Fugas - Viagens

Ao sabor de uma suave "bebedeira"

Por Mário Lopes

Foi a primeira experiência de Mário Lopes a bordo de um navio de cruzeiro, o MSC Poesia. Viu o teatro e o casino, passou por spas e ginásios, bebeu o bom vinho italiano, provou sushi japonês - e refugiou-se na varanda da cabine, esquecido de tudo e com o oceano como bom e único companheiro. Relato impressivo de quem se estreia no mar.

É bonito ver Lisboa desta perspectiva, 60 metros acima da linha de água. No convés, silencia-se a animação e os acrobatas de suspensórios e os malabaristas terminam os seus números. Os passageiros abandonam as espreguiçadeiras e sobem em calções e t-shirt para os decks superiores, onde o vento sopra mais forte e a paisagem melhor se revela. Lá vai Lisboa. O estuário torna-se mar, lá vai o Bugio, e o MSC Poesia abana suavemente nas ondas, enquanto o corpo se habitua àquele ondular e se entrega a uma gentil "bebedeira" de movimentos.

Se existe romantismo associado às viagens de cruzeiro, e garantem-nos que sim, ele nasce destes momentos: o prazer da viagem, o abandono à viagem com uma cidade bonita que desaparece no horizonte até que, sozinhos no mundo (sonhemos) tudo se torna mar em volta. Mas isso, claro, é como que um intervalo. Os prazeres que um cruzeiro oferece são outros: os que existem num resort turístico, um resort que neste caso, de deck a deck, se descobre ser afinal uma cidade de lazer flutuante. Mas adiantamo-nos.

A chegada ao Cais de Alcântara, em Lisboa, impressiona. À nossa frente, um barco de cruzeiro, o MSC Poesia, um dos onze da frota da companhia italiana MSC, empresa familiar fundada em 1970 que cresceu até se tornar, actualmente, líder de mercado no Mediterrâneo, África do Sul e Brasil - Sophia Loren, que baptizou todos os navios da companhia e que será homenageada pelo nome do décimo segundo em construção, o MSC Divina, estará orgulhosa.

Mesmo que os paquetes sejam hoje em dia presença habitual nos cais lisboetas, mesmo que já estejamos habituados a descer até Santa Apolónia e ver perante nós aquilo que Júlio Verne, como tantas outras vezes, acertou enquanto futuro - chamou-lhe "Cidade Flutuante" -, não podemos deixar de ficar impressionados. São, afinal, 60 metros de altura, 294 de comprimento, 32 de largura. 1275 cabines, mais de dois mil passageiros e cerca de mil tripulantes, divididos por 42 nacionalidades, 92 mil toneladas flutuando no Tejo.

O MSC Poesia chegara a Lisboa, porto sensivelmente a meio de uma viagem iniciada no sol do Mediterrâneo, em Génova, e que terminaria onze dias depois da partida, passados o Golfo da Biscaia e a Canal da Mancha, na cidade alemã de Kiel. A Fugas acompanhou parte da viagem para confirmar que Júlio Verne acertou na mouche. Escrevemo-lo antes: "Cidade Flutuante". "De lazer", interpusemos, não sem justificação.

Vejamos: teatro de 1200 lugares onde decorrem duas sessões diárias, recriando espectáculos da Broadway ou apresentando a tradição musical italiana, um casino, um salão de jogos e uma discoteca que, naturalmente, mais cresce em euforia quanto menor for a faixa etária a bordo. Ainda mais lazer, daquele que revitaliza e fortalece o corpo: no deck superior, a descoberto, estão disponíveis um court de ténis, um ringue de basquetebol, um pequeno minigolfe ou, para reactivar energias depois de um par de horas ao sol junto das piscinas, o ténis de mesa. Estes, descobrimo-los enquanto ainda há costa à vista. Depois da saída em alto mar, aí assim, muito há para fazer enquanto não chega o próximo porto e a visita em terra.

Passeando pelo barco, começamos por viver uma sensação de labirinto que se desfaz poucas horas depois. Não porque nos orientemos sem hipótese de erro, apesar de todas as direcções estarem bem assinaladas, junto dos elevadores ou dos lanços de escadas, antes porque essa deambulação descontraída faz parte da experiência. Existem as lojas e o Duty Free para libertar pulsões consumistas e, para as purgar, o spa balinês de 1060 metros quadrados e o ginásio sobre a torre de controlo - uma vista deslumbrante para acompanhar as flexões ou o pedalar na bicicleta.

No MSC Poesia descobre-se um pianista jazz a improvisar sobre Beat it, de Michael Jackson, no Bar Dei Poeti, relaxamos ao som de um trio de câmara junto à queda de água no foyer, recolhemo-nos para fumar um cubano ou beber um whisky numa sala isolada, a apropriadamente baptizada Hitchcock Lounge - sendo a MSC companhia italiana, não faltam espaços para nos entregarmos aos prazeres do fumo, não falta um wine bar, Il Grapollo d'Oro, que é viagem por Itália ao sabor da selecção de vinhos do país.

Se o objectivo for um convívio mais, digamos, exuberante, basta ir até à zona das piscinas, onde durante a tarde a animação é constante, ruidosa de música e de animadores tentando integrar os passageiros nos habituais jogos de dança ao som de ABBA e afins. Como alternativa, temos sempre as noites com bandas actuando nos lounges ou as tardes na sala Zebra, listada a condizer, onde podemos ser chamados a palco pelos animadores para iniciação às coreografias de Grease: "Olivia Newton John!", "John Travolta!", cantarão os grupos de enérgicos sexagenários alemães que, na viagem da Fugas, estavam em maioria entre os passageiros.

Resort em movimento

Existe uma ideia generalizada que associa a frequência de cruzeiros a faixas etárias mais elevadas, e ela confirma-se nesta viagem entre Génova e Kiel. Segundo Diana Rawes, do departamento de marketing da MSC Portugal, essa ideia é cada vez mais ilusória. "De meados de Junho até meados de Setembro", explica, "a média de idades baixa sempre, tal como na Páscoa e no Natal". São períodos escolhidos por famílias mais jovens, isto numa altura em que os cruzeiros surgem como hipótese de viagem muito procurada: é um resort em movimento que, sem o incómodo de "fazer e desfazer malas", permite conhecer outros lugares, dos fiordes escandinavos às ilhas gregas, das Caraíbas aos mares da África do Sul, do Magrebe ao golfo Arábico. A MSC, de resto, tenta não só fidelizar os clientes habituais - existe, por exemplo, um MSC Club que reúne e oferece vantagens a passageiros com vários cruzeiros no currículo - como captar clientes mais jovens, através de uma política que inclui a gratuitidade para os menores de 18 anos (pagam apenas taxas portuárias) ou descontos para famílias numerosas, a quem são cobrados preços inferiores à tarifa na reserva de uma segunda cabine. Os custos variam entre os 570 euros de um camarote interior e os 1070 de uma suite com varanda, numa viagem de cinco dias entre o Funchal e Génova, em Julho, a que se acrescentarão depois outros gastos, como as viagens organizadas em cada porto.

Com Lisboa a assumir-se como mais do que um porto de passagem - existe já oferta de cruzeiros Lisboa-Lisboa (os da MSC regressam em Setembro), o que naturalmente os torna mais económicos para os passageiros -, e com este segmento turístico a revelar um grande crescimento de ano para ano, começa também em Portugal a ultrapassar-se a ideia do cruzeiro como romantismo de décadas passadas, vivido por turistas veteranos.

No MSC Poesia, depois do jantar no óptimo Kaito Sushi Bar (boa variante num cruzeiro onde a gastronomia italiana é a norma), depois de passear mais uma vez pelos corredores e lounges, regressamos à cabine. Vigo já ficou para trás, tal como a turbulência da passagem pelo golfo da Biscaia. Sentados na cadeira, somos pingados pelo mar, pelas ondas bem maiores e imponentes que na calmaria luso-atlântica do dia anterior. As ondas continuam a bater no casco enquanto a lua ilumina o oceano e a cidade-cruzeiro avança sem terra à vista mas ela está por perto e pressentimo-la quando, de tempos a tempos, uma gaivota esvoaça ao sabor do vento. Naquele preciso momento, a horas de atracar em Southampton, aquela pequena varanda com uma mesa e duas cadeiras, silenciosa de animadores e do corrupio geral, é melhor que tudo o resto que o cruzeiro tem para oferecer.

 

Preços e itinerários

Neste momento, o MSC Poesia está a fazer circuitos no Norte da Europa. Partidas a 23 de Julho, 6 e 20 de Agosto, com partida e chegada a Kiel, na Alemanha, e escalas em Copenhaga (Dinamarca), Olden, Bergen, Kristiansand e Oslo (Noruega). Outro itinerário possível: saída de Kiel, mas escalas em Copenhaga, Estocolmo (Suécia), Tallin (Estónia) e São Petersburgo (Rússia). Preços em camarotes duplos: a partir de 1670€ para a primeira pessoa e 835€ para a segunda.

A Fugas viajou a convite da MSC

--%>