North Berwick é sinónimo de praia para quem nasceu e cresceu em Edimburgo. Já a maior parte dos forasteiros nunca ouviu falar. Há mil razões para visitar a capital escocesa, mas mergulhar nas águas geladas do Mar do Norte não é por certo uma delas. Também não será uma prioridade para os escoceses - a diferença é que para eles ir à praia não é forçosamente cumprir temporada de banhos. É mais dar longas caminhadas à beira-mar, jogar ténis ou golfe, apanhar um barco para ver os pássaros e, para acabar em beleza, beber uma taça de chá quente, acompanhada de sconestipicamente escoceses.
São prazeres nacionais e tradicionais, dos quais North Berwick constitui uma espécie de quintessência - e só por esse pitoresco justifica que lhe seja dedicado o Grand Day Out, o dia de excursão fora de portas, numa estadia com mais tempo em Edimburgo. O que começou por ser uma pequena povoação portuária na margem sul do estuário do Filth (rio) of Forth evoluiu no século XIX para um local chique de veraneio, que chegou a ser conhecido como "a Biarritz do Norte". Claro que depois disso cresceu e se popularizou, mas nunca ao ponto de se descaracterizar. Agora mesmo mantém uma certa aura fin-de-siècle e uma qualidade de vida que seduz quem vive em Edimburgo. Casais com crianças, desportistas e terceira idade gostam de lá passar o dia, mas só gente de boas famílias ou que factura muito acima da média se pode dar ao luxo de ter lá morada.
Livre de corporações
Na frente de mar desenham-se duas longuíssimas baías de areias douradas, divididas por um promontório rochoso que desenha um arco para a esquerda, o que produz um porto natural. Foi neste último que nasceu, no século XII, o cais de abrigo e à sua volta o primeiro núcleo habitado de North Berwick -
assim chamado para se distinguir de Berwick-Upon-Tweed mais a sul, a que na Idade Média os escoceses chamavam Berwick do Sul.
Pouco resta desse passado mais remoto, à excepção da singela igreja de Auld Kirk Green, onde costumavam julgar (antes de queimar) bruxas. Em contrapartida, os antigos armazéns portuários foram conservados e acolhem agora os serviços do Clube de Iates, nas traseiras de uma fila de casas de pescadores, onde a roupa ainda é secada em estendais, à beira do paredão. Mesmo se o antigo e a sua recriação se confundem, há um certo perfume a velha aldeia piscatória que não se perdeu em North Berwick.
De ambos os lados do núcleo original arrancam quarteirões de elegantes casas vitorianas - de dois e três andares, em pedra, com altas chaminés e quintais floridos. À medida que nos afastamos daquele núcleo e caminhamos para as extremidades do areal, as casas tornam-se mais esparsas, dando lugar a prados e campos de golfe. North Berwick é, na verdade, um dos "sítios" mais emblemáticos do golfe escocês desde 1832 e foi daqui que saíram alguns dos históricos deste desporto, que o difundiram nos quatro cantos do mundo. Estes campos de golfe são numa experiência única, não apenas pela localização em balcão sobre o mar, mas também porque se encontram retalhados por espaços de periferia urbana, entre vivendas, muros e outros acidentes, que tornam a prática do desporto tão invulgar quanto exigente.
O perfume a estância de praia fora de moda domina igualmente a rua principal, onde se destacam estabelecimentos como o salão de chá Tiffany e a casa de doces Sugar Mountain, definitivamente ancorados num imaginário de nostalgia balnear circa 1850. Depressa se percebe que não apenas esses, mas todos os negócios da High Street têm proprietários independentes. Que é como quem diz, neste recanto da costa escocesa não entram franchising de corporações estilo McDonald"s ou Starbucks.
Na ponta do núcleo antigo há, no entanto, um edifício cheio de ângulos e uma arquitectura contemporânea, feito para marcar a diferença em relação ao casario antigo. É o Centro de Aves Marinhas da Escócia, uma das obras do Milénio (inaugurou em 2000), que depressa ganhou estatuto de maior atracção da cidade. O principal chamariz é o mosaico de ecrãs gigantes que retransmitem em directo imagens captadas por uma dezena de câmaras, estrategicamente colocadas em várias ilhas do estuário.
Santuários de aves marinhas
As chamadas Ilhas do Forth acolhem milhares de aves, a maior parte na metade mais quente do ano, quando muitas delas entram em ciclo reprodutor. Tem muito a ver com a enorme profusão de vida marinha no estuário do rio, onde se misturam as águas temperadas vindas de sul com as águas geladas procedentes do Árctico.
Por estas águas circulam baleias, golfinhos e leões-marinhos, que frequentemente também desfilam na frente das câmaras do centro. Para tornar as coisas mais interessantes, essas câmaras podem ser remotamente controladas pelos visitantes, um dispositivo que permite, por exemplo, visualizar aves marinhas recém-nascidas como se estivessem à mão de semear, sem que elas cheguem a sentir-se observadas.
Atenção especial é atribuída às duas ilhas que se recortam ao largo de North Berwick. Craig-leith domina as vistas frente à baía oriental da cidade e é poiso tradicional dos papagaios-do-mar. Não serão uma espécie em extinção a nível mundial mas a colónia local está a diminuir a um ritmo preocupante. Eram quase 30 mil pares que lá procriavam há duas décadas, agora são apenas cinco mil, o que se justifica pelos invernos mais quentes que exponenciam o crescimento da vegetação rasteira, dificultando as entradas e saídas das tocas que servem de ninhos a essa espécie de pinguins voadores.
A ilha mais famosa deste troço oriental da costa escocesa é, no entanto, Bass Rock, cúpula vulcânica que se eleva do mar, cinco quilómetros a oriente do centro da cidade. Já foi habitada - foi fortaleza e prisão, ainda tem um farol -, conservando-se há séculos no espólio da família Dalrymple (de que descende William, um dos escritores de viagem mais credenciados da actualidade). Agora, no entanto, serve exclusivamente de hotel aos gansos-patola, que nela marcam encontro entre Fevereiro e Outubro de cada ano para acasalarem e reproduzirem-se. Chegam a ser mais de 100 mil, o que faz de Bass Rock a maior reunião do mundo dessa espécie de aves.
A concentração de gansos-patola, mais as quantidades industriais de matérias fecais que produzem, explica que a ilha pareça branca como a cal a quem a contempla à distância. O Centro de Aves Marinhas da Escócia também organiza excursões de barco à volta das ilhas (quando o mar o permite, sempre sob reserva) e tem o exclusivo de atracar em Bass Rock para (muito esporádicos) safaris fotográficos.
Castelos e vulcões
Bass Rock tem uma formação geológica semelhante a North Berwick Law, o cone quase perfeito que se desenha nas costas da cidade. São os derradeiros testemunhos da intensa actividade vulcânica que ocorreu nesta parte da Escócia há 300 milhões de anos - e da qual também resultou, entre outros, o penhasco sobre o qual assenta o Castelo de Edimburgo.
North Berwick Law tem 187 metros de altura e um trilho que o vai lentamente circundando em espiral. Subi-lo constitui um excelente exercício físico, premiado à chegada ao topo pelo melhor miradouro sobre a cidade e arredores. Vistas que, convém acrescentar, são enquadradas por um arco de gosto bastante duvidoso, que durante séculos foi formado por dois dentes de baleia, mais recentemente reconstruídos em fibra sintética.
Outro local imperdível por estas bandas é Seacliff, praia que se encontra cerca de oito quilómetros a oeste da cidade. As praias de North Berwick são fotogénicas, mas são urbanas, ao passo que esta é privada e muito menos frequentada (paga-se 3€ para lá entrar). Parece completamente selvagem, mas integra um surpreendente porto escavado nas rochas, além de ruínas de um pequeno castelo e de uma mansão. Também oferece vistas privilegiadas sobre a supracitada ilha de Bass Rock, que fica mesmo em frente, e o Castelo de Tantallon, um dos ícones mais românticos do litoral escocês.
Tantallon dir-se-ia saído de um romance céltico, uma mística que tem muito a ver com a sua espectacular localização sobre um penhasco, defendido por valetas a três quartos e no restante pelo mar. Construído em 1340, era a residência fortificada da família Douglas, barões de Angus, e visitá-lo hoje é a abrir uma longa história de resistência escocesa ao invasor inglês. O mesmo se poderá dizer do Castelo de Dirleton, outra fortificação medieval excelentemente conservada, esta na direcção inversa, cerca de oito quilómetros a oeste de North Berwick, pela antiga estrada para Edimburgo. Se a estância balnear na moda no século XIX é hoje uma cidade de charme e nostalgia escocesa à beira mar, estes castelos são lembretes espantosos, quase irreais no seu estado de preservação, da sua notável herança medieval.
INFORMAÇÕES
Como ir
North Berwick fica na região chamada de East Lothian e esse é também o nome da linha que liga a cidade litoral à estação de Waverly, no centro de Edimburgo. Os comboios correm de hora a hora em ambos sentidos, sendo mais frequentes ao princípio e ao fim do dia. A viagem dura cerca de 45 minutos e é parte da diversão, quando as carruagens são antigas e passam por uma paisagem rural com o mar ao fundo, que é do mais pitoresco que tem a Escócia.
Onde ficar
North Berwick está bem servida de estabelecimentos bed&breakfast. Algumas sugestões:
The Glebe House
Law Road
Tel.: 0044 1620 892608
www.glebehouse-nb.co.uk
Mansão classificada, construída em 1780, grande relvado, zonas ajardinadas, vista de mar. Duplos à volta dos 100€
The Wing
13 Marine Parade
Tel.: 0044 1620 893162
www.thewing.co.uk
Vivenda nascida na época de ouro do turismo de North Berwick (1861), frente à praia oriental, a dois passos da rua principal. Só elogios no Tripadvisor. Desde 50€
Belhaven
Tel.: 0044 1620 983009
www.belhavenhotel.co.uk
Situação espectacular em balcão sobre o campo de golfe, a 50 metros da praia ocidental. Aberto em 1935, actualmente fechado para obras.
Onde comer
Em High Street há uma série de estabelecimentos que servem sopas, sanduíches, saladas e bolos caseiros, perfeitos para fazer uma refeição ligeira numa excursão de um dia a North Berwick. Recomendam-se a Tiffany"s Tea House, o Buttercup Cafe, o Charlie"s e o Zanzibar.
O que fazer
Se for com crianças, sobretudo se for fã do Concorde, não deve perder o museu dedicado ao único exemplar escocês. Fica a meia dúzia de quilómetros da cidade, no East Fortune Airfield. Tel.: 0044 1620 897240.
Informações
Turismo: www.visitscotland.com | www.undiscoverdscotland.co.uk
The Scottish Seabird Centre: Tel.: 0044 1620 890202 | www.seabird.org
North Berwick Golf Club: Tel.: 0044 1620 895040 | www.northberwickgolfclub.com
Tantallon E Dirleton Castle: www.historic-scotland.gov.uk
A Fugas viajou a convite do Turismo Britânico