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A beleza selvagem da Picardia

Por Luís Maio (texto e fotos)

Mutante, selvagem e poliédrica, a costa da Picardia é um dos troços mais fascinantes do litoral francês. Das falésias de Ault à baía de Somme, circulámos por paisagens marítimas onde a fotogenia e a inconstância sobressaem como duas faces de uma mesma medalha.

São 60 quilómetros de costa, espectaculares de uma ponta à outra e por mais do que uma razão. O destaque mais óbvio cabe à baía do Somme, rio que serpenteia languidamente durante 245 quilómetros, até finalmente se lançar na Mancha. Ocupando uma área de 72 mil hectares - um vasto triângulo que em terra se alonga por 14 quilómetros e tem uma frente de mar de cerca de cinco quilómetros -, o estuário do Somme é o maior do norte de França. Nele se sucedem bancos de areia, lamaçais, pradarias salgadas e canais de água. Além de rebanhos de ovelhas, acolhem uma profusa vida selvagem, do tipo que se dá bem em habitats de transição entre a terra e o mar. Inclui uma chusma de invertebrados, aves aos milhares e mesmo uma colónia de focas comuns.

A baía do Somme é a fractura mais dramática na linha costeira da Picardia. Para norte desenha-se um longo cordão de areias finas, amiúde bordadas por dunas que podem atingir os 30 metros de altura. Já para sul, mais precisamente a partir de Ault, arranca um longo harmónio de falésias costeiras, que só acaba 140 quilómetros mais a sul, já nas imediações do Havre. São falésias onde predomina o grés branco, estriado e cimentado por sílex, que chegam a atingir 100 metros de altura já na fronteira com a costa normanda. Quando a erosão provoca o desmoronamento destes majestosos paredões verticais, a camada de sílex estilhaça-se para formar praias de seixos, cobrindo a maior parte da faixa meridional do litoral picardo.

Ecrã de incerteza

Abrindo sobre a Mancha e o sudeste de Inglaterra (mesmo tipo de falésias no Kent), este pedaço da costa francesa fica também perto da Bélgica e a menos de 200 quilómetros de Paris. Surpreendente, atendendo a essas vizinhanças - e também à sua história como um dos primeiros destinos de praia do turismo europeu -, a fachada marítima da Picardia é a menos urbanizada de França. As estâncias balneares pouco cresceram em cem anos, não há grandes cidades portuárias, a construção de segundas casas fora dos centros urbanos é quase nula. Pouco urbanizado não é, porém, de modo algum equivalente a selvagem, pelo menos não na Picardia.

O vento raramente pára de soprar, o mar é mais frequentemente intempestivo, os ciclos das marés chegam a atingir amplitudes prodigiosas. A conjugação destas e mais forças naturais é impressionante e contribui para o programa de inconstância que a costa picarda oferece em sessão contínua. Especialmente apreciados são os degradés projectados pelas nuvens em desfile acelerado sobre os tapetes de areia da baía de Somme, bem como a gama de tonalidades laranja-avermelhadas que ganham as falésias de giz ao fim do dia.

Há, no entanto, factores menos aparentes que não param de redesenhar os cenários litorais da Picardia. A flecha costeira que vai encurvando desde Ault até à ponta de Hourdel (limite sul da baía do Somme), foi formada por camadas sobrepostas de seixos, ao longo dos últimos 5500 anos. Por sua vez, a planície de Marquenterre, na ponta oposta da mesma baía, deriva da acumulação de sedimentos transportados pelas correntes marítimas desde a Normandia. A própria baía de Somme tem vindo a ser redefinida pelo assoreamento, um processo que começou por ser natural - como se pode testemunhar na falésia morta onde assenta a cidade de Saint-Valery-Sur-Somme e que corresponde à primitiva linha litoral.

O assoreamento tem, no entanto, vindo a ser acentuado pela intervenção humana, desde a secagem de terras para pastagens e cultivo de cereais (os chamados "polder"), no século XII. A colmatagem foi, porém, acelerada no século XIX com a abertura de um canal que tornou o rio Somme navegável até à cidade de Abbeville (a 15 quilómetros da costa) e com as terraplanagens requeridas pela instalação do caminho-de-ferro. O ritmo do assoreamento é de dois a três centímetros por ano, desde o início da década de 60 do século passado, processo que obviamente está a ditar uma mudança profunda numa paisagem já de si em movimento perpétuo.

A experiência do charco

O constante devir ajuda a explicar a surpresa que a baía oferece aos visitantes na maré baixa, sobretudo nas alturas do ano em que o arco das marés se afigura mais pronunciado. A estrada acaba a sul na supracitada Saint-Valery-Sur-Somme, ou então a norte, em Crotoy, estâncias balneares que ficam quase frente a frente de cada lado do estuário. Mas nem numa nem na outra se consegue avistar a Mancha na baixa-mar, quando mesmo o rio é um fio de água a correr. Por isso, sempre que o tempo o permite, há gente que tira os sapatos para caminhar no estuário do rio.

De Crotoy a Saint-Valery-Sur-Somme, atalhando caminho pela baía do Somme, são cerca de seis quilómetros a pé. Parece um trekking ligeiro, mas não é bem assim. Os muros de areia de alguns metros de altura que correm ao longo do estuário, perpendiculares ao mar, são separados por valas pantanosas, onde facilmente se atola até à cintura. Mais perigoso ainda, as marés mudam num abrir e fechar de olhos, sendo que o nível das águas pode subir oito a onze metros numa questão de minutos.

É, por consequência, altamente recomendável empreender a travessia na companhia de um dos 37 guias da associação Promenade en Baie, para evitar percalços e não só. Para além de informações sobre tópicos como o assoreamento e o ritmo das marés - estas excursões só arrancam uma hora antes da baixa-mar, por questões de segurança -, os guias fazem múltiplas paragens ao longo de meio-dia de caminhada, para lançar luz sobre os mais variados aspectos deste complexo ecossistema. Vai de esquadrinharem o areal para desenterrarem toda a espécie de invertebrados a esclarecerem o comprimento dos bicos das aves consoante a profundidade a que os primeiros se encontram enterrados nos pântanos. Pelo meio passam em revista um sortido de plantas do pântano, óptimas para a salada.

A travessia do descampado ondulante, mesmo na companhia de um guia, é sempre uma aventura - porventura a forma mais genuína de explorar este singular ecossistema. Há, porém, outras modalidades desportivas de explorar a baía (caiaque no estuário, bicicleta à volta), que também se pode cruzar em meios de transporte doutros tempos.

Festim ornitológico

Mais popular é a linha de caminho-de-ferro que liga as duas cidades nas extremidades da baía, entre as quais circulam comboios centenários movidos por locomotivas a vapor. Entrevê-se a baía ao longo do percurso, mas, de resto, a verdadeira estrela deste programa de nostalgia é o próprio tortillard (à letra: via férrea sinuosa) e a composição-brinquedo que nele circula. Torna-se especialmente animado aos domingos e dias de festa, quando bandos de entusiastas locais sobem às carruagens vestidos com guarda-roupa de época.

O Somme II é outra relíquia em funcionamento. Barco-balizeiro chamado a sinalizar a navegação à entrada do rio, em 1949, veio mais recentemente a ser recuperado para fins turísticos. Apenas uma vez por dia, aproveitando a maré, levanta ferro do cais de Saint-Valery em direcção à ponta de Hourdel, seguindo a antiga rota de balizas. É a melhor ilustração da dinâmica do estuário, oferecendo pelo caminho instantâneos de vida selvagem com destaque para aparições de focas e bandos de aves migratórias.

Nenhuma estadia na baía de Somme fica, no entanto, completa sem uma visita ao domínio de Marquenterre. Vasto território de 10 mil hectares subtraídos ao mar, integra uma sequência de praias, dunas e pinhais, classificadas como a fatia de costa mais selvagem do litoral norte de França. Uma preservação que em boa parte se explica por estas terras servirem de poiso a milhares de aves e, nessa medida, serem tradicionalmente reservadas para coutos de caça. Um dos proprietários, no entanto, preferiu dedicar-se ao cultivo de tulipas, depois da Segunda Grande Guerra, até que a concorrência holandesa arrasou o negócio. Acabou por decidir devolver a terra aos pássaros, para irritação dos vizinhos caçadores e base de um parque ornitológico, oficialmente inaugurado em 1994.

Está agora em discussão pública a criação de um parque natural marinho compreendendo todos os estuários picardos, que deverá condicionar ou mesmo excluir muito da caça e da pesca avulsas, ainda comuns na região. Para já, no entanto, o que há são os 260 hectares do Parque Ornitológico de Marquenterre, "mar em terra" que serve de residência ou de hotel a uma multidão de aves de 360 espécies. A concentração é fácil de compreender: os pássaros disseminam-se um pouco por toda a baía à procura de alimento, mas depois na maré cheia refugiam-se neste oásis onde sabem intuitivamente que não há tiros.

Consoante as alturas do ano podem-se avistar andorinhas-do-mar, corvos-marinhos, galinhas-do-mato, garças-reais, maçaricos, mergulhões-de-crista, patos-colhereiros e rouxinóis, para além de aves sedentárias como galinholas-dos-pântanos. O parque oferece seis quilómetros de percurso sinalizados e 14 cabanas de madeira, onde se encontram guias que direccionam a observação e explicam tudo sobre os pássaros.

Perfume Belle Époque

Se a baía do Somme é a aventura, então Mers-les-Bains é o principal foco de magia da costa picarda. Ao lado desagua o Bresle, rio que a separa de Trepórt e da Normandia. Aos seus pés fica uma monumental praia de seixos a beijar a Mancha e, nas costas, levemente para norte, elevam-se as falésias verticais de grés, que na outra margem continuam em Trepórt. O enquadramento paisagístico é magnífico e, só para tornar as coisas ainda mais interessantes, a fachada marítima de Mers é forrada por um conjunto de edifícios, dignos de qualquer best of da arquitectura balnear da Belle Époque.

A moda dos banhos e a ligação ferroviária com Paris, inaugurada em 1873, colocaram Mers-les-Bains no mapa das primeiras estâncias balneares de França. A edilidade soube, aliás, tirar partido do hype turístico, vendendo a improdutiva frente marítima em retalhos tão estreitos quanto possível. Daí resultou uma profusão de prédios altos e magros, onde a burguesia parisiense transferiu as suas rivalidades na ostentação. Milagrosamente poupada pelas bombas de ambas as guerras mundiais, bastante esquecida depois da segunda e recuperada desde meados dos anos 80, Mers-les-Bains conseguiu manter intacto, ou quase, um fabuloso património arquitectónico onde se recenseiam 300 edifícios, que vão do Ecletismo ao Art Déco, passando sobretudo pela Arte Nova.

A frente de mar e quarteirões adjacentes são assim constelados de edifícios ousados e fantasistas, onde sobressaem as alternâncias de tijolos coloridos, as formas sinuosas dos balcões de madeira ou de ferro forjado, as janelas de sacada elegantes, as esculturas e os painéis cerâmicos ricamente ornamentados. Contracenando com as longas filas de barracas brancas de praia, os montes de seixos, as ondas do mar e os altos muros de grés vivo, os edifícios que compõem a frente de mar de Mers-les-Bains são como um museu a céu aberto. O passeio marginal, longo de mais de um quilómetro, é a plateia mais comum, mas as falésias que emolduram a praia, de ambos os lados do rio Bresle, funcionam também como excelentes balcões, sobretudo à hora "mágica" do pôr do sol.

Das traseiras de Mers-les-Bains parte um carreiro pedonal à beira das falésias que cerca de duas horas depois conduz a Ault, onde acaba o planalto picardo. Pelo meio há uma pequena chanfradura entre as falésias, coberta pelo Bosque de Cise, única mancha arborizada desta costa. A cavalo nas falésias, de ambos os lados dessa valleuse, há mais jóias de arquitectura balnear, certificando este escaninho de litoral como um dos mais fotogénicos de França.


Informações

Quando ir
A Primavera e o Outono são as estações ideais para visitar o litoral picardo, por razões que vão dos céus e da luz às migração das aves. Outro factor a ter em conta é o calendário das grandes marés: as próximas são de 27 a 30 de Setembro, 26 a 29 de Outubro e 25 a 27 de Novembro.

Como ir
Lisboa-Paris, ida e volta na Air France desde 86€ (www.airfrance.pt). A linha de comboio Paris (Gare du Nord) -Boulogne faz paragens em Abbeville, Noyelles-sur-Mer e Rue, todas próximas da baía de Somme (mais informações em www.raileurope.com)

Onde ficar

Le Cise Route De La Plage - Bois De Cise, Ault. Tel.: +33 (0) 322264646. www.lecise.fr
Localização fantástica frente ao mar, num recanto quase privado do bosque de Cise. O design de interiores é mais deslumbrante que a arquitectura propriamente dita. Perfeito para casais românticos com duplos desde 120€.

La Femme d'à Cote - Rue du Puis Salé, 2. Saint-Valery-Sur-Somme. Tel.: +33 (0) 687956837. www.lafemmedacote.fr
Prédio de esquina, no centro medieval da cidade, agora convertido em "hotel chic et design". Todo forrado a negro com fotografias de celebridades do passado, tem um certo ambiente a velho policial. Duplos a 85€.

Le Ridin Mayocq, Crotoy. Tel.: +33 (0) 322270322
Não chega a ser glamping, mas os parques de campismo da costa picarda pautam-se por uma qualidade de equipamentos acima da média. Como este com piscina descoberta e aquecida, onde se pode acampar à vontade em 4,5 hectares estilo quinta. Também dispõe de cabanas com kitchenette. Forfait para dois entre os 16 e os 21€.

Onde comer

Le Nicol's - rue de la Ferté, 45. Tel.: +33 (0) 322268296
Numa rua onde se sucedem as casas de petiscos e restaurantes, este é aquele que mais vale a pena (o único?) na especialidade de peixes e mariscos. Menus a 20€

L'Horizon - rue de Saint-Valery, 31, Ault. Tel.: +33 (0) 322604321
Tasca com vista para o mar e decoração bricabraque, a especialidade é um chucrute de mariscos que quase não cabe no prato. Anda pelos 20€.

Les Mouettes. L'esplanade du General-Leclerc. Tel.: +33 (0) 235863038
Estilo barracão ao fundo da praia, arruina as fotografias, mas serve bem e barato. Depois, onde se come bem, mas muito mais caro em Mersles-Bains, é nos restaurantes dos hotéis.

Na net:
www.franceguide.com/pt
www.somme-tourisme.com
www.somme-nature.com

A Fugas viajou a convite da Air France e da Maison de France

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