleger um só museu, a aposta mais óbvia será a Vancôver Art Gallery, antigo tribunal no centro da baixa (750 Hornby St), remodelado em 1984, para expor a melhor colecção pública de arte canadiana da Costa Oeste. Com mais tempo impõe-se também visitar o Museu Marítimo (1905, Ogden Av.), que celebra a história portuária da cidade, e o Museu de Antropologia da Universidade, que alberga a melhor colecção de arte indígena da região. Vancôver é igualmente uma cidade de galerias comerciais e até se diz que a melhor do Canadá é a Catriola Jeffries, situada fora de circuito, na parte oriental da cidade.
Informações
Cidade de Vancôver: http://www.tourismvancouver.com/
Turismo da Columbia Britânica: http://www.hellobc.com/
Jogos Olímpicos de Inverno: http://www.vancouver2010.com/
Como ir
A KLM liga Lisboa e Vancôver com escala em Amesterdão, a partir de 738€. Uma das obras dos Jogos é uma nova linha de metro aéreo, já em funcionamento, que liga a baixa da cidade e o aeroporto em 22 minutos.
Bilhetes
Em Outubro passado foram postos à venda 1,6 milhões de bilhetes para os Jogos Olímpicos de Inverno e 250 mil para os Para-olímpicos. O melhor endereço para informações sobre a venda dos bilhetes é o "site" www.Vancôver.com que, no entanto, só os vende a residentes no Canadá. Os espectadores de outros países devem comprar bilhetes através do comité olímpico do respectivo país.
Onde ficar e comer
As reservas para os hotéis da cidade durante os Jogos estavam já esgotadas em Junho passado, estando a edilidade a sugerir aos residentes que se disponibilizassem para alojar mais visitantes. Assim sendo o melhor será consultar a Internet.
De 12 a 28 de Fevereiro
Os jogos, o programa e as polémicas
Os XXI Jogos Olímpicos de Inverno inauguram a 12 e encerram a 28 de Fevereiro de 2010, seguidos dos Jogos Para-olímpicos de Inverno, de 12 a 21 de Março. Serão os terceiros em território canadiano, mas os primeiros no estado da Columbia Britânica. São esperados 5500 atletas, representando 80 países, embora o número possa ainda crescer. Estão previstos 86 eventos em 15 modalidades de setes desportos. As competições decorrerão em recintos desportivos de Vancôver, das cidades vizinhas de Whistler e de Richmond, bem como na estância de neve da montanha de Cypress.
A organização do evento envolveu a construção de nove equipamentos, nomeadamente o Centro Olímpico, no Parque Rainha Elisabete de Vancôver, destinado a acolher as provas de curling, e o Richmond Olympic Oval, que receberá a patinagem de alta velocidade. As restantes competições terão por cenários recintos já existentes, mais ou menos remodelados para o efeito. Em Vancôver, no Canada Hockey Place decorrerão as provas de hóquei no gelo, no Pacific Coliseum as de patinagem artística e de velocidade em pista curta, no centro Doug Mitchell Thunderbird o torneio feminino de hóquei do gelo. Para Whistler, ou melhor, para o seu Centro de Sliding, estão agendadas as provas de luge, bobsleigh e skeleton, para a sua estação de Creekside a competição de esqui alpino, enquanto o Parque Olímpico da mesma cidade será cenário do mais vasto sortido de desportos dos jogos (biatlo, saltos de esqui, cross-country e combinado nórdico). A estância de montanha de Cypress vai ser o centro de esqui estilo livre e de "snowboard".
Um vasto programa de Olimpíadas Culturais complementa a agenda desportiva. Duram 60 dias, de 22 de Janeiro a 21 de Março, haverá 600 espectáculos, em 60 salas diferentes, incluindo 70 projectos criados para o evento, sobretudo de música e de dança. Na música, o destaque vai para os concertos que promovem parcerias inéditas, como é o caso da homenagem a Neil Young (maior estrela rock que o Canadá já produziu), levada a cabo por um elenco que inclui Ron Sexsmith, Joan as Policewoman e os Broken Social Scene, sob a batuta do produtor Hal Willner. Outros espectáculos já anunciados são "Delusions", de Laurie Anderson, e "Tundra Songs", do Kronos Quartet. Do programa de dança destacam-se as actuações da bailarina de flamenco Maria Pagés, da escola de meninos de rua Spirit of Uganda e da trupe Cloud Gate de Taiwan. Outra vertente em destaque nas Olimpíadas Culturais é a das artes digitais, que dará lugar a uma espécie de festival dentro do festival chamado Live Code, onde se anunciam desde actuações de DJ a espectáculos que combinam o audiovisual e pirotécnico, passando por experiências de dança interactiva.
A Columbia Britânica ficará certamente a ganhar com os Jogos de Inverno, mas o evento não é isento de custos. Os detractores denunciam os mais de 580 milhões de dólares canadianos desembolsados pelos contribuintes, bem como os danos ambientais provocados por obras em áreas sensíveis, como a zona húmida de Eagleridge Bluffs, seriamente afectada pelo alargamento da auto-estrada que a atravessa. Em sua defesa, a organização argumenta que estes serão os Jogos Olímpicos de Inverno mais verdes de sempre, a começar pelos novos equipamentos construídos para o efeito, todos já galardoados com prémios de sustentabilidade.