Hercule Poirot e Sherlock Holmes são dois dos detectives que há muito povoam o nosso imaginário e desmistificam o processo de resolução de crimes. Séries televisivas como CSI: Crime Scene Investigation só vieram reforçar o fascínio pela recolha e interpretação de pistas que, por fim, conduzem a um culpado. Quem já sonhou ser cientista forense ou detective, ainda que por um dia, tem agora a oportunidade de viver essa experiência na exposição "Crime no Museu", aberta até ao dia 2 de Outubro no Pavilhão do Conhecimento Ciência Viva, em Lisboa.
Logo à porta, uma mota de polícia anuncia que estamos a chegar a um local onde houve um crime. Ouvem-se sirenes. Televisões noticiam o homicídio. Ficamos a saber que o director do Museu de Ciências Naturais da Bélgica foi assassinado com um tiro no seu gabinete. Quem será o assassino? Há seis suspeitos e muitas provas para analisar nos laboratórios. A ciência tem um papel preponderante na investigação e os visitantes, adultos ou crianças, são convidados a conhecer melhor este processo.
Depois de se ouvir e avaliar atentamente a notícia, é-nos fornecido um folheto que servirá como caderno de investigação. O próximo passo será o contacto com a cena do crime. Fitas amarelas vedam o local, o gabinete do director do museu. Vemos uma poça de sangue no chão, marcas que evidenciam a posição do corpo da pessoa assassinada. Muitos vestígios exigirão dos cientistas forenses uma análise minuciosa, que é apresentada na exposição como essencial para atingir o objectivo final: a condenação do criminoso.
Identificar o culpado
"Ao longo de cada passo os visitantes vão tendo acesso a pistas", explica à Fugas Leonel Feliz, responsável pela Unidade de Educação, Ciência e Cultura do Pavilhão do Conhecimento. O responsável salienta ainda que "a interactividade desta exposição é um atractivo para os visitantes, que a cada passo vibram com as conclusões que vão tirando e que poderão conduzir ao culpado".
À medida que avançamos na exposição, os níveis de adrenalina disparam. Entramos no mundo da perspicácia, onde um olhar analítico para a cena do crime se revela fundamental. Cada evidência poderá ser a chave para a resolução deste crime. E o sucesso da investigação depende da sagacidade de cada um de nós, visitantes. E o mais intrigante: o que terá motivado o crime? Isso, só no final será desvendado.
Entre o reboliço e o entusiasmo, os visitantes anseiam descobrir a quem pertencem as pegadas, quem mordeu uma fatia de bolo encontrada do gabinete do director e, por fim, de quem é o ADN recolhido na cena do crime. Quem será o assassino? O taxidermista, a secretária do director do museu, o antiquário, a emprega de limpeza, o director de um museu estrangeiro, o porteiro ou o contabilista do museu? Uma certeza há: desta vez não é o mordomo.
Manuel Ferreira foi à exposição com os dois filhos. Um deles diz que quando for grande quer "ser polícia para prender os maus". Com um sorriso no rosto, e grande entusiasmo, ouvem as explicações que o pai lhes dá em cada laboratório por que vão passando e ambos vão fazendo as actividades. "É sem dúvida uma exposição muito apelativa porque todas as crianças vibram com esta temática", conta Manuel Ferreira. E confessa: "Estou a divertir-me com eles e também a aprender. Já me sinto um cientista forense, até agora tenho dois possíveis assassinos em mente, a ver vamos se algum dos meus palpites estará certo".
Visita aos laboratórios
A cena do crime é o ponto de encontro entre a ciência, a lógica e a lei. É nos laboratórios que a ciência entra em acção. Ao todo são oito. A montagem dos mesmos contou com a colaboração da Policia Judiciária e da Polícia de Segurança Pública. Ambas auxiliaram na adaptação da exposição à realidade portuguesa, uma vez que o conteúdo original se baseia no modelo legal belga. Em cada espaço laboratorial é-nos fornecida informação detalhada sobre o processo de resolução de um crime em Portugal.
No laboratório de balística os visitantes podem, por exemplo, perceber se a arma encontrada junto ao corpo da vítima foi a que disparou ou se foi o próprio director do museu a utilizá-la. Tanto neste como nos outros sete laboratórios, há muitas perguntas por responder. Quem esteve a comer bolo com o director? Quem deixou vestígios de fibras, saliva, sangue ou cabelos no gabinete? E a que horas morreu o director do museu? Estas são indagações que terão resposta mediante o tratamento das amostras nos laboratórios de odontologia legal, vestígios biológicos e entomologia forense, respectivamente.
Na parte dedicada à medicina legal, gavetas fazem adivinhar a aparente presença de outros cadáveres. Os visitantes podem abri-las e inspeccionar o que há no interior. Mas é um "corpo interactivo", que simboliza o corpo da vítima, que capta a atenção. Será mediante a análise desse mesmo corpo que se concluirá a causa da morte da vítima. Uma análise rigorosa é imprescindível pois a prova é um elemento fulcral para determinar a estratégia da investigação. Mas é preciso também identificar os falsos vestígios, pois estes podem ludibriar o investigador e comprometer a descoberta do assassino.
Será que o assassino usa óculos? Terá barba, será careca? É homem ou mulher? O próximo passo será fazer o retrato robô do principal suspeito. Assim construímos uma imagem mental e estamos aptos a rumar até à próxima fase. Afinal, nesta investigação não poderiam faltar os interrogatórios. Aí há oportunidade de ouvir os depoimentos de todos os suspeitos. Prestar atenção às expressões faciais e às incoerências dos discursos pode ser uma arma para apurar a verdade dos factos. Depois, é chegada a altura de ter o seu palpite de quem será o assassino. Caso tenhamos dúvidas, podemos sempre consultar a opinião do investigador de serviço.
Rodrigo Melo fez da visita ao Pavilhão do Conhecimento um programa familiar. Confessa ser "um apaixonado por livros policiais" e, por isso, não perdeu a oportunidade de visitar a exposição "Crime no Museu" com a neta. Este visitante acredita que "a exposição deveria ter um índice de idade mais definido e um melhor acompanhamento na explicação dos passos a seguir", uma vez que o grau de complexidade para uma criança de oito anos, por exemplo, é elevado. Contudo, confidencia que há um entusiasmo "pela magia da temática".
Também Sara Lopes, estudante da Licenciatura em Ciências Forenses e Criminais, tem "um grande fascínio por ciência e pelo mundo da investigação criminal". "Quem vier à exposição poderá sempre visitar também o resto do Pavilhão, o que aconselho vivamente pois faz qualquer pessoa ficar deslumbrada com o mundo da ciência e todas as suas aplicações práticas e divertidas", disse. Com o bilhete para a exposição "Crime no Museu", é possível visitar todo o Pavilhão do Conhecimento Ciência Viva.
Como estudante da área, Sara Lopes destaca o facto de a realidade transmitida pelos laboratórios ser ficcionada, "visto que não apresenta objectos reais". No entanto, considera as explicações teóricas que estão expostas em cada laboratório "muito interessantes e didácticas", e está convicta de que, ao lê-las, "aprende-se muito". "Seria importante também que as pessoas soubessem que o cientista forense não está em todo o processo, mas apenas na recolha e tratamento das provas, havendo especializações nas várias áreas forenses. No que respeita aos interrogatórios a testemunhas e suspeitos, estão a cargo dos elementos da Policia Judiciária", nota.
"Crime no Museu" é a primeira exposição do género em Portugal e, até 2 de Outubro, estão previstas actividades paralelas que complementam a exposição. É o caso dos jantares-mistério, nos quais todos os participantes são suspeitos, ou ainda de visitas a instalações da polícia e ciclos de conversas sobre ciência forense.
"Crime no Museu"
De terça a sexta-feira, das 10h00 às 18h00. Aos fins-de-semana e feriados, das 10h00 às 19h00. A entrada custa quatro euros para crianças e sete para adultos. O bilhete de família fica por 15 euros.
Até 2 de Outubro
http://www.pavconhecimento.pt/